Resenha: A Vida Compartilhada em Uma Admirável Órbita Fechada - Becky Chambers

Neste segundo livro da série “Wayfarers”, Becky Chambers nos convida a exercer empatia entre ônibus espaciais e colônias alienígenas

janeiro 21, 2019 - Postado Por: Clara Gianni
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Neste segundo livro da série “Wayfarers”, Becky Chambers nos convida a exercer empatia entre ônibus espaciais e colônias alienígenas



Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.

Este definitivamente não é o caso de Becky Chambers. Seu primeiro livro, A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil (resenha disponível), foi um acerto em cheio. Repleta de personagens carismáticos e diversos, além de possuir uma narrativa amigável e confortável, a obra fora indicada a prêmios como o Arthur C. Clarke Award, além do famoso Prêmio Hugo. Com o segundo livro da série Wayfarers, a pergunta pairava novamente: seria Becky capaz de produzir uma ficção científica tão acolhedora e agradável quanto aquela de sua obra de estreia? A resposta é um sonoro sim.

Em “A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada” (sim, os títulos gigantes continuam), nós nos distanciamos da nave Andarilha do livro anterior, e acompanhamos duas tramas distintas e intercaladas: a primeira no tempo presente, iniciando alguns minutos após o final do primeiro livro, do ponto de vista da inteligência artificial Lovelace, que abandonara a nave Andarilha nas últimas páginas de “A Longa Viagem…” e decidira acompanhar Sálvia (uma simpática técnica mecânica rapidamente introduzida no primeiro livro) e iniciar uma nova vida, agora instalada em um corpo humano sintético denominado “kit corporal” – conduta proibida pela legislação da CG, que não considera IAs enquanto criaturas sencientes. A segunda trama é uma espécie de flashback (de vinte anos antes do início da trama), na qual acompanhamos a infância e adolescência de Sálvia, chamada originalmente de Jane 23, uma das várias crianças-clone projetadas como mão de obra destinada a servir um planeta eugenista; sua história é brevemente comentada em “A Longa Viagem…”, e já começamos a leitura sabendo como Sálvia escapará do planeta e alcançará a Comunidade Galáctica – aqui, contudo, tudo é dolorosamente detalhado.



Tanto Sálvia como Lovelace (que mais tarde batiza a si mesma Sidra) foram projetadas com um propósito e objetivo em mente, alheio às duas. As tramas paralelas (tempo presente + flashback) funcionam de forma harmônica ao observarmos enquanto ambas, em momentos distintos, deparam-se com dilemas e angústias tão similares como diametralmente opostas. A autora soube muito bem diferenciar as vozes internas de suas personagens, o que não surpreende se considerarmos o livro anterior, com muito mais personagens e vozes a serem gerenciadas ao longo da narrativa; e, ainda que este segundo livro trate de escolhas, especialmente os propósitos que escolhemos para nós, as abordagens de Sidra/Lovelace e Sálvia não poderiam ser mais diferentes.

Onde Sálvia (Pepper, “pimenta” no original, em alusão ao gosto da personagem por temperos picantes) é uma explosão quente de emoções sem filtros, ao entender a vida que levava junto às outras clones (“Janes”) – e a sociedade eugênica e autodestrutiva pela qual fora projetada –, Sidra/Lovelace é uma tempestade silenciosa, cuja narração reproduz um ponto de vista claustrofóbico, fora do lugar, aprisionada a um corpo para o qual não fora originalmente programada. Em ambos os casos, voltar-se para a natureza “original” para a qual foram criadas não é, nem de longe, a solução para seus respectivos problemas. Em cada uma das jornadas que acompanhamos ao longo do livro – seja a luta de Sálvia para reconstruir o ônibus espacial que a levará para longe de seu planeta de origem; ou a angústia de Sidra para se adaptar a um novo tipo de existência, a um corpo físico –, as personagens não têm outra escolha senão seguir em frente e não olhar para trás.

