Resenha: O Tempo Desconjuntado - Philip K. Dick

Ancestral distante de obras como “Matrix” e “O Show de Truman”, o romance de Philip K. Dick já questionava os pilares da realidade décadas antes

outubro 11, 2018 - Postado Por: Clara Gianni
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Ancestral distante de obras como “Matrix” e “O Show de Truman”, o romance de Philip K. Dick já questionava os pilares da realidade décadas antes





Um dos nomes mais conhecidos da ficção científica, Philip K. Dick (ou PKD, para os mais íntimos) personifica uma notável ironia: a despeito de ter suas obras repetidamente adaptadas para o cinema e a TV, o autor norte-americano pouco usufruiu de sua extensa produção literária em vida, tendo falecido em 1982, às vésperas da estreia de uma de suas adaptações mais conhecidas, Blade Runner. Sua visão cínica na construção de personagens – homens e mulheres falíveis e ordinários, que poderiam ser seu vizinho, ou até sua mãe – em muito divergia dos heróis clássicos e viris de então, em nada compatível com o otimismo dos anos 50 e meados dos anos 60, e o “American way of life” tão celebrado nestes primeiros anos pós-2ª guerra mundial.

PKD, no entanto, está aqui para colocar o dedo na ferida, subvertendo o “sonho americano” com bastante frequência em sua produção literária – muitas de suas histórias, a despeito da ambientação futurista, têm como centro narrativo a família tradicional composta pelo homem da casa, pela esposa doméstica e pelo filho pequeno, em um constante deboche aos ideais da época em que tais narrativas foram escritas. Como já comentei em outras ocasiões, a ficção científica nunca é sobre o futuro: representa, isso sim, uma poderosa ferramenta para tratar do presente, das questões que nos afligem aqui e agora. E Dick é certeiro em denunciar os males de seu tempo, ocultos por trás dos perfeitos subúrbios americanos dos comerciais de margarina: desde os terrores da guerra e da morte, até a constante desumanização a qual submetemos uns aos outros das mais diversas formas.



“O Tempo Desconjuntado”, romance de 1959, não foge à regra – reflete e ironiza bem todo este cenário idílico da década em que foi escrito, e ainda traz em seu seio uma outra característica marcante na obra de PKD: as conexões com os principais temas do misticismo gnóstico. Muito embora o autor só tenha se convertido ao gnosticismo cristão em 1974, em função de uma epifania, já é possível enxergar as principais características dessa mitologia.

Para quem tenha ficado confuso: o gnosticismo é um conjunto de crenças religiosas, originadas no Oriente – mas à qual se incorporaram outras correntes de pensamento, como o neoplatonismo, por exemplo, e que depois acaba por se incorporar a algumas vertentes do cristianismo (até hoje consideradas heréticas pela igreja católica romana). O cerne de sua mitologia é o seguinte: o mundo, tal qual o conhecemos, é uma gigantesca ilusão projetada por um falso deus corrompido, conhecido como Demiurgo. Objetivo: impedir a humanidade de alcançar a verdade, isto é, o mundo onde se encontra o verdadeiro deus, cuja face mais jovem – uma divindade feminina chamada Sophia, mãe deste deus de mentira – cedeu sua essência aos seres humanos antes de desaparecer. Deste modo, todos possuem um fragmento divino dentro de si, portanto capazes de ver além dos enganos e tentações do mundo material, e transcender rumo à verdade espiritual (a “gnose”).

Isso te lembra alguma coisa?
A maior parte das histórias de ficção científica com alguma dúvida existencial – como a trilogia Matrix, os animes Neon Genesis Evangelion e Ghost in the Shell, e O Show de Truman, que será citado novamente mais tarde – bebe, e muito, da mitologia gnóstica. Autodescoberta, questionamentos sobre natureza da realidade, o famoso “será que estou vivendo ou apenas existindo?”, temas tão caros à FC, estão diretamente relacionados ao mito gnóstico de que estaríamos presos a um mundo maléfico, e que a realidade é uma mentira. E “O Tempo Desconjuntado” é exatamente sobre isso e mais um pouco.



