Resenha: Dracul - Dacre Stoker e J. D. Barker

Fruto de um levantamento documental e pesquisa minuciosa, esforço conjunto dos co-autores J.D. Barker e Dacre Stoker, Dracul busca fazer justiça à obra original de Bram Stoker

janeiro 08, 2019 - Postado Por: Clara Gianni
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Fruto de um levantamento documental e pesquisa minuciosa, esforço conjunto dos co-autores J.D. Barker e Dacre Stoker, Dracul busca fazer justiça à obra original de Bram Stoker.




O mito vampiresco é uma constante na cultura popular desde os séculos XVIII e XIX. Em paralelo aos antigos mitos folclóricos europeus que pintavam a criatura como monstruosa, observa-se uma produção literária, entre estes séculos, povoada por seres sobrenaturais envolventes, até mesmo sensuais, mas sempre aterrorizantes. Dentre os exemplos mais conhecidos, vêm à mente “The Vampyre”, de John Polidori (um dos frutos da conhecida aposta travada entre Lord Byron, Mary Shelley, Percy Shelley e o próprio Polidori), – que traz o arquétipo do vampiro masculino elegante e irresistível – e “Carmilla”, de Sheridan Le Fanu – abarcando, por sua vez, o arquétipo da vampira lésbica lasciva e sedutora contra jovens inocentes (sobre as mulheres na literatura vampírica, recomendo esse post excelente do Fright Like a Girl).

A síntese destes retratos mais “refinados”, somados à selvageria mais crua presente nos mitos antigos, é o clássico Drácula, de 1897. Mas como apresentá-lo a uma audiência vitoriana na era da ciência, do otimismo e do progresso?

Um dos maiores méritos da obra de Bram Stoker para a literatura de terror é seu estilo: recortes de jornal, relatos perdidos e páginas de diário compõem a tapeçaria narrativa da obra. A linguagem é direta para a época, com indivíduos comuns da sociedade britânica descrevendo os acontecimentos. O medo não apenas reside naquilo que é testemunhado, mas também no que é deixado para a imaginação, quando a razão cartesiana já não é capaz de explicar o que se desvela diante dos leitores. É fácil imaginar como o livro tenha aterrorizado tanta gente, se pararmos pra pensar que filmes de terror ou horror “baseados em fatos reais” fazem bastante sucesso até hoje. Sem falar nos famosos filmes “found footage”, cuja premissa de medo reside justamente num suposto realismo documental das imagens exibidas.

Além disso, o próprio Drácula se distancia, em muito, de suas caracterizações mais recentes que o humanizam, buscam justificar seus atos ou, no mínimo, colocá-lo como uma personagem ambígua e moralmente cinzenta. Na obra original, o vampiro é a própria personificação do mal, um monstro asqueroso cujas razões desprezíveis não deixam espaço à empatia.



Em Dracul, uma espécie de prequel dos acontecimentos de “Drácula”, os autores J.D. Barker e Dacre Stoker (este último o sobrinho-bisneto do próprio Bram Stoker) propõem-se não apenas a revisitar a narrativa original, como também incorporar a própria atmosfera misteriosa que cerca a publicação da mesma. Embasando-se em manuscritos e cenas suprimidas do romance de 1897, bem como das anotações do diário de Bram, e elevando alguns acontecimentos da vida do autor, os autores estreitam as fronteiras entre realidade e ficção, inserindo-o como protagonista de uma nova história, ainda que fiel aos cânones pré-estabelecidos pelo clássico que o antecedeu.

Confesso que iniciei a narrativa com o pé atrás: esta não é a primeira empreitada de Dacre Stoker no legado literário de sua família, tendo escrito uma continuação “oficial” de Drácula denominada “Drácula, The Un-Dead” em 2009, cuja recepção não foi lá das melhores. Decidi me arriscar com Dracul, contudo.

A história é contada em pontos temporais paralelos: o primeiro deles é em 1868, do ponto de vista em terceira pessoa de um jovem Bram Stoker montando vigília no quarto de uma construção antiga, armado de uma espingarda Smith & Wesson e de relíquias sagradas como água benta, crucifixos e rosas abençoadas, para impedir a entrada de uma criatura demoníaca no aposento. Durante a longa noite que se segue, o rapaz rememora todos os eventos que o levaram até aquele momento. Este é o segundo ponto de vista da narrativa: as entradas no diário de Stoker (em primeira pessoa), primeiramente sobre a infância em Clontarf, na Irlanda, quando era apenas uma criança moribunda padecendo de um mal desconhecido, até os anos mais recentes da juventude. Há, ainda, cartas escritas por sua irmã Matilda Stoker, além de anotações no diário do irmão mais velho, Thornley. Em todos, um denominador comum: a presença da misteriosa Ellen Crone, babá na casa dos Stoker durante a infância dos irmãos. Após um evento testemunhado por Bram e Matilda ainda pequenos, a figura de Ellen não cessa de abandonar seus pensamentos. De alguma forma, a antiga cuidadora da família está interligada ao monstro que Bram necessita eliminar no presente.

