Resenha: A longa viagem a um pequeno planeta hostil - Becky Chambers

Muito mais que uma aventura espacial, o livro de Becky Chambers é uma história sobre pessoas.

novembro 13, 2018 - Postado Por: Clara Gianni
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Muito mais que uma aventura espacial, o livro de Becky Chambers é uma história sobre pessoas.





Não é segredo para nenhum leitor consciente: a literatura estabelece profundas conexões com a realidade em que é concebida, reproduzindo determinada visão de mundo - não raro, a visão dominante. Tratando especificamente da ficção especulativa, seus elementos oferecem poderosas metáforas para o contexto sociopolítico de seu tempo, e é ingênuo crer que tais obras sejam pensadas em um vácuo criativo. Diante das recentes problematizações dos últimos anos, são muito recorrentes argumentos como: “Mas é só um quadrinho”, ou “Vocês estão enxergando coisas demais onde não tem”, na defesa de histórias que reproduzam e naturalizem estereótipos ou retratos problemáticos de determinados grupos ou situações. Não raro, também se fala em uma pretensa defesa da “liberdade artística”.

Exemplos não faltam. Desde aquele troll na seção de comentários de algum portal de notícias famoso, até grandes nomes da indústria. É só pensar na polêmica entre Milo Manara – conhecido por suas obras de quadrinhos eróticos – e a Marvel Comics, quando este ilustrou uma capa variante hiperssexualizada para a Mulher-Aranha, que recebera severas críticas à época. À ocasião, Frank Cho (ilustrador da Marvel e da DC Comics) rapidamente intercedera em defesa do colega, produzindo uma série de ilustrações e capas sexualizadas de personagens femininas, em defesa da “liberdade de expressão” e contra a “censura” do politicamente correto. (Mais sobre a controvérsia pode ser lido aqui e aqui)

Como dito antes, este é apenas um exemplo. A sexualização feminina nos quadrinhos é antiga – recente é o questionamento que, não apenas esta, mas uma série de práticas problemáticas têm recebido nos últimos dez anos, não sem turbulência. Não há revolução ou subversão alguma em quem se incomoda com tais questionamentos e empreende uma verdadeira cruzada para manter as coisas do jeito que estão.

Existe, inclusive, uma palavrinha que significa justamente isso.



Reacionário.

Primeiro livro da série “Wayfarers” e obra de estreia da autora Becky Chambers, “A longa viagem a um pequeno planeta hostil” (nome tão grande quanto título de música do The Smiths) é produto de uma época já cansada de apenas Buck Rogers, John Carters e Flash Gordons da vida protagonizando aventuras espaciais, sempre ganhando a donzela gostosa ao fim da trama. Ao contrário do que se possa pensar, contudo, não se trata de eliminar estes heróis; trata-se, isso sim, de incorporar novos indivíduos e novos pontos de vista que antes não existiam, enriquecendo as experiências e expandindo as oportunidades de se contar histórias.

As premissas do livro são ousadas na simplicidade: e se não contássemos uma ópera espacial do ponto de vista do “Escolhido”, o grande herói messiânico? E se não houvesse uma ameaça alienígena do mal ou uma donzela a ser salva? E se o mundo lá fora – com suas intrigas políticas e raças de costumes socioculturais diversificados – não fosse tão diferente assim do nosso?

"Ashby começou a se perguntar por que os colonizadores se deram ao trabalho de reconstruir, mas já sabia a resposta. Para alguns humanos, a promessa de um pedaço de terra valia qualquer esforço. Era um comportamento estranhamente previsível. A longa história da humanidade era muito rica em momentos em que humanos se enfiavam em lugares onde não tinham o direito de estar" (pg. 163).

E se contássemos uma aventura do ponto de vista de gente comum, vivendo problemas e prazeres de gente comum?