A despeito de tudo isso, “Órbita Fechada” não se trata de uma narrativa recheada de grandes conflitos externos ou antagonistas, à maneira de seu antecessor. A trama de Sálvia é totalmente centrada em seu confinamento no ônibus espacial localizado no vale de sucata onde passa a morar após fugir, aos dez anos, das fábricas de maquinário onde trabalhava com as demais “Janes”; ela não está sozinha, tendo a companhia de Coruja, a IA que habita o ônibus e ajuda a garota a reconstruí-lo ao longo dos anos, peça por peça. O crescimento de Sálvia e sua relação com Coruja são os momentos de maior carga dramática do livro, trazendo um ar mais grave e sombrio em relação a “A Longa Viagem…”, mas o princípio ainda está ali: Becky consegue nos angustiar na mesma intensidade com que nos diverte. Na resenha do primeiro livro, comentei sobre este sentimento de familiaridade que a autora evoca para nos aproximar de criaturas alienígenas aparentemente tão diferentes de nós. Em “Órbita Fechada”, sentimos na pele cada um dos anos que Sálvia passou sem manter qualquer contato com outras pessoas, mesmo que isso jamais nos tenha acontecido.

A trama de Sidra/Lovelace no presente não deve nada nesse quesito também. Embora consideravelmente menos pesado que os flashbacks de Sálvia, o ponto de vista da IA sobre sua nova existência tem uma melancolia própria, embora de fácil compreensão. A autora se distancia de grandes debates filosóficos sobre a existência da consciência, ou se inteligências artificiais seriam capazes de possuí-la, questões exaustivamente debatidas ao longo da ficção científica. Seu diferencial é se posicionar um passo à frente e trocar o “se” pelo “como”, trazendo a discussão para um patamar menos pretensioso, mais pessoal e próximo de quem lê. Como seria a vida de uma IA projetada para naves espaciais caso fosse transferida para um corpo humano? Quais sentimentos teria? Novamente, Becky Chambers nos convida a um exercício de alteridade e empatia perante formas de vida diferentes, desta vez sob novos termos. Sidra se desenvolve bastante ao longo do livro, aprendendo quais são seus desejos e vontades conforme se adequa a sua nova existência, e é muito gratificante acompanhar este crescimento. Sua relação de amizade com Sálvia também é muito bem desenvolvida, pois pontua bem os momentos de carinho e assistência, além das brigas e discordâncias entre ambas. A amizade com Tak (personagem pertencente à raça aeluoniana), que Sidra conhece ao visitar seu estúdio de tatuagem, também é bastante interessante. É muito bom ler histórias nas quais o romance não seja o foco principal da trama, ou dos relacionamentos de suas protagonistas, no geral.

A escrita da autora segue fluida, simples e viciante, como em sua obra anterior. Há algumas questões, no entanto, que devem ser pontuadas. Em certos momentos da história, ocorre o emprego da chamada “linguagem inclusiva” (isto é, aquela na qual os indicativos de masculino e feminino em um pronome ou substantivo são substituídos pelo “x” – ex.: elx, todxs, cansadx) para se referir a personagens cujo sexo não possível distinguir ou definir no momento. Isso ocorre especialmente com a personagem Tak.



No livro, os aeluonianos possuem quatro sexos distintos (e escolho usar “sexo” ao invés de “gênero”, pois a distinção é baseada nas genitálias/funções reprodutivas): mulheres, homens, shon (que se revezam involuntariamente entre as duas genitálias por certos períodos) e assexuadas (não possuem função reprodutiva). Tak é shon, o que cria uma dinâmica muito interessante durante a trama, pois ora a personagem é biologicamente mulher em certos capítulos, ora é biologicamente homem em outros, e nada disso altera seu comportamento, modo de se vestir ou agir – Tak é Tak, independente de sua condição biológica ou estereótipos de gênero. Enquanto mulher, é tratada com pronomes femininos; enquanto homem, com pronomes masculinos. A questão pesa, contudo, quando Tak se encontra no período de transição entre as alterações genitais: na ausência de pronomes neutros na língua portuguesa, a personagem é tratada como “elx”, até mesmo em falas verbalizadas de personagens.

