Resenha: Ponciá Vicêncio - Conceição Evaristo

A história de Ponciá é a história de muitas outras mulheres negras pelo Brasil. E este é um dos motivos pelo qual você deveria correr para ler este livro.

novembro 08, 2018 - Postado Por: Rafael Lutty
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A história de Ponciá é a história de muitas outras mulheres negras pelo Brasil. E este é um dos motivos pelo qual você deveria correr para ler este livro.





Conceição Evaristo, é um nome que recentemente ganhou maior destaque por ter sido a autora negra a concorrer a cadeira de número 7 da Academia Brasileira de Letras (ABL), e receber apenas um voto, perdendo a cadeira para o cineasta Cacá Diegues. Apesar de servir como ponto de partida para a maior campanha popular da história da ABL, Conceição perdeu na votação e acabou saindo vitoriosa em expor a fragilidade e falta de representatividade na casa, que embora tenha sido fundada por Machado de Assis em 1896, possui um histórico inegável de exclusão de mulheres e negros.

Se em parte a candidatura de Conceição Evaristo, e sua suscetível perda, serviu para inflamar debates necessários na sociedade dita contemporânea, em outra serviu para tornar a autora mais conhecida por outros leitores, que foram em busca de suas obras, e neste grupo incluo-me. Graças a editora Pallas, fundada em 1975, que dedica a maior parte de seu acervo aos temas afrodescendentes, é possível encontrar três títulos de Conceição Evaristo sem maiores esforços: “Olhos D’água”, “Ponciá Vicêncio” e “Becos da Memória”. Outros títulos da autora, encontram-se, em sua maioria, esgotados. Meu primeiro contato com a autora, foi o romance “Ponciá Vicêncio”, o qual focarei nesta resenha.

Publicado incialmente em 2003, “Ponciá Vicêncio” marcou a primeira publicação solo da mineira Conceição Evaristo. Na história acompanhamos a trajetória da Ponciá, desde sua infância até a vida adulta. Nascida em uma vila, em terras que pertenciam ao coronel Vicêncio, agora ocupada por negros alforriados que carregam o sobrenome de seu antigo senhor – uma herança da escravidão, obviamente imposta -, Ponciá, após o falecimento do pai, decide emigrar para a cidade grande, afim de melhores condições de vida, deixando o irmão Luandi e a mãe Maria na pequena vila.



A trajetória de Ponciá é marcada pela falta de vínculos familiares, por vezes ela se encontra vagando em suas memórias do passado, em busca da mãe e do irmão. Na cidade, Ponciá consegue um emprego e um esposo, mas sua relação é marcada por agressões e distanciamento, perde os filhos no nascimento, sete vezes e quando retorna a vila em busca de sua família, encontra uma casa vazia e cheia de memórias, já que o irmão também decidiu partir para a cidade e a mãe foi em seguida em busca dos filhos.

Quando os filhos de Ponciá Vicêncio, sete, nasceram e morreram, nas primeiras perdas ela sofreu muito. Depois, com o correr do tempo, a cada gravidez, a cada parto, ela chegava mesmo a desejar que a criança não sobrevivesse. Valeria a pena pôr um filho no mundo? Lembrava de sua infância pobre, muito pobre na roça e temia a repetição de uma mesma vida para os seus filhos. O pai trabalhava tanto. A mãe pelejava com as vasilhas de barro e tinham apenas uma casa de pau a pique coberta de capim, para abrigar a pobreza em que viviam. E esta era a condição de muitos. (pg. 70)

Conceição Evaristo afirma que não nasceu rodeada de livros, e sim de palavras, e que possui forte ligação com a oralidade, que marcou sua infância através das histórias que ouvia de seus familiares. Tal relação com a palavra oralizada, torna-se evidente ao perceber-se a melodia e o lirismo presentes na escrita da autora. A história de Ponciá, soa como uma dessas histórias que contamos em rodas de conversa. Embora lírico, o texto não camufla as críticas e reflexões a respeito da herança do período escravocrata do Brasil, do racismo pessoal e institucional e das desigualdades sociais que atingem – em sua maioria – negros e pobres.