No fim dos anos 50, o veterano de guerra Ragle Gunn vive em uma pacata vizinhança americana junto da irmã, a dona de casa Margo, de seu cunhado Vic, e do filho de ambos, Sammy. Sua ocupação diária é um tanto inusitada: enquanto Vic sai para trabalhar no supermercado local, Sammy vai para a escola, e Margo cuida dos afazeres domésticos, Ragle resolve os desafios do concurso do jornal local (“Onde está o homenzinho verde? ”). É quase tão trabalhoso quanto um emprego “de verdade”: trabalhando diariamente com a ajuda de planilhas e bancos de dados baseados em jogos anteriores, Ragle sempre acerta o concurso, ganhando mais de cem dólares por semana por cada um dos desafios, o que lhe conferiu fama e respeito entre seus conhecidos. Entre flertes com a jovem vizinha, Junie Black, e passeios pelos arredores da cidade quando não está trabalhando, o protagonista leva uma vida relativamente tranquila.

“— Eu sou bem importante — disse ele, pousando o jornal na mesa.
— Ah, você é sim — disse Margo.
— Eu tenho a impressão de que o que eu faço afeta toda a raça humana.
Ela se endireitou e parou de lustrar.
— Que coisa peculiar para se dizer. Eu não vejo como... — Ela se interrompeu — Afinal, um concurso é só um concurso”. (pg. 175)

Estranhas ocorrências, no entanto, tomam pouco a pouco este cenário de paz. Com bastante frequência, objetos na rua se desintegram diante de seus olhos, deixando apenas etiquetas de papel com seus nomes no lugar (como “barraca de cachorro quente” e “banco da praça”). Ragle, é claro, inicialmente pensa estar delirando, até que seu cunhado passe por experiências similares. Dois acontecimentos quebram de vez a ilusão: a descoberta de uma lista telefônica com números e endereços totalmente desconhecidos, junto de uma revista repleta de fotos de Marilyn Monroe (da qual ele sequer ouviu falar); além de uma estranha estação de rádio, encontrada por Sammy enquanto brincava com seu aparelho, cujas vozes parecem estar interceptando cada movimento de Ragle. Tudo isso contribui para um crescente estado de paranoia na mente do homem, que se sente observado por tudo e por todos – seria aquela vizinhança um mundo inventado na qual todos são atores e apenas ele é real? Estariam todos monitorando sua vida? Como fugir? E afinal, o que acontece depois que conseguir fugir?

PKD trabalha o mito gnóstico da ilusão com uma dose cavalar de misantropia. Em relação a Matrix, por exemplo (em que o protagonista descobre a farsa da realidade, e deve lutar para libertar a humanidade do mal), “O Tempo Desconjuntado” segue uma abordagem bem mais pessimista. Se lançado nos dias atuais, inclusive, o romance facilmente seria tratado como uma desconstrução das convenções que o próprio Matrix estabeleceu: em ambos temos um mundo artificial construído em torno do protagonista; o mito do “Escolhido” messiânico que deve libertar a humanidade; e uma guerra entre duas forças por debaixo dos panos. Dick, no entanto, distorce cada um destes conceitos com a ironia que lhe é peculiar, beirando o niilismo.

Mas, se estamos falando de comparações, é inevitável não citar O Show de Truman: temos um homem em uma cidade pequena, totalmente alheio ao fato de que sua vida inteira – desde sua concepção até a idade adulta – é transmitida ao vivo, 24 horas por dia, para o mundo inteiro; a cidade (um gigantesco domo autossustentável na entrada de Hollywood) foi construída especialmente para o programa, e todos os seus habitantes são atores. Não se trata de mera comparação temática: o próprio visual do filme é bastante similar ao evocado pelo o livro – a anacrônica Seaheaven, de estética anos 50 e carros do fim dos anos 90, lembra em muito a cidadezinha onde Ragle mora, um amontoado de referências e tecnologias nem sempre compatíveis historicamente entre si. Até mesmo a cena em que o rádio do carro de Truman falha (e este descobre que o monitoram enquanto dirige) é extremamente similar às descobertas de Ragle. Novamente, contudo, a abordagem de PKD se faz muito mais sombria – e, em certos pontos, quase enigmática.