Aqui é importante pontuar que, embora bem intencionada, a linguagem inclusiva não é adequada para os objetivos a que se propõe. Além de dificultar a leitura para pessoas com deficiência, também não resolve o problema do sexismo na linguagem, pois não altera sua estrutura ao colocar apenas um “x” no final das palavras. A parte das falas das personagens é especialmente complicada, porque pronomes como “elx” e “todxs” são impronunciáveis, tornando inútil o emprego destes artifícios na prática (sobre a questão, recomendo a leitura deste texto). Embora o português não seja uma língua tão simplificada como o inglês, há, sim, possibilidades de escrever de forma neutra, e maiores possibilidades ainda de traduções futuras a partir do material original – o romance “Justiça Ancilar”, de Ann Leckie, por exemplo, é narrado inteiramente em gênero neutro no original em inglês; a opção da tradução brasileira de transcrever os pronomes para o feminino se mostrou uma escolha interessante. É claro que cada caso é um caso.

Devo ressalvar, ainda, o final corrido em relação ao restante da trama. Quando finalmente alcançamos o clímax, ele escapa tão rápido como surgiu, em comparação a toda a cuidadosa construção narrativa que nos leva até lá. Apesar disso, não é algo que nos impeça de aproveitar totalmente o livro.

A edição da Darkside Books se mantém fiel ao estilo do volume anterior, com uma capa simples, embora repleta de pequenos detalhes em glitter que nos levam a passar horas e horas encarando. É um daqueles volumes muito bonitos de se ter na estante, não apenas pelo conteúdo bem cuidado (encontrei poucos erros de edição), mas pelo trabalho gráfico de ponta que é característico da editora.



Em suma, “A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada” mostra que Becky Chambers veio para ficar, como parte desta nova leva de fantasia e ficção científica diversificadas e inclusivas, sem perder a qualidade narrativa e o trabalho de pesquisa científica afiado atestados no volume anterior. Nesta segunda entrada da série “Wayfarers #2”, mergulhamos fundo nos sentimentos e desejos mais profundos das personagens, quase ao ponto das lágrimas. A autora acerta em uma abordagem mais pessoal que já tinha dado as caras em “A Longa Viagem…” e que pode ser vista mais nitidamente agora, gerando uma obra fiel às bases levantadas no primeiro livro, enquanto traz novas facetas e possibilidades de enredo ainda mais emocionantes.

"Sidra ficou observando o casal enquanto o submarítimo cruzava a lua. Sálvia finalmente se rendeu ao sono. Azul parecia contente em observar borrões de peixes curiosos e algas emaranhadas. Nenhum dos dois tinha sido feito para aquele lugar, Sidra considerou. E, na verdade, nenhum dos seres humanos ali fora, apesar de terem sido criados com menos intencionalidade. O mesmo poderia ser dito das outras espécies nos demais vagões. Os aeluonianos e os aandriskanos com suas máscaras para respirar. Os harmagianos com seus carrinhos motorizados. Não tinham sido feitos para habitar o mesmo mundo - habitar aquele mundo -, mas lá estavam eles.Talvez nesse aspecto, pelo menos, ela não fosse tão diferente". (pg. 32)


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A Vida Compartilhada em Uma Admirável Órbita Fechada (A Closed and Common Orbit)
Volume #2, Série Wayfarers
Autora: Becky Chambers
Editora: Darkside Books
Ano: 2018
Skoob: 4.6 estrelas / Goodreads: 4.3 estrelas
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5 Estrelas
Lovelace já foi a Inteligência Artificial responsável pelo funcionamento da nave espacial Andarilha no passado. Após uma reinicialização completa, ela acorda em um novo corpo e sem nenhuma memória do que veio antes. Enquanto descobre sua essência e aprende a se virar em um universo repleto de artimanhas e novidades, ela faz amizade com Sálvia uma engenheira empolgada com os desafios que se colocam à sua frente. Juntas, Sálvia e Lovelace vão descobrir que não importa qual seja o tamanho do espaço, duas pessoas podem preenchê-lo.
Autora: Becky Chambers segue os passos do pioneiro Ursula K. Le Guin (A Mão Esquerda Na Escuridão e Despossuídos), e inclusive presta homenagem à inventora do ansible, um dispositivo de comunicação interplanetária, em sua obra. A visão feminina e acurada de autoras como Becky e Ursula permite desconstruir velhos clichês e quem sai ganhando são os amantes da literatura sci-fi — de todos os gêneros e espécies. Milhares de leitores em todo o mundo já embarcaram nas páginas desta que é A Longa Viagem a Um Pequeno Planeta Hostil.

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