Resenha: Grande Sertão: Veredas (Graphic Novel) - João Guimarães Rosa

Um clássico da literatura brasileira resinificado de forma única

outubro 02, 2018 - Postado Por: Fábio Andrade
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Um clássico da literatura brasileira resinificado de forma única





Uma vez o próprio Guimarães Rosa disse:

“Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?”

Por mais que esse não seja o questionamento levantado nessa obra de arte, a frase do poeta reflete com bastante clareza toda a saga hercúlea de Riobaldo em meio a todas as veredas da vida, encontrando Deus, Diabo, o amor – e o mais importante – si mesmo.

O grande sertão: veredas, é um dos pilares fundamentais da nossa literatura, seja pela importância que o livro teve em seu tempo; a imagem de um Brasil árido, sofrido, porém forte o suficiente para enfrentar coisas além de sua compreensão ou pela linguística característica de Rosa que é estudada até fora do nosso país. Eis aqui um desafio surreal de transportar toda a genialidade de Guimarães Rosa para um projeto novo e totalmente diferente e para nossa felicidade, foi feito com primazia.

De Guimarães para Rosa
O texto integral do Grande sertão: veredas, não tem floreios e muito menos rodeios que tornem a leitura cansativa, porém encontramos algo nosso, que está ligado diretamente a rotina de um povo que não se importa com o que é falado em outros lugares. Guimarães tornou único regionalismo em seus textos, tendo seus prós e contras durante a leitura, mas sem perder toda a inteligência em se por cada virgula no seu lugar. O primeiro – e talvez o maior – desafio em se transportar um texto carregado de palavras únicas e pouco conhecidas de um Brasil interiorano para uma versão visualmente artística extrapola os limites da criatividade.



Como transportar o texto de Rosa para uma arte gráfica?

Foi isso que o quadrinista e roteirista Eloar Guazzelli Filho fez para essa HQ. Tendo perdas ínfimas em alguns momentos do texto, as falas dos personagens principais se mantaram aos moldes de Guimarães, conseguindo mais uma vez nos conduzir para o interior de Minas Gerais em meio a guerras, violência, magia e conflitos internos.

Com a mão, mais do que certa, de Rodrigo Rosa a HQ traz logo de cara o que veremos em toda a história. Com cores quentes predominando praticamente todas as páginas, o vermelho que flerta com o amarelo consegue também falar o que Rosa queria nos dizer. Fica claro a utilização do nanquim e o carvão nas artes trazendo uma dureza para os traços dos sertanejos, complementando a característica física e espiritual daquele povo.

“Longe de ser uma adaptação que simplifica um clássico, a graphic novel respeita a complexidade de “Grande Sertão: Veredas”. O objetivo era alcançar um equilíbrio entre texto e imagem que estimulasse a imaginação do leitor, com o objetivo de tornar a HQ fluída como o monólogo de Riobaldo, sem descaracterizar a profundidade da obra”, afirmaram Guazzelli e Rodrigo Rosa em entrevista.

Um tabu no sertão
Assim como no livro, acompanhamos a trajetória – em flashback – de Riobaldo em meio a toda confusão de sua cidade e vida. Acompanhando cada passo certo e errado que o sertanejo da nas veredas que escolhe, porém, além de toda aventura cativante do sujeito, entramos também em um tema extremamente tabular para a literatura Brasileira em 1956: a sexualidade do homem bruto.



As veredas trazem a alegoria das escolhas que fazemos durante a vida, tentando acertar e errar na medida em que as motivações estão senso saciadas, eis um dos pontos mais importantes da obra, a reflexão de como nossas ações interferem diretamente na vida dos outros e como somos consequência de acontecimentos que fogem ao nosso controle. Em meio ao amor, Riobaldo descobre que esse sentimento não tem sexo definido, causando a primeira confusão interna que será respondida em meio as veredas da vida.