“Podemos tentar juntar tudo aquilo que sabemos, ele percebeu, mas isso não nos leva a nada, exceto que há algo de errado nisso tudo. É o que temos para começar. As pistas que estamos obtendo não nos dão uma solução, mas nos mostram o alcance dessa impressão de coisa errada”. (pg. 112)

Para criar uma imagem nítida e clara deste mundo ideal, o autor se demora no cotidiano das personagens e em suas interações com o ambiente – não apenas Ragle, mas também Margo e Vic. Por conta disso, o início, e principalmente o meio, me pareceram bastante arrastados, até um pouco cansativos; um Dick mais maduro teria cortado as cenas em excesso, sintetizando as passagens longas sem prejuízo à mensagem. Temos aqui um autor jovem, ainda em processo de construção da escrita limpa e sintética pela qual será conhecido. Futuramente, PKD retornará a muitos dos temas desenvolvidos por aqui – por exemplo, há uma curiosa semelhança entre “O Tempo Desconjuntado” e seu conto “Lembramos para você a preço de atacado”, de 1966 (que inclusive baseou o filme “O Vingador do Futuro”). Este último parece se amparar bem mais no teor satírico.

Nada disso, entretanto, é demérito à prosa desenvolvida pelo autor neste momento. As sacadas irônicas e o brilhantismo contido nos pequenos detalhes já estão presentes aqui; com o passar das páginas, a paranoia e alienação de Ragle passam a ser nossas também, e é quase impossível não devorar as páginas freneticamente a partir do final, quando a trama adquire sua guinada decisiva.



Ragle é um homem comum que se vê em um mundo distópico por trás de sua vidinha, assim que põe os pés para fora da realidade conhecida, devendo escolher um lado num embate planetário. Em momento algum, contudo, nos é permitido chegar a uma conclusão sólida sobre quem, de fato, tem razão. E tampouco a escolha de Ragle nos revela algo – em uma guerra, ambos os lados sempre se enxergarão como certos, mesmo que custe as vidas de inocentes. Tudo isso se conecta à Guerra Fria e a histeria anticomunista vivida nos EUA à época de lançamento do livro. PKD tece comentários ácidos à geopolítica de seu tempo, não apenas por conta do contexto geral, mas também a nível pessoal: quatro anos antes, em 1955, o autor e sua então esposa, Kleo, receberam uma visita do FBI, em função das atividades “subversivas” desta. A mensagem final é clara, e reflete bem os sentimentos antiguerra e antigoverno do autor: num conflito entre duas grandes potências, nunca há de fato vencedores.

“Isto é a realidade.
E, pensou ele, eu estou dentro dela”. (pg. 188)

Mas nem só de acertos vive “O Tempo Desconjuntado”. Falei bastante sobre contexto histórico por aqui, e com razão: por mais que PKD se volte para o (então) presente e faça reflexões, ele ainda é um homem de seu tempo. E isso vai se refletir no modo com que concebe as personagens femininas – uma característica tão frequente em sua obra quanto todas as outras já citadas. Se seus personagens masculinos, falíveis e humanos como são, ainda possuem uma dose de complexidade, o mesmo não pode ser dito a respeito das mulheres: frequentemente relegadas a papeis subalternos de esposas servis, femmes fatales de moralidade questionável ou criaturas lânguidas de pouca imaginação, elas raramente possuem arcos próprios dentro das tramas, e são quase sempre unidimensionais, servindo como pontes ou entraves para o protagonista.