Aos 22 anos, Bram já não possui mais nenhum sinal da enfermidade que o acometera na infância, trabalhando em um cargo público administrativo, paralelamente ao ofício não-remunerado de crítico de teatro; Matilda segue com uma carreira artística bem-sucedida, tendo retornado de uma exposição de suas obras em Paris; e Thornley tornou-se um dos mais prestigiados médicos da região. Diversos eventos insólitos inter relacionados reúnem o trio, mesmo anos após o desaparecimento da babá, a fim de que descubram seu paradeiro.

Mencionei logo cedo que um dos maiores méritos da obra de 1897 é o estilo quase jornalístico com o qual os acontecimentos são relatados, junto a uma escrita epistolar acessível – isto é, a transcrição das cartas que os personagens enviam uns para os outros, além das entradas em seus respectivos diários. Aqui, em Dracul, é bastante perceptível o esforço dos autores em resgatar o estilo epistolar e incorporá-lo na nova trama, algo que já representa um mérito por si só; o livro anterior de Dacre (co-escrito com o autor Ian Holt), “O Morto-Vivo”, fora muito criticado justamente pelo desrespeito ao estilo pelo emprego de uma narração rápida, quase cinematográfica. Até certo ponto, é possível dizer que o autor se redime, muito por conta da qualidade narrativa de seu atual co-autor, J.D. Barker. Em certos pontos, contudo, a narrativa em forma de diários ou cartas nem sempre parece muito natural, especialmente no início, que me pareceu um pouco arrastado.



Ainda sobre estilo, algo que não me escapou aos olhos foi a incorporação de vocabulário, frases mais elaboradas e alguns tipos de expressões que me remontam à narração melodramática dos romances góticos do século XIX, atualizada a uma audiência mais moderna. Não lembro de ler muitas histórias lançadas recentemente que tenham resgatado estes pequenos detalhes, mesmo aquelas cuja ambientação antiga possibilitasse algo do tipo. É bastante interessante, e denota a preocupação com um trabalho de pesquisa reforçado e detalhado sobre o material de origem.

Embora Bram Stoker seja o protagonista, ele não é nem de longe a personagem mais interessante do romance. Seu ponto de vista não é tão cansativo de acompanhar (salvo no início), mas não se trata de uma personalidade de grandes atrativos, sendo até um pouco genérica. Thornley também entra pelo meio, embora ganhe alguns atrativos a mais, em função do apego, beirando a obsessão, para com sua esposa enferma (o que me lembra um pouco a relação entre Lucy e seus três pretendentes, especialmente o Dr. Seward, em “Drácula”) e suas ligações com o famoso Clube do Inferno, grupo secreto de intelectuais para estudos acerca do que a ciência de então não conseguia explicar.

Matilda Stoker chama a atenção pelo sarcasmo, altivez e pulso firme para com os irmãos – de certa forma, ela é tudo aquilo que Mina Murray (noiva de Jonathan Harker em “Drácula”) poderia ter sido mas não o foi, em função de sua submissão a Van Helsing; Matilda não tem medo de tomar as rédeas da missão quando os rumos da busca não a agradam, ou de chamar a atenção de Bram e Thornley quando ambos perdem a perspectiva (embora tenha me incomodado a quantidade de “gritinhos” que ela solta ao longo da trama, como se os autores se sentissem na necessidade de nos recordar de que Matilda ainda é uma “dama frágil”). A própria Ellen Crone é intrigante de maneira bastante convincente, e seu mistério se constrói de forma cuidadosamente intrincada na narrativa. A personagem mais ambígua do livro inteiro, contudo, sem dúvida é Arminius Vambéry, membro do Clube do Inferno e amigo próximo de Thornley (e possível inspiração do Bram Stoker da vida real para a personagem de Van Helsing), por ele convocado para auxiliar na missão, em função de seus mais variados contatos escusos na sociedade britânica; até a última página, não é fácil entender exatamente quais são suas intenções.



