Resenha: Espere Agora Pelo Ano Passado - Philip K. Dick

Por trás de guerras interplanetárias e viagens no tempo, os verdadeiros alienígenas de PKD são as mulheres.

fevereiro 05, 2019 - Postado Por: Clara Gianni
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Por trás de guerras interplanetárias e viagens no tempo, os verdadeiros alienígenas de PKD são as mulheres.



Tenho uma relação de ambivalência com Philip K. Dick. Se, por um lado, o autor raramente desaponta em termos de construção narrativa, ritmo e plot twists, o mesmo não pode ser dito de suas personagens femininas, frequentemente relegadas aos papéis de femme fatales, chaves de cadeia ou esposas amarguradas. Por vezes, é até possível ignorar os traços de misoginia que pulam aqui e acolá na obra do autor, a fim de aproveitar o worldbuilding e a atmosfera concisa de suas narrativas de ficção científica. Este não é o caso de “Espere agora pelo ano passado”, entretanto.

O ano é 2055. A Terra entrou de carona em uma guerra que nunca fora sua, aliando-se ao planeta Lilistar (habitado por seres muito similares aos humanos, embora fisicamente superiores) contra os reegs, raça de aspecto artrópode. Embora pareçam ter comprado o lado errado da briga, os terráqueos não têm muita esperança em voltar atrás. Em meio ao caos interplanetário, o médico cirurgião Eric Sweetscent tem seus próprios problemas: passando por um casamento tumultuado, o homem é constantemente lembrado pela esposa, Kathy, de sua mediocridade. Ambos trabalham para a empresa Tijuana Fur & Dye (TF&D), cuja função de Eric é oferecer assistência médica a seu diretor centenário, Virgil Ackerman, substituindo seus órgãos defeituosos por sintéticos (chamados “artificiórgãos”) sempre que a necessidade pedir; paralelamente, Kathy ocupa uma posição muito maior e proeminente como curadora e pesquisadora histórica de antiguidades, resgatando artefatos antigos para a colônia de Ackerman em Marte, Wash-35. Tudo muda, contudo, quando Eric é convocado a compor a equipe médica do Secretário-Geral da ONU e líder estadista planetário Gino Molinari, aparentemente à beira da morte; em paralelo, Kathy entra em contato com uma estranha droga, JJ-180, capaz de alterar a percepção espaço-temporal de seus usuários (possibilitando viagens no tempo), cujo papel na guerra interplanetária pode ser muito maior do que parece.

O livro é um daqueles casos em que a narrativa ficcional e a realidade de seu autor se confundem. Lançado em 1966, “Espere agora pelo ano passado” coincide com duas épocas relevantes na vida de PKD: seu divórcio de Anne Williams Rubinstein, sua terceira esposa, em 1965; bem como seu período de massiva produção literária em meados dos anos 60 — a essa altura, Dick já havia ganho o Prêmio Hugo por “O Homem do Castelo Alto”, em 1963. Deste período, a obra herda a agilidade da trama, o ritmo frenético e o interessante uso das viagens no tempo como ferramentas narrativas, além de uma excelente construção dos plot twists. Já as marcas do divórcio parecem estar muito bem documentadas, não apenas na relação entre Eric e Kathy, como também no retrato de todas as personagens femininas na trama.

Ressalto o casamento em ruínas das duas personagens porque ele serve como um paralelo entre o que está acontecendo com a Terra do lado de fora: a deterioração do relacionamento entre Kathy e Eric (em escala micro) progride na mesma proporção que a guerra entre Lilistar e os reegs (em escala macro). A FC soft de PKD — isto é, uma narrativa não tão focada nos aspectos mais científicos, mas no fator humano envolvido — busca por uma análise da psique das personagens por trás dos grandes acontecimentos da trama, a fim de investigar suas motivações e desejos por trás. Dada a sua proximidade de Gino Molinari, Eric passa a ocupar uma posição decisiva no destino da Terra; suas decisões, portanto, devem ser analisadas por este viés.

Eric não é muito diferente dos protagonistas das obras de PKD: homem de classe média que, em tese, deveria levar uma vida relativamente estável e tranquila. Trabalhando na TF&D há mais tempo, é Kathy quem emprega Sweetscent como cirurgião pessoal do dono da empresa, embora faça questão de ressaltar que o marido necessita ter mais ambição, não se conformar com o que lhe foi dado, e buscar mais do que já tem. Observando que Eric perde muito de seu tempo com coisas supérfluas, Kathy também se irrita com a falta de atenção que recebe. Desde o início, somos levados a empatizar com o protagonista e acreditar que sua esposa é uma “vadia nojenta e manipuladora” da pior espécie. A despeito de haver uma explicação para as mudanças de humor de Kathy, muito do que observamos das brigas entre ambos é do ponto de vista de Eric. E, embora muito se diga sobre como ambos contribuíram para que a situação chegasse ao ponto em que chegou, é como se apenas Kathy fosse responsável, na prática.



