Resenha: Geek Love - Katherine Dunn

Uma história que transformou um geração e que retorna ao Brasil pronto para mexer fortemente com a mente dos leitores dessa obra

setembro 12, 2018 - Postado Por: Francisco Neto
Compartilhe:

Uma história que transformou um geração e que retorna ao Brasil pronto para mexer fortemente com a mente dos leitores dessa obra




Estamos a um pouco menos de um mês para uma das mais importantes eleições da história recente do Brasil. E um dos temas mais colocados em pauta entre os candidatos ao cargo mais alto da presidência é a reestruturação da família. "Mas perá lá", que família tem que ser colocada em voga? Aquela normal de pai, mãe e filhos? Será que no meio de 200 milhões de pessoas, existe apenas esse padrão a ser colocado em pauta? Ou esse padrão é o mais importante, porque temos medos do que é diferente?

São reflexões que trago à tona, porque ao ler Geek Love, existe tantas nuances no conceito de família e que vai mudando a cada momento que a história avança, que provavelmente, pessoas que ainda tenham uma mente mais conservadora, pode entrar em colapso ao adentrar nessa leitura. Geek Love não é uma história fácil de ser digerida, ela com certeza mudará sua perspectiva de mundo, se você estiver suscetível a ela. Senão, o mais provável que você vai odiá-la

A história escrita por Katherine Dunn completa em 2019, 30 anos. Uma história marcada por grandes influências na cultura Pop em algum nível. Kurt Cobain, Courtney Love, Neil Gaiman, Tim Burton, Flea (Red Hot Chilli Peppers), Henty Selick (O Estramho Mundo de Jack) são apenas algumas das personalidades que entraram nessa história de uma forma e saíram de outra. Séries, filmes e músicas, do final de 1980, inicio de 1990, beberam da estranheza que a história traz para a humanidade. Lollapaloza construiu o seu conceito baseado nessa obra. Mano, até agora eu não consigo descrever em palavras o quanto Katherine me impactou...



MUITO MAIS QUE UM CIRCO DOS HORRORES

A história começa com Lil e Al Binewski, um casal que percebeu a fragilidade que o seu circo estava tendo e resolve criar os seus monstros. Primeiro Arturo, que nasceu com nadadeiras no lugar de pernas e mãos. Depois as gêmeas siamesas Elly e Iphy. Mais tarde nasce a careca e albina Oly. E por último, o quase normal Chick. Apenas quase. Prestes a ser abandonado, os pais dele descobrem o poder de telecinese do jovem garoto. Para que eles nascessem assim, Lil bebia doses cavalares de drogas e entorpecentes que pudessem propriciar essas anomalias. E depois de muitos abortos que estão em amostra no circo. Essas experiências se tornaram reais, e mudariam o curso do circo Binewski.

Quem conta essa história é Oly, a jovem albina é vista como a mais normal do grupo, que não seria um grande freak show para o público. Com isso, ela além de estar em uma posição de menos pressão, ainda consegue caminhar por todo o circo e te contar cada detalhe dessa imensidão. Alias, esse deve ser o ponto que mais atrapalha o inicio da história. A autora passa muito tempo descrevendo detalhe do circo, personagens, personalidades. Isso dá um tom bastante linear da história. Mas cuidado, esse clima linear engana, porque muita coisa que ela vai contando é extremamente relevante para a evolução da história. Para tentar absorver as bizarrices que vem a seguir. E são muitas....

O Circo Binewski poderia ser só mais um circo que viaja pelo interior dos Estados Unidos, arrastando uma multidão para assisti as figuras grotescas que não estamos acostumados. Poderia, mas não é. Os personagens dessa família tem personalidades que são extremamente interessantes e que mostram a fragilidade humana para a "anormalidade", e esse é o grande diferencial da história.



Arturo é o mais velho da família e desde cedo, apesar de sua dificuldade em andar, mostra a sua capacidade de manipulação com as outras pessoas. E se no inicio ele é movido a inveja, conforme a história avança, essa sua característica torna-se somente "uma agulha no palheiro" do que ele é capaz de fazer. O jovem está muito próximo a características de grandes figuras como Hitler, ou Charles Manson. E talvez por isso, ele consiga persuadir muitas pessoas ao culto "arturano". Onde, elas são capazes de amputar partes do seu corpo para ser igual a ele. Talvez, esse seja um dos personagens, o qual balançou muito a minha mente, e me fez questionar a ideia de "freak" que nós temos, e o que de fato é. Será que de certa forma a nossa alma não tenha um lado "Freak" que nem sempre conhecemos?

Elly e Iphy são mais do que gêmeas siamesas, são uma metáfora para o que nós humanos somos. Uma dualidade entre a inocência e a austeridade. Elly é mais doce, tenta ver o lado bom das coisas em tudo, facilmente manipulável, especialmente por Arturo, que representa uma figura extremamente dominadora sobre ela. Iphy já é quase o oposto de sua irmã, e seu ódio por Arturo pode representar um perigo. Ela sempre soube do que é capaz, por isso está disposta a lutar contra ele até o fim.