A guerra é o principal motivo para que Riobaldo encontre as principais pessoas de sua vida, seus grandes amores, seus fiéis amigos e piores inimigos. Com cenas fechadas em expressões dos personagens, a HQ consegue – em poucos quadros – colocar uma arma em nossas mãos em meio à guerra de cangaceiros que lutar por terras e acima de tudo por honra.

A política retratada na obra de Rosa é também uma peça chave para o entendimento da construção dos personagens. Foi um dos pontos que mais me fez falta em relação a HQ, tendo poucas participações ativas diretamente na história, o conflito entre Honra x Dinheiro, ficou um pouco de lado na adaptação.

“Nego que gosto de você, no mal, gosto, mas só como amigo! Por paz de honra e tenência, sacar esquecimento daquilo de mim. Se não, ah, mas então eu devia de quebrar o morro: Acabar comigo” pág. 88.

Travessia para uma obra de arte
As veredas são caminhos utilizados para se cortar o sertão de uma ponta a outra. A imagem clara de travessia fica grudada em nossa mente enquanto assistimos e compartilhamos dos sentimentos de Riobaldo nesses caminhos em busca de respostas espirituais e viris. E foi com todo esse contexto atravessado para a HQ, que ela ganhou – como já é conhecido – o Oscar dos quadrinhos.



Em 2015 a adaptação do Grande Sertão: Veredas, ganhou o prêmio de melhor obra pela HQ Mix, muito merecido por sinal. Existem duas edições da obra, a primeira não se pode mais achar nas lojas, pois foi apenas uma tiragem para colecionadores, tendo apenas 7 mil copias por todo o Brasil. Dois anos mais tarde foi feita a segunda edição, agora mais robusta e com detalhes na contra-capa.

Em comparação, as duas são ótimas tendo a capa como maior diferença.

É uma leitura incrível para os amantes de quadrinhos que nunca tiveram contanto com a obra de Guimarães Rosa e um convite especial para seus leitores conhecerem a obra do mestre em outras mídias.


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Grande Sertão: Veredas
Adaptação em graphic novel
Autor: João Guimarães Rosa
Roteiro: Eloar Guazzelli
Arte: Rodrigo Rosa
Editora: Globo Livros (Selo Globo Livros Graphics)
Ano: 2016
Skoob: 4.5 Estrelas
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04 Estrelas
Ler Grande Sertão: Veredas é uma experiência marcante. A nova edição em HQ convida os fãs do romance a redescobri-lo e apresenta aos novos leitores a grandeza de um dos maiores títulos da literatura brasileira. Artista plástico, diretor de cinema e ilustrador, Guazzelli trabalhou a adaptação transpondo imagens e representações para os quadrinhos, dando à obra um ritmo cinematográfico. Com experiência na adaptação de clássicos da literatura brasileira para os quadrinhos, Rodrigo Rosa não se limita a retratar as paisagens do sertão, mas explora os seus contrastes. Do sol escaldante às noites mal iluminadas, a natureza se torna um elemento narrativo, que compõe o clima do romance gráfico. Longe de ser uma adaptação que simplifica um clássico, a graphic novel respeita a complexidade de Grande Sertão: Veredas. O objetivo era alcançar um equilíbrio entre texto e imagem que estimulasse a imaginação do leitor, com o objetivo de tornar a HQ fluída como o monólogo de Riobaldo, sem descaracterizar a profundidade da obra. O processo de transposição do universo de Guimarães Rosa para os quadrinhos levou quase três anos. Foram realizados diversos estudos para definir a aparência dos personagens, a seleção dos trechos e os melhores enquadramentos
Autor: João Guimarães Rosa foi um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos. Foi também médico e diplomata. Os contos e romance escritos por Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro. A sua obra destaca-se, sobretudo, pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares populares e regionais. Tudo isso, somado a sua erudição, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas. Consonante aos debates sobre a lírica moderna mundial, sua obra também inovou por criar um modo de fazer poesia num texto em prosa.

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