A questão é que Kathy Sweetscent é uma mulher bem-sucedida, ganha muito mais que o marido, e ocupa cargo superior. Também é uma viciada em drogas e alucinógenos, de comportamentos histéricos e psicóticos, puxando o marido para o fundo do poço e, finalmente, tornando-se uma espécie de “karma” para o homem, perto fim do livro. O modo como PKD a concebe — uma mulher passivo-agressiva, desequilibrada, recaindo no clichê da “histeria feminina”, emocionalmente dependente do marido medíocre — é degradante, alcançando as vias do caricato. Voluptuosa, bela e nua, ela ainda recai no clichê da súcubo insaciável que sempre deseja mais e mais do protagonista, incapaz de suprir suas necessidades, uma vez que elas mudam tão rápido como aparecem, reforçando a velha ideia de que as mulheres não sabem o que querem, e que é impossível entendê-las.

Em alguns momentos, é quase como se o livro fosse uma carta raivosa de Philip K. Dick, não apenas à sua terceira ex-esposa, mas a todas as mulheres com que se relacionou até então:

“— Está dizendo que a esposa dele está viciada na JJ-180 — disse Taubman — e que ele não vai tentar ajudá-la?
— Você não é casado — disse Willy K. — No casamento pode-se produzir o maior ódio que pode existir entre dois seres humanos, talvez por causa da proximidade constante, talvez porque em algum outro momento houve amor. A intimidade permanece, mesmo com o elemento amor tendo desaparecido. Então, começa a nascer uma luta pelo poder, uma batalha pela dominação do outro”. (pg. 215)

É só observar como Kathy é descrita por outros personagens para entender que essa “luta pelo poder” jamais ocorre em pé de igualdade. Quase todos os personagens a observam da mesma ótica que Eric:

“Era Katherine Sweetscent, sexy, de língua ferina. (...) A sra. Sweetscent usava vestimentas diferentes das que costumava trajar no trabalho, o que também não o surpreendeu. Para a expedição misteriosa daquela noite, Kathy viera nua da cintura para cima, cobrindo apenas os mamilos, é claro. Eles haviam sido não propriamente esmaltados, mas cobertos com uma camada de matéria viva, senciente, uma forma de vida marciana, de modo que cada um deles possuía uma consciência própria. Cada um dos mamilos reagia, alerta, a tudo que ocorria em volta”. (pg. 51)

Ou ainda:

“(...) Ele olhou para Katherine Sweetscent. — Seus mamilos parecem estar me observando, ou será minha imaginação? Em todo caso, isso me deixa bem pouco confortável”. (pg. 55)

(Algumas passagens me fazem questionar se eu estaria realmente lendo uma das maiores figuras da ficção científica new wave, ou as fantasias bestas de um moleque de doze anos)

Ressaltem-se, ainda, personagens esporádicas como Mary Reineke e Patricia Garry, meninas com pouco mais de 18 anos, que são apontadas como potenciais parceiras sexuais de homens com o dobro de suas idades. Mary é apresentada como a amante de Gino Molinari, resgatada pelo estadista assim que a jovem concluíra o ensino médio, e única capaz de colocar ordem na vida do homem, ou convencê-lo a tomar decisões importantes — fortalecendo mais uma crença problemática de que certos homens necessitam de uma mulher “com jeito” para resolver suas vidas. Sua participação é rápida, apresentando-a brevemente como “precog” (grupo humano com mutações genéticas, recorrente nos contos e romances de PKD, como Minority Report). Patricia (prima de Mary), por sua vez, é uma jovem de 19 anos aspirante a atriz, apresentada a Eric por Molinari como uma “opção”, assim que se separasse de Kathy. Talvez algumas pessoas sintam-se inclinadas a afirmar tais situações como uma espécie de “crítica” do autor, apenas para reforçar a mediocridade de seus personagens masculinos, mas considero bem pouco provável.

Há outras que vão e vêm, como a promissora Phyllis Ackerman, que parece ser uma personagem inteligente e perspicaz, mas que se reduz a uma única aparição, e tão somente para servir de tentação ao desesperançado Eric (“Tenha um caso comigo!”). No geral, não há uma única mulher nesta trama que não seja colocada em seu devido lugar de alguma forma, em algum momento.