O coração de toda a trama é a nave Andarilha, própria para a construção de túneis interestelares que liguem galáxias anos-luz umas das outras, através de buracos de minhoca — trocando em miúdos, facilitando o transporte dos vários grupos de indivíduos que compõem a Comunidade Galática (ou CG, de conceito sociopolítico muito semelhante ao da União Europeia), para transitar de localidade em localidade sem grandes turbulências. Ao longo da história, acompanhamos o dia-a-dia de sua tripulação, composta pelo capitão sensato Ashby, a maravilhosa piloto aandriskana Sissix, os divertidos técnicos Kizzy e Jenks, o ranzinza algaísta Corbin, o fofíssimo médico e cozinheiro Dr. Chef, os enigmáticos Ohan (não, você não leu errado. São eles mesmo) e a guarda-livros novata Rosemary Harper — que serve como nossos olhos e ouvidos durante boa parte do livro. Exercendo o ofício de edificação de túneis com bastante competência, a tripulação logo recebe uma atraente proposta: construir uma ligação entre um planeta distante, próximo do núcleo da galáxia (o “planeta hostil” do título), cuja espécie recentemente ingressara na Comunidade, e o resto da CG. A proposta é tentadora, a despeito de todo o tempo e energia necessários para a realização da missão, e Ashby acaba por aceitá-la.

É importante deixar bem claro desde o princípio que a viagem em si não é o foco da trama, mas seu fio norteador e pano de fundo. Sabe aquela expressão meio batida de que o que importa é a jornada, e não exatamente o pico da montanha? Não há forma mais precisa de descrever “A longa viagem…”: a caminho deste planeta desconhecido, acompanhamos o cotidiano, as relações, as vivências e os dilemas dos tripulantes da Andarilha. A história tem aquele ritmo gostosinho, descompromissado, em que cada capítulo é um episódio de uma série de TV. Não há um clima de urgência pairando sob os personagens, e a narrativa lhes oferece todo o espaço possível para que ganhem vida e voz própria diante dos nossos olhos.

Ashby Santoso advém da chamada “Frota do Êxodo”, grupamento de humanos que migrara da Terra para orbitadores, colônias espaciais onde desenvolveram profunda repulsa a violência e armas; quase sempre com a cabeça no lugar, procura colocar a casa em ordem quando os ânimos afloram. Nem por isso, contudo, deixa de demonstrar fraqueza ou admitir quando pisa na bola. Mantém um relacionamento à distância com a capitã de um cargueiro de suprimentos, a aeluoniana Pei.

Sissix, piloto da nave, é aandriskana, de aparência semelhante a um réptil terrestre. De longe, é uma das personagens mais fascinantes: vinda de uma cultura que não possui os mesmos tabus em relação a nudez, afeto e sexualidade que outras espécies da CG (valendo-lhes a fama pejorativa de “libertinos”), a jovem expressa abertamente seu afeto pelos companheiros de viagem, embora quase sempre necessite se retrair. É através dela que entendemos um pouco da importância dos laços de amizade, família e amor, e como tentar conciliar diferenças culturais pode ser tanto desafiador quanto fascinante. E o melhor de tudo: a personagem não é objetificada ou sexualizada em momento algum por suas escolhas ou comportamentos.

Os humanos Kizzy e Jenks são inseparáveis como pão com manteiga: ela, uma engenheira de mão cheia bastante doidinha, vive em seu universo de manias particulares e adoráveis, embora extremamente focada e competente em seu trabalho; ele, mais voltado para a informática e os softwares, acredita no poder da autoidentidade e na capacidade de todo indivíduo em construir as próprias histórias, mantendo um romance singelo com Lovey, a inteligência artificial da Andarilha.

Corbin, também humano, cuida do combustível da nave, movida a algas hidropônicas, fiscalizando suas condições de salinidade, entre outros detalhes, para que as viagens ocorram adequadamente. Um tanto quanto mal-humorado, o homem não é muito de socializar, e frequentemente arranja intrigas com Sissix. Não importa o quão difícil seja seu temperamento, contudo, o algaísta é capaz de boas ações. Como qualquer criatura complexa, também possui, afinal, um lado positivo.

Dr. Chef, por sua vez, é o médico e cozinheiro da tripulação. Sua raça Grum inicia biologicamente fêmea, desenvolvendo-se para o estágio biológico de macho e, por fim, alcançar um estado intermediário entre os dois sexos. É a figura materna/paterna da nave, sempre disposto a oferecer um assento em sua cozinha, uma xícara de chá acompanhada de pães quentinhos, e um bom conselho.

Ohan pertencem à espécie Sianat par, única capaz de ser infectada por uma bactéria conhecida como Sussurro, quando passam a ser dois indivíduos e desenvolvem uma percepção incomensurável do tempo e do espaço – motivo pelo qual tal infecção é tratada como um dogma religioso daquela cultura. Por serem os únicos capazes de compreender e calcular o espaço-tempo dentro dos buracos de minhoca escavados pela nave em suas jornadas, estes ocupam a importante posição de navegadores.

