Opinião: A treta na literatura agrega leitores?

Em um ano cheio de tretas na literatura, será que discursos inflamados são suficientes para gerar mais leitores?

dezembro 10, 2018 - Postado Por: Redação SOODA
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Em um ano cheio de tretas na literatura, será que discursos inflamados são suficientes para gerar mais leitores?




No mundo literário em 2018, não para de pulverizar tretas. Só esse ano foram tantas que já perdi a conta. Cartaz da Feira do Livro acusado de racismo, marido de autora xingando leitores, livrarias dando calote em editoras, autores questionando preços de booktubers, booktubers sendo acusado de apoiarem o fascismo, autora negra sendo relegada na Academia Brasileira de Letras, obra de quadrinista sendo censurada em um shopping da cidade, e a mais recente é autores questionando listas "preconceituosas" de blogueiros. Não vou entrar no mérito da legitimidade de cada treta, porque seria uma discussão ampla sobre como cada uma delas se constituiu e até onde elas foram. Mas posso dizer, que tenho sim um posicionamento diante de cada uma delas.Porém, todo esse movimento, me trouxe um grande questionamento: Essas confusões que envolvem a literatura conseguem causar repulsa ou interesse de pessoas para a literatura? Porque afinal de contas, livros ainda são objetos de um nicho bem pequeno no país. Então, ataca-lo de maneira desmedida qualquer modo de produção aqui, pode surtir algum efeito?

Depende, depende muito !!!

É fato que com a "liberação da palavra" na internet. As vozes se multiplicaram e ganharam mais força. Então, boa parte desses movimentos que tem tomado conta da internet são justamente parte de uma resistência importante e necessária contra os problemas sociais envolvidos. Mas ao mesmo tempo, algumas pessoas fazem discursos mais inflamados, recheado de ataques e que acabam ferindo outras pessoas, causando repulsa. Pior, repulsa de pessoas que estavam propensas a se alinhar com as discussões. E no final das contas, surgem mais questionamentos: Um discurso mais exaltado pode levar a um debate que seja mais eficiente? É possível agregar mais pessoas às causas, ou elas se tornam mais distante do grande público? Até onde as discussões mais inflamadas se tornam legítimas? Como fazer com que essas causas ganhe o apoio do grande público? Se queremos mudanças sociais, é necessário que nossos discursos cheguem ao máximo de pessoas possíveis, né?

Vou dar um exemplo da treta mais recente para ilustrar as discussões e questionamentos.

Recentemente, uma autora paraense fez um post, inspirada sobre a sua leitura em blog, sobre uma lista de autores paraenses que "precisavam ser lidos". Na postagem, o seu questionamento foi sobre como a lista possui uma quantidade enorme de autores paraenses em um padrão branco, alinhado ao mercado literário e seu padrão de publicações.

Ponto importante, porém, ao fazer isso, a autora colocou em cheque a qualidade literária dos autores presentes na lista, e também da autoria do post. Questionando a ideia excludente das listas literárias, os quais os blogs costumam produzir. Um discurso nitidamente inflamado e cheio de palavras de ataque, de ordem. Palavras que incitam o ódio. Isso me faz lembrar a leitura de "Uma Coisa Absolutamente Fantástica". Na obra Hank Green coloca um mundo, onde robôs gigantes apareceram do nada. Durante a presença deles na terra, surgiram dois grupos extremos que usavam a rede social em apoio ou contrário ao grupo. Não havia meio termo. E o que isso gerava? Confrontos!!! Detalhe, esses embates eram provocados por quem? por aqueles que buscavam audiência. Interessante não?

Bom, voltando à discussão, a autora justificativa as palavras de ordem, sobre o preconceito a qual vem sofrendo na literatura, e isso gerou discussões em vários grupos, e respostas em vários níveis. E aí que chegamos ao ponto que queria. Então, essa repercussão chegou a pessoas de fora desses grupos? de pessoas que nunca leram um livro? provocou a reflexão sobre o assunto? se comunicou com pessoas de fora do mercado literário? Não? Então, isso está mais próximo de um debate falido, do que de fato uma agulhada que incomode e mude o status quo.