Em uma das últimas cenas de “Espere agora pelo ano passado”, Eric reflete acerca da inevitabilidade do tempo e das decisões que tomou, observando um grupo de garotas atravessando as ruas de Tijuana:

“O problema com garotas assim, pensou, é que envelhecem muito rápido. O que se diz por aí é verdade: aos trinta anos estão gastas, gordas, o sutiã e o casaco e a bolsa já desapareceram e tudo que resta são os olhos negros e ardentes por baixo das sobrancelhas grossas, enquanto a criatura esguia de antigamente continua aprisionada lá dentro em algum lugar, mas é agora incapaz de erguer a voz, de brincar, de fazer amor, de fugir correndo. O estalido dos saltos no calçamento, o impulso que as arremete de encontro à vida, tudo isso já se foi, deixando para trás apenas o som de algo que se arrasta e que chafurda”. (pg. 286)

Diante de temas tão complexos como as alterações no espaço-tempo provocadas pelos protagonistas, além da intrincada teia de relações entre a Terra, Lilistar e os reegs, é marcante como o fator do incompreensível ainda resida nas mulheres. Ao se afastar delas, colocando-as como criaturas que os homens não entendem, Dick relega-as à posição de “Outro” em relação ao homem “Universal” em si mesmo — citando conceitos da filósofa Simone de Beauvoir. Nesta perspectiva, a condição feminina é tão alienígena aos homens quanto o são os reegs.



Os méritos do livro são a agilidade narrativa, como dito antes, e o bom emprego dos efeitos da droga JJ-180 dentro da trama — as experimentações alucinógenas são outra marca registrada do autor. As viagens no tempo servem para evidenciar o caráter das personagens através de suas escolhas, seja no passado, seja no futuro. Ao fim do livro, após termos visitado diversos futuros alternativos, a sensação final é aquela provocada pelas tragédias gregas: de que é impossível escapar do destino. Não qualquer destino, mas aquele que escolhemos para nós através de nossas decisões. A doença psicossomática de Molinari, e a relação da droga com a guerra em curso, também são muito bem utilizados e explorados. PKD parece ter encontrado o ritmo que o consagrou, algo não tão evidente em “O Tempo Desconjuntado” (lançamento anterior da Suma), e a trama aqui encontra-se muito mais fluida.

Infelizmente, nada disso compensa o festival de misoginia que o livro se tornou. Ao escolher tratar de relações conjugais como um dos principais temas, PKD evidenciou não apenas seu ponto de vista a respeito dos problemas de uma vida a dois, mas também sua profunda inaptidão para desenvolver personagens femininas em seus livros, ou tratá-las como sujeitos da mesma forma que trata seus personagens masculinos. É importante que nos lembremos destes detalhes, mesmo mais de cinquenta anos após estes lançamentos, pois o legado de Philip K. Dick ainda influencia diversas obras de ficção científica até hoje. Ressaltar os traços de machismo/sexismo em obras consagradas é uma tarefa árdua, mas necessária para que as autoras e autores das próximas gerações não naturalizem os erros do passado.

E mais importante: não os repitam.


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Espere Agora Pelo Ano Passado (Now Wait for Last Year)
Autor: Philip K. Dick
Editora: Companhia das Letras (Selo Suma)
Ano: 2018
Skoob: 4.0 estrelas / Goodreads: 3.8 estrelas
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3 Estrelas
O dr. Eric Sweetscent está em apuros. Seu planeta está enredado em uma guerra intergaláctica; sua esposa é letalmente viciada em uma poderosa droga com efeitos colaterais estranhos; e seu novo paciente não é apenas o homem mais importante da Terra, como talvez o mais doente. Em meio a uma crise interplanetária, onde nada é exatamente o que parece, Eric se torna o médico pessoal do secretáriogeral Gino Molinari, que transformou suas misteriosas doenças em um instrumento político — e Eric já não sabe se seu trabalho é curálo ou apenas mantêlo vivo.
Autor: Philip Kindred Dick, também conhecido pelas iniciais PKD, foi um escritor americano de ficção científica que alterou profundamente este gênero literário. Apesar de ter tido pouco reconhecimento em vida, a adaptação de várias das suas novelas ao cinema acabou por tornar a sua obra conhecida de um vasto público, sendo aclamado tanto pelo público como pela crítica e tornando-se um ícone da contracultura.

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