“Toda a minha escrita é profundamente marcada pela minha condição de mulher negra na sociedade brasileira. Do enredo as escolhas de personagens, são livros em que as personagens negras são protagonistas, estão no centro da cena, contam as suas dores, as suas alegrias. No intuito de distanciar o mais possível de determinados estereótipos”. (Conceição Evaristo em entrevista no programa Trilha de Letras em 2018)

Ao se analisar o retrato da mulher negra presente na literatura brasileira, é possível identificar diversas reproduções de estereótipos que reforçam conceitos racistas e segregacionistas. Em diversas esferas do imaginário social, o que temos é a hiperssexualização da mulher negra, em detrimento de sentimentos e emoções que humanizem estas personagens. São destes estereótipos que a autora procura distanciar-se ao colocar a mulher negra protagonizando a história. Ter mulheres negras, escrevendo sobre mulheres negras é ter uma representação na literatura, que seja fiel a realidade de tais mulheres. Na esfera da literatura, temos autoras de destaque como Toni Morrison, primeira mulher negra a vencer o Prêmio Nobel de Literatura em 1993 e Chimamanda Ngozi Adichie, premiada autora nigeriana que se tornou um dos símbolos do feminismo contemporâneo, e é responsável por romances que destacam a mulher negra e a realidade da Nigéria.

A exemplo do romance “Americanah”, da autora Chimamanda, vencedor na votação popular para qual livro os moradores de Nova York deveriam ler; no Brasil, Conceição Evaristo conquistou – tardiamente – uma quantidade enorme de leitores e defensores de suas obras. Uma mulher negra que, a exemplo de muitas, conquistou seu espaço e ainda assim precisa lidar com o racismo institucional enraizado em vários lugares da sociedade brasileira, como na própria Academia Brasileira de Letras. Além de ser aclamada pelos leitores de suas obras, Conceição Evaristo teve seus três livros pela editora Pallas, aprovados no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) de 2018, o que significa que “Ponciá Vicêncio”, “Olhos D’água” e “Becos da Memória”, serão gratuitamente distribuídos em escolas da rede pública de ensino.

Eu espero que a obra de Conceição Evaristo siga conquistando mais leitores e que inspire outras mulheres negras a escrever sobre suas realidades, apossando-se, assim, do lugar de fala que lhes é devido. Ponciá Vicêncio marcou o início do meu relacionamento de leitor com esta autora, e eu espero ter a grata oportunidade de ler muito mais de sua obra.

"Eu quero escrever colocando mulheres, e mulheres negras preferencialmente, no centro da cena[...]. As feministas defendem a tese de que escrever é um ato político, e é. Eu tenho dito: para nós, mulheres negras, escrever e publicar é um ato político”. (Conceição Evaristo em entrevista para a TV Cult em 2017)



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Ponciá Vicêncio
Autora: Conceição Evaristo
Editora: Pallas
Ano: 2017
Skoob: 4.7 Estrelas
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05 Estrelas
A história de Ponciá Vicêncio descreve os caminhos, as andanças, as marcas, os sonhos e os desencantos da protagonista. A autora traça a trajetória da personagem da infância à idade adulta, analisando seus afetos e desafetos e seu envolvimento com a família e os amigos. Discute a questão da identidade de Ponciá, centrada na herança identitária do avô e estabelece um diálogo entre o passado e o presente, entre a lembrança e a vivência, entre o real e o imaginado.
Autora: Conceição Evaristo nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. Mestre em Literatura Brasileira/PUC-Rio e Doutora em Literatura Comparada/UFF, ganhou o terceiro lugar no Prêmio Jabuti 2015, categoria Contos; e o Prêmio Faz Diferença 2016 do O Globo na categoria Prosa. Alguns de seus livros e contos já estão traduzidos para francês, inglês e alemão. Tem diversos contos publicados em obras coletivas e seis obras individuais, dentre elas Olhos D’água, Becos da Memória e Ponciá Vicêncio pela Pallas editora.

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