Rosemary Harper, por fim, é a guarda-livros da nave, cuidando dos trâmites administrativos e de toda a burocracia necessária para que a nave atue entre as jurisdições da CG. Recém-chegada, a garota é sagaz e determinada quando a hora pede, a despeito de sua inexperiência e das novidades que surgem diante de seus olhos a todo momento. Parece ocultar um passado misterioso em Marte, onde passara a vida inteira; na Andarilha, possui a chance de recomeçar do zero e se livrar de seus fantasmas e esqueletos no armário. Mas não por muito tempo.

Como dito antes, Rosemary funciona como os olhos e os ouvidos para quem lê, a princípio. É através de sua visão de leiga que conhecemos os meandros e maquinações da nave – posto que a garota, muito convenientemente, não ocupa cargo “científico” na tripulação. Para alguns, talvez, a quantidade de informações exposta ao início da trama pode parecer “infodump” – isto é, quando uma trama é tomada por descrições didáticas e detalhadas de como as coisas de seu universo funcionam, o que geralmente acaba por engessar a narrativa e prejudicar o ritmo da história. Sou uma pessoa que costuma se incomodar bastante com infodump, especialmente em narrativas de ficção científica. Curiosamente, contudo, a autora se valeu deste artifício de tal forma que a narrativa não se engessa. Todas as explicações são oferecidas pelos personagens com bastante naturalidade, atendendo às necessidades da trama e, melhor ainda, atiçando ainda mais a curiosidade.

Tudo é muito fascinante, e a vontade é a de que houvesse um glossário ao fim do livro explicando um pouco mais a respeito dos conceitos e espécies mencionados na história – aliás, melhor ainda se Becky lançasse um guia do universo da trilogia Wayfarers no futuro. O cuidado na hora de explorar as diferenças culturais entre as espécies alienígenas é bastante palpável – nenhum personagem fica reduzido a um aspecto específico, ou estereótipo. Becky demonstra extrema competência em conciliar não apenas raças distintas, mas pessoas distintas dentro dos padrões culturais de uma mesma raça, o que resulta num mosaico fascinante de relações e pessoas com quem gostaríamos de sentar, tomar uma xícara de mek e conversar. Os personagens não são exclusivamente seus sexos, nem suas orientações sexuais, tampouco suas espécies e culturas (como, aliás, nenhuma pessoa é), mas um complexo conjunto de tudo isso com suas vivências pessoais. Frequentemente observamos os aliens na ficção como criaturas inacessíveis e incompreensíveis, quase sempre em contextos de ação e aventura, ou objetos de asco e terror. Aqui, a autora os coloca para cozinhar, ir ao banheiro, tomar uma ducha, visitar os parentes, dormir, sair pra farra, transar, fazer compras – pequenos fragmentos de realidade que os desmistificam, que os tornam tão próximos de nós e tão reais quanto possível. Gente como a gente. Nossos vizinhos.

Quanto à parte “científica” da coisa toda, Becky fez o dever de casa: nas descrições das estruturas de funcionamento, desde o acondicionamento de mantimentos dentro da nave, passando pela tessitura dos buracos de minhoca, até os aspectos biológicos das espécies, percebe-se o cuidadoso processo de pesquisa para a construção deste universo. Filha de uma astrobióloga e de um engenheiro aeroespacial, a autora realiza um trabalho competente em nos situar em um ambiente (literalmente) cosmopolita, conciliando tudo isso com uma narrativa amigável e acessível.

A mensagem final é a de que a diversidade importa: não aquela diversidade panfletária, simplesmente para “cumprir cota”, um progressismo superficial. Trata-se, acima de tudo, da diversidade do dia-a-dia; a diferença está em todos os lugares, e tampouco é algo extraordinário ou difícil de conceber. Em uma época na qual a uniformidade e a valorização de um único padrão de vida parecem crescer, em retaliação ao diferente, ao “outro”, A Longa Viagem é um reflexo interessante da nossa realidade. A raça habitante do “planeta hostil”, os Toremi Ka – aficionados por padrões de comportamento uniformes, dispostos a literalmente matar uns aos outros ao primeiro sinal de discordância – não soa muito diferente de alguns grupos extremistas que recentemente viram a luz do dia neste último período eleitoral. Mesmo com um clima geral de positividade em torno da diversidade, o livro não incorre no erro de romantizá-la (ainda que corresse o risco diversas vezes), e nos mostra que a harmonia na diferença jamais será um caminho fácil de percorrer, e que se trata de um trabalho árduo. Compreender o outro sem desejar eliminá-lo exige um exercício contínuo de alteridade e respeito que nem sempre é auto evidente. Exige, acima de tudo, a consciência de que talvez também sejamos “o outro” de alguém.