Que a literatura dominante é formada principalmente por brancos e ricos, é um fato. Que a literatura negra e indígena sempre foi deixada a margem, isso é um fato. Mas como transformar esse fato que é uma realidade brutal para aqueles que resistem? Atacando sem direcionamento, e provocando mais ódio sobre ódio? ou fazendo embates e discussões que refletem o valor daquilo que estamos lendo?

É um tema complexo e que não existem respostas prontas, até porque estamos falando de seres humanos, com milhares de experiências diferentes e que respondem de maneiras diferentes. Ao mesmo tempo que eu não sei as experiências que a autora a teve para construir o seu discurso, a autora também não sabe o que nos leva a ter diversos posicionamentos. E não digo, somente nós blogueiros, mas os autores que foram atacados em algum momento por suas palavras.

Talvez a autora não saiba por exemplo, que nós estamos trabalhando a passos de formiguinha para construir reflexões importantes em nossa sociedade. Listas que não pretendem silenciar ninguém, mas trazer questionamentos de porque autores são silenciados, ou ainda associações com outras formas de arte como o cinema, afim de agregar mais leitores. E porque não mixar uma lista que atinge o grande publico colocando um ou dois autores paraenses, sabendo que se fizer uma lista somente com autores paraenses, a possibilidade de encontrar barreiras com nossos leitores são maiores. Porque o problema não está na literatura em si, mas no sistema que o cerca. E por isso vamos subvertendo o processo aos poucos. Não achamos errado aqueles que pretendem fazer uma quebra brusca do sistema, mas o nosso método é assim, indo no barco do sistema, e mudando a tripulação aos poucos, e quando chegar na terra prometida, toda a tripulação estará do nosso lado.

E existe muita gente assim, inclusive vários dos autores que estão naquela lista. Eles estão lutando contra o sistema sem esfaquear a rocha com uma faca de cozinha, mas, quebrando-a de dentro para fora, para que quando pense que não, só um empurrão na carcaça para finalmente quebra-la de uma vez só.

Toda essa ilustração veio a tona, para questionar, até que ponto, construir a treta pela treta, isso pode levar a ter novos leitores? Talvez alguns que "gostem" da treta. Mas no geral às discussões ficam no campo da epistemologia e não chegam a população em geral, e quando chegam, normalmente são distorcidas. Um exemplo disso é a discussão sobre a crise na Saraiva. A informação chegou ao grande público, mas se você perguntar o que levou a isso. A maioria diz sobre o senso comum que é a falta de leitores. Mas o fato é que eles estão pegando a superficialidade da questão. O problema não foi a falta de venda de livros, mas como as livrarias estavam se portando no mercado. Muitas inclusive, já na nova logica das leis trabalhistas, onde empregados são como maquinas, estão ali somente para fazer o seu trabalho. Mas isso funciona no mercado da literatura? Óbvio que não.

O que queremos dizer com tudo isso é... A maioria das tretas que tem ocorrido no mercado literário em 2018 são válidas, são importantes e tem como objetivo subverter o sistema que está errado. E muita gente diz isso... Blogueiros, editoras, livrarias, autoras. Tá todo mundo apontando uma questão que é necessária ser revista. Mas nem todos estamos fazendo com objetivo de refletir o sistema, e sim de gritar, gritar e gritar. Mas isso não é suficiente para mudar o sistema, para levar a discussão a todos. Isso só tem gerado audiência e pouco combate, o qual é gerado na palavra, na discussão, no embate consistente e ao mesmo tempo consciente que não adianta somente conversar com os pares para combater o sistema, mas sim com a população em geral. Já tivemos essa experiência com a eleição do Bolsonaro. Vamos continuar insistindo no erro. Ou vamos nos agregar para fazer uma frente em prol a leitura em nosso país?

Vamos continuar com as nossas listas que atingem a todos, com nossos quizzes que conversam com o nosso público, mas queremos que todas as vozes estejam com a gente, porque nós não somos fala de todo um grupo social, somos apenas um recorte, do qual atinge uma parcela um pouco maior da população (o que nem se compara com um grande veículo de comunicação de massa), e esperamos que por meio disso consigamos desarticular o sistema, não para ser o porco como na "Revolução dos Bichos", mas para ser um espaço multifacetado do qual sempre lutamos desde o inicio. Onde as vozes se multipliquem cada vez mais, e quem sabe um dia, possamos nos orgulhar de ser um país de leitores com as vozes mais diversas possíveis. Esse é o papel da literatura...

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