Junie Black e Margo Nielson não fogem à regra: mesmo dentro de todo o contexto em que se desenrola a ação, seus questionamentos e dúvidas próprias são totalmente deixados de lado para que se privilegiem os dos homens. Junie – que casou muito jovem, logo após terminar o ensino médio –, e sua busca por uma adolescência perdida cedo demais, é tratada com condescendência por Ragle, Vic e Margo o livro inteiro. Margo, por sua vez, embora também se engaje nas investigações de Ragle e Vic no início do livro, é deixada de lado sem hesitação quando os dois resolvem a charada. Ambas se tornam completamente descartáveis quando o livro dá sua guinada final. Na segunda parte da trama, quando a sra. Keitelbein ganha um pouco mais de destaque, é apenas para fornecer as informações a fim de que Ragle complete sua jornada – nada mais além disso. Ressaltar estes aspectos em um livro lançado há seis décadas pode parecer tolo, mas é importante resgatá-los mesmo quando (ou principalmente quando) se trata de uma obra escrita por um autor consagrado como PKD.

O trabalho de edição da Suma está excepcional: edição em capa dura, e fontes de tamanho médio, facilitando bastante a leitura.

No geral, “O Tempo Desconjuntado” é uma amostra do estupendo potencial de Philip K. Dick em construir mundos tão diferentes, e, ao mesmo tempo, tão parecidos com os nossos. O sentimento de inquietação presente ao longo do texto culmina em últimas páginas frenéticas e um final lacônico, sem grandes explicações, tão estranho e perturbador quanto sua obra como um todo. Guardadas as devidas ressalvas ao péssimo desenvolvimento de suas personagens femininas, é de se espantar a atualidade do texto de PKD. Conectando o imaginário gnóstico de ilusões, incertezas e falsos deuses a uma realidade interplanetária aparentemente tão distante, o autor capta as mazelas de seu século com um realismo assustador.

E hoje, quase sessenta anos depois, é ainda mais aterrorizante constatarmos que quase nada mudou.

“Mas não queremos mais viver aqui. Nós estamos indo embora. Para sempre”. (pg. 204)



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O Tempo Desconjuntado (Time out of Joint)
Autor: Philip K. Dick
Editora: Suma (Companhia Das Letras)
Ano: 2018
Skoob: 4.0 Estrelas / Goodreads: 3.8 Estrelas
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04 Estrelas
Um romance impressionante de um dos maiores nomes da ficção científica. Philip K. Dick faz o leitor duvidar do real e se perguntar a todo momento até que ponto a paranoia é justificada. Com edição especial em capa dura e projeto gráfico arrojado, uma obra inédita de Philip K. Dick chega ao Brasil, trazendo um retrato único da construção do medo, da desconfiança e da própria realidade. Ragle Gumm tem um trabalho bastante peculiar: ele sempre acerta a resposta para um concurso diário do jornal local. E quando ele não está consultando seus gráficos e tabelas para o trabalho, ele aproveita a vida tranquila em uma pequena cidade americana em 1959. Pelo menos, é isso que ele acha. Mas coisas estranhas começam a acontecer. Primeiro, Ragle encontra uma lista telefônica e todos os números parecem ter sido desconectados. Depois, uma revista sobre famosos traz na capa uma mulher belíssima que ele nunca tinha visto antes, Marilyn Monroe. E para piorar, objetos do dia a dia começam a desaparecer e são substituídos por pedaços de papel com palavras escritas, como “vaso de flores” e “barraca de refrigerante”. A única alternativa que Ragle encontra para descobrir o que está acontecendo é fugir da cidade e de todos esses acontecimentos bizarros, contudo, nem a fuga nem a descoberta serão tão fáceis quanto ele imaginava. “Maravilhoso, terrivelmente divertido, ainda mais se você já considerou a possibilidade do mundo ser um universo fictício construído somente para impedir que você descubra quem realmente é. Uma possibilidade bastante plausível, claro.” — Rolling Stone
Autor: Philip Kindred Dick, também conhecido pelas iniciais PKD, foi um escritor americano de ficção científica que alterou profundamente este gênero literário. Apesar de ter tido pouco reconhecimento em vida, a adaptação de várias das suas novelas ao cinema acabou por tornar a sua obra conhecida de um vasto público, sendo aclamado tanto pelo público como pela crítica e tornando-se um ícone da contracultura.

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