Não há arte neutra, desvinculada da vida real – e a obra de Becky Chambers efetua um trabalho magistral em comprovar esse ponto. Com os tempos que se avizinham, faz-se cada vez mais necessário reconhecer a dialética que se forma entre a ficção e a realidade, na qual uma se deixa influenciar pela outra, e vice-versa. Urge, afinal, compreender que a apropriação política consciente das narrativas fantásticas não se trata de mero luxo, mas sim de uma necessidade.



Acima de tudo: trata-se de resistência.

“Somos especialistas da galáxia física. Vivemos em mundos terraformados e em gigantescos habitats orbitadores. Criamos túneis através da subcamada para pular entre sistemas estelares. Escapamos da gravidade planetária com a mesma facilidade com a qual caminhamos pela porta da frente. Porém, quando se trata de evolução, não passamos de uma ninhada recém-saída do ovo, tateando por aí com os nossos brinquedos. Acredito que é por isso que muitos dos meus colegas ainda adotam teorias sobre materiais genéticos espalhados por asteroides e supernovas. De certa forma, a ideia de um estoque compartilhado de genes que flutuam através da galáxia é muito mais fácil de aceitar do que a noção assustadora de que talvez nenhum de nós tenha a capacidade intelectual de entender como a vida de fato funciona” (pg. 127).


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A longa viagem a um pequeno planeta hostil (The long way to a small, angry planet)
Volume #1, Série Wayfarers
Autora: Becky Chambers
Editora: Darkside Books
Ano: 2017
Skoob: 4,4 estrelas / Goodreads: 4,1 estrelas
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05 Estrelas
A boa notícia é que você não estará sozinho. Milhares de leitores em todo o mundo já embarcaram nas páginas dessa que é A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil. O livro de Becky Chambers é um marco recente no universo da ficção científica. Lançado originalmente através de financiamento coletivo pela plataforma Kickstarter, ele conquistou a crítica especializada e os ainda mais exigentes fãs do gênero, sendo indicado para prêmios respeitados, como o Prêmio Arthur C. Clarke e o Prêmio Hugo. Um dos motivos do sucesso de A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil é a abordagem da história. Elementos essenciais em qualquer narrativa de ficção científica estão muito bem representados, como a precisão científica e suas possíveis implicações políticas. O gatilho principal é a construção de um túnel espacial que permitirá ao pequeno planeta do título participar de uma aliança galáctica. Mas o que realmente torna único esse romance "On the Road" muito divertido e futurístico são seus personagens. Complexos, instigantes e tridimensionais. A autora optou por contar a história de gente como a gente, ainda que nem todos sejam terráqueos ou mesmo humanos. A tripulação da nave espacial, Andarilha, é composta por indivíduos de espécies, gêneros e planetas diferentes, incluindo um médico de gênero fluido, que transita entre o masculino e o feminino ao longo da vida e uma estagiária nascida nas colônias de Marte, uma piloto reptiliana. Temas como amizade, força feminina, novos conceitos de família, poliamor e racismo fazem parte do universo do livro, assim como cada vez mais fazem parte do nosso mundo... leia mais
Autora: Becky Chambers segue os passos do pioneiro Ursula K. Le Guin (A Mão Esquerda Na Escuridão e Despossuídos), e inclusive presta homenagem à inventora do ansible, um dispositivo de comunicação interplanetária, em sua obra. A visão feminina e acurada de autoras como Becky e Ursula permite desconstruir velhos clichês e quem sai ganhando são os amantes da literatura sci-fi — de todos os gêneros e espécies. Milhares de leitores em todo o mundo já embarcaram nas páginas desta que é A Longa Viagem a Um Pequeno Planeta Hostil.

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