Resenha: Contos de Horror do Século XIX - Alberto Manguel (Organização)

outubro 15, 2018 - Postado Por: Fábio Andrade
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Os melhores autores de horror de todos os tempos em um compilado único





O horror se difere do terror na beleza. Não em um quesito estético, mas sim, numa questão sensorial e física.

“O castelo de Otranto” sacramentou a ideia de um terror gótico, voltado para temas fúnebres flertando com todo o romantismo da época e Walpole conseguiu exatamente o que ele queria com esse texto, abrir as portas do terror que nos consome até hoje. Apesar de um livro longo, a narrativa de horror ganhou muito mais notoriedade com histórias mais curtas, destacando celebres nomes que perpetuam até hoje como pilares mundiais do gênero. Não posso deixar de ressaltar dois grandes gênios que distintos entre si, conseguiram causar a mesma sensação angustiante que nós tanto gostamos: o medo.

Edgar Allan Poe e H.P Lovecraft conseguiram isso com plenitude em seus contos, sendo que os dois pouco escreveram textos que esbarrassem em novelas ou romances, eis um dos motivos mais importantes para a apreciação do conto.



Histórias de horror sempre chocaram e sempre chocarão crianças, jovens e adultos do mundo todo, não importa onde você esteja e como prova irrefutável disse a editora Companhia das Letras nos presenteia com uma antologia incrível sobre os contos de horror do século XIX.

Alberto Manguel
Escritor do renomado “Todos os homens são mentirosos” foi convidado pela CIA das Letras para selecionar os contos que entraram nessa antologia, a primeiro momento pode ser um trabalho simples, ler diversos contos e escolher seus preferidos, porém Alberto foi além.

O livro conta com uma breve introdução – em alguns casos bem-humorada – sobre os autores e o contexto histórico dos contos. Isso torna a leitura muito mais interessante e prazerosa, vale ressaltar todo o conhecimento de Manguel a respeito do tema. Tendo dito contato pessoal com algum dos selecionados para o livro.

“O homem de tweed balançou a cabeça significativamente para mim.
“Ai! Não havia nada a fazer com aquela fera. Ela tinha o demônio dentro de si”. Pag. 104 – A fera.

De W.W Jacobs a Robert Louis Stevenson
Com mais de 30 contos essa antologia se destaca muito mais pela seleção dos textos do que pelo time de autores. Manguel foi certeiro nesse quesito, desde as histórias de aberturas, os contos que trabalham o meio do livro e as suas finalizações, conseguindo criar uma história que se una por um sensível fio condutor narrativo até o final da obra.



Dentro todos os contos do livro, gostaria de sugeri a mais urgente leitura de alguns. Sejam eles pela sua importância ao gênero, quanto por sua criatividade narrativa. Por mais que os textos tenham mais de 100 anos, não darei nenhum spoiler sobre eles, apenas enfatizarei o motivo pelos quais devem ser lidos.

A mão do macaco – W.W Jacobs
A família do Vurdalak – Aleksei Konstantinovitch Tolstói
Os fatos no caso do sr. Valdemar – Edgar Allan Poe
A aia – Eça de Queiroz

A história que W.W Jacobs criou é uma excelente releitura dos contos clássicos do oriente médio, trazendo o papel do Gênio e o Desejo como símbolos que perpetuam a narrativa, além de que é uma excelente visão do homem europeu do século XVII, utilizando técnicas que até hoje vemos nos livros atuais que prendem o leitor até o ultimo segundo da leitura. Isso mostra a importância desse tipo de texto, que além de trazer um prazer imenso durante a leitura, serve de uma grande aula para quem quer escrever.

Seguindo a linha temos o conto vampiresco de Tostói, não o da Anna Karenina, mas sim seu primo, Aleksei era parente do grande Liev e parece que o talento literário estava no sangue. “A família do Vurdalak” é uma das histórias sobre vampiros mais incríveis que eu já vi, as cenas carregam tanto horror que é difícil tirar as cenas daqueles olhos pregados na janela que tanto atormentam o personagem principal. Além disso, um fato muito interessante a se destacar do conto, é a relação dos personagens entre sim, abordando uma contextualização histórica que mostra como o pensamento estereotipado de mulher “pura e frágil” já começa a ser desconstruído há muito tempo.

No meio do livro nos abraçamos com um dos melhores consto de Edgar Allan Poe. “Os fatos no caso do sr. Valdemar” uma história rápida que mistura misticismo, horror, medos e paixão em poucas linhas. É um conto que fica cada vez melhor com suas releituras, apresentando de forma bem crua o amor que o ser humano pode ter por seus ideais, mesmo que isso precisa quebrar todas as barreiras do “eu moral”.

E para finalizar a obra temos o conto mais sensível de toda antologia. “A aia” do luso Eça de Queiroz. A representação da escravidão simbolizada como fonte desse conto é surreal, Eça brinca com seus sentimentos controlando de forma assustadora suas atitudes. Você sente raiva no momento exato que o autor quer e no final tem seu coração arrebatado com a melhor forma de demonstrar o amor: com o perdão.

“Salvei meu príncipe, e agora – vou dar de mamar ao meu filho! ”. Pág 417. – A Aia, Eça de Queiroz.

Seja você autor iniciante no terror ou não. Ler esse livro é quase como uma obrigação. O trabalho da editora está impecável nessa edição, trazendo páginas mais amareladas que o normal lhe transportando para as noites iluminadas apenas pela chama da vela, colocando o uivo indecifrável a beira do seu ouvido.


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Contos de Horror do Século XIX
Autor: Alberto Manguel (Organização)
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2005
Skoob: 4.2 Estrelas
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04 Estrelas
Nesta antologia de Contos de horror do século XIX, o escritor Alberto Manguel reuniu, especialmente para o público brasileiro, a fina flor do medo. Tão antigo quanto a civilização, o conto de horror define suas regras e chega a seu apogeu na literatura anglo-saxônica, na linhagem de escritores que vai da "gótica" Ann Radcliffe a Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft. Mas Manguel não se contenta apenas com os mestres mais conhecidos do gênero, como Henry James, Guy de Maupassant ou Robert Louis Stevenson. Convoca escritores de toda estatura e de várias línguas, do português de Eça de Queiroz ao íidiche de Lamed Schapiro. Nesse percurso, o leitor transita por todos os ambientes e resvala em todos os motivos do conto de horror: igrejas em ruínas, subsolos pútridos, jardins ermos, prisões e campos de batalha, criaturas invisíveis, mortos-vivos, animais espantosos e espelhos encantados. Tudo isso em sua poltrona preferida, em (relativa) segurança, desfrutando ainda do último charme deste livro: novas traduções de todas as narrativas, cada uma a cargo de um nome expressivo da cultura brasileira contemporânea.
Autor: Alberto Manguel nasceu em 1948, em Buenos Aires. Passou a infância em Israel, onde seu pai era embaixador argentino, e estudou na Argentina. Viveu na Espanha, na França, na Inglaterra e na Itália, ganhando a vida como leitor para várias editoras. Autor de livros de ficção e não ficção, também contribui regularmente para jornais e revistas do mundo inteiro. Atualmente vive em Buenos Aires, onde é diretor da Biblioteca Nacional.

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