A grande figura maléfica da trama também é muito bem desenvolvida, e aqui devo ressaltar um ponto fundamental: comentei anteriormente que as representações mais recentes buscam relativizar ou humanizar a depravação vampiresca. Devo dizer que isso não acontece em Dracul. Os autores se mantiveram bastante fiéis ao retrato da criatura tal qual Bram Stoker a concebera em seu romance, não apenas quanto ao caráter bestial e deformado do monstro (mesmo as criaturas vampirescas mais humanizadas da trama possuem seus momentos de loucura sanguinária), como também quanto às próprias convenções instituídas em “Drácula”. Aqui, vampiras e vampiros são capazes de se dissolver no ar, transformar-se em animais, e inclusive andar sob a luz do sol (embora incapazes de usar seus poderes, sendo consideravelmente mais fracos que durante a noite). Não há nenhuma incoerência, e está tudo de acordo com o romance de 1897.

O desfecho é agridoce, coerente com as personagens, sem grandes malabarismos, e mostra as consequências de uma jornada empreendida tendo a paixão como mola propulsora. Este é outro ponto positivo que eu gostaria de destacar: Dracul também é uma história de amor, mas não o amor romântico sacralizado que encontramos nas mídias. Trata-se de um amor intenso e verdadeiro, na mesma medida em que é cruel, destrutivo e sem precedentes para todos os que estão por perto. É sempre muito interessante ler histórias em que o sentimento amoroso assume formas feias e compulsivas – e inclusive é reconhecido e demonstrado nas narrativas como tal – pois, na vida real, o amor pode se tornar exatamente isso.

Ao final do livro, há algumas páginas extras em que os autores revelam um pouco sobre o processo de recuperação dos manuscritos e documentos originais, além de detalhar a influência específica de duas obras do cânone de Drácula para a prequel: o conto “Dracula’s Guest” (capítulo inicial do livro original, cortado na edição final e recuperado recentemente, já estando disponível em algumas edições nacionais mais recentes), bem como “Makt Myrkranna” (tradução islandesa de Drácula, com diferenças consideráveis do original em relação a estilo narrativo, com adição de alguns novos personagens. Sua edição brasileira será lançada em breve e inclusive já teve post por aqui sobre), ambos redescobertos em meados dos anos 1980. Tanto o conto como a tradução possuem base em escritos do próprio Bram Stoker, gerando diversas especulações quanto à mensagem que o autor desejava passar com a obra. Personagens como a Condessa Dolingen von Gratz (presente em “Dracul”) possuem suas primeiras aparições nestes originais, e é muito intrigante a atmosfera de mistério que os autores colocam em torno dos documentos recuperados.

No geral, “Dracul” se revela uma prequel bastante competente ao legado deixado por “Drácula”. Embora a narrativa possa se arrastar e cansar em alguns momentos, o trabalho dos autores compõe uma trama envolvente na qual as fronteiras entre ficção e realidade nem sempre são determináveis, fiel ao lore e à mitologia construída há mais de 120 anos, além de trazer uma mensagem surpreendentemente realista acerca das consequências de uma jura de amor verdadeiro levada a seu mais sangrento extremo.

“Ela segurou a cruz de encontro ao peito e fechou os olhos. Quando comecei a me afastar, ela disse uma sentença final, com a mais calma das vozes:
– A morte está vindo para nós; será maravilhoso.
Minha esposa então entrou no mais tranquilo dos sonos .” (pg. 180)


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Dracul ()
A origem de um monstro
Autores: Dacre Stoker e J. D. Barker
Editora: Planeta de Livros (Selo Minotauro Brasil)
Ano: 2018
Skoob: 4.4 Estrelas / Goodreads: 4.0 Estrelas
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3.5 Estrelas
Em 1868, um rapaz teve um encontro assustador com uma criatura diabólica. Armado com nada mais que uma espingarda velha e algumas relíquias sagradas, o então jovem de 22 anos foi capaz de manter aquela figura, a própria encarnação do mal, presa em uma antiga torre. O encontro durou apenas uma noite, e aquela foi a mais longa noite da vida de Bram Stoker. Durante as horas de desespero, Stoker fez um apanhado de sua vida, relembrando os momentos que o levaram até ali: a infância enferma, uma babá misteriosa, as histórias de terror que ele ouvia. Enquanto isso, era tentado, provocado incessantemente pela criatura maligna, que pretendia enganá-lo para voltar à liberdade. Mas Bram deve mantê-la ali, caso pretenda sobreviver até a alvorada.
Autor: Dacre Stoker nasceu em Montreal, Quebec. Ele é o sobrinho-bisneto do escritor irlandês Bram Stoker, o autor do romance gótico de 1897, Drácula. Drace viveu em sua infância em Montreal e frequentou a Bishop's College School. Drace ensinou por vários anos no Appleby College.

J. D. Barker ou Jonathan Dylan Barker é um autor de best-sellers americanos, muitas vezes incorporando elementos de horror, crime, mistério, ficção científica e sobrenatural. Seu romance de estréia, Forsaken, foi finalista do Bram Stoker Award em 2014.

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