Oly, além de narradora desse livro, é praticamente um capacho do Arturo, ela faz tudo para que ele não fique brava com ela em nenhum momento, mesmo sabendo das coisas da qual ele é capaz. É uma relação extremamente abusiva, e doentia. Especialmente, porque como estamos em sua mente, percebemos que ela reconhece o que Arturo está fazendo, mesmo assim ela não consegue sair dessa situação. Além disso, conforme as coisas vão evoluindo, Oly toma atitudes que podem ser extremamente fora da caixinha. A nossa cabeça explode em alguns momentos.

Chick, apesar de ser a pessoa mais poderosa da família, é extremamente ingênuo. O seu poder de telecinese é impressionante. Ele consegue manipular as pessoas durante as cirurgias de amputação do membro, de tal forma, que ela não sente nenhuma dor no processo. Ele diz que o seu poder funciona como a água. Que as coisas sempre tem tendências a se mover, porém precisa de um agente que permita esse movimento. Ele é esse agente. Porém, Chick não consegue fazer as coisas por maldade. Machucar uma pessoa para ele, é algo torturante. Seu coração, talvez seja o mais puro de todos. Talvez ele seja uma eterna criança, em um mundo dominado por adolescentes maldosos.

Além dos quatro "geeks", ainda existe, os responsáveis por essa família. Lil e Al. Os dois que colocaram a ambição em primeiro lugar, e que foram tomados por ela de tal forma, que não conseguiam mais controlar os seus filhos. Alias, eles amavam os seus filhos, é possível ver isso durante a história. Porém, a sua sede de ser algo de sucesso acabou sendo responsável pela negligência de tudo que acontecia ao seu redor. Eu ficava imaginando, cadê os pais dessas crianças que permitem que isso tudo aconteça !!!



SOBRE AS BIZARRICES E CULTOS

“Porque as pessoas te amariam, se fosse bonita? E se fosse amada pelas pessoas, você seria feliz? É o amor das pessoas que faz você feliz?” (P. 216)

Quando uma história explora em grande vulto anomalias, logo vem em mente a dualidade entre a normalidade e anormalidade. Quase sempre, na aceitação, ou na vontade de mudança. Porém, no Circo Binewski, e nenhum momento viu-se a vontade dos "Freaks" em ser diferente do que são, apesar de todo o preconceito social existente, que gerou inclusive situações de risco de vida. Nesse processo, Arturo faz interessante questionamentos. Será que eles seriam felizes se fossem normais? A normalidade é sinônimo de felicidade? Uma família com pai, mãe e filhos, o padrão mais aceito, é o que traz felicidade as pessoas? Ou é algo que vem do interior que provoca isso?

Esse foi o ponto chave para que Arturo criasse um culto dos "bizarros", que a felicidade não está na beleza, mas em estar bem do jeito que é. A questão que o seu poder de convencimento levava pessoas irem até as últimas consequências. Olhando assim, é fácil perceber como muitas religiões atuam justamente no ponto mais frágil do ser humano: A sua imensa dificuldade em fazer escolhas, e a sua alta capacidade de fazer julgamentos. Duas questões muito pouco mediadas pela nossa mente. E nisso a autora, nos leva até o ápice de nossos desgostos para tentar refletir sobre isso. Geek Love nos testa todo o tempo como ser humano, colocando-nos na mesma situação dos personagens, para saber exatamente do que seríamos capazes de fazer. Situações sem moralidades, sem julgamentos externos. Seríamos capazes de fazer as mesmas coisas?

Próximo ao final, o destino da maioria dos personagens foi definido de tal forma, como se fossemos extirpados da história de maneira brusca, do mesmo jeito que uma sanguessuga que está imerso em na pele humana. Mesmo assim a história não acabou, e os momentos finais ainda tem mais para nos mostrar, sobre família, desapego, e da capacidade humana de ir até as últimas consequência para proteger os seus pares. E aí finalmente a história se encerra nas palavras, mas continua habitando o nosso ser. Geek Love vive em mim, numa relação simbiótica, em que eu não vivo sem essa história e ela não vive mais sem mim.

“(...) Há aqueles que sentem a própria estranheza e ficam apavorados com ela. Lutam para se aproximar da normalidade. Sofrem exatamente na mesma medida que são incapazes de parecer normais aos outros, ou de se convencer de que sua aberração não existe. Esses são os verdadeiros bizarros, que parecem, quase sempre, convencionais e sem graça” (P. 336)

"É interessante que quando esses indivíduos escolhem - e a escolha é sempre deles - suportar amputações voluntárias em beneficio próprio, a sociedade se declare chocada e totalmente contra. Mas essa mesma sociedade respeita o conceito de que qualquer individuo deve se expor ao risco da total aniquilação na guerra (...) Não, eles não só respeitam essa ideia, eles contam com isso. E atiram na sua bunda se você não concordar (P. 336)


Interessados? Clique no link acima e adquira o seu exemplar !!!
Geek Love (Geek Love)
Autora: Katherine Dunn
Editora: Darkside Books
Ano: 2018
Skoob: 3,9 Estrelas / Goodreads: 3,98 Estrelas
Compre Aqui: Amazon
04 Estrelas
Senhoras e senhores, sejam bem vindos ao circo dos Binewskis, um lugar repleto de atrações extraordinárias e seres estranhos que vão surpreender o mais cético dos espectadores. Quando os ambiciosos donos de um circo itinerante se veem diante da decadência de seu próprio negócio, eles decidem mudar o jogo de maneira nefasta. Com o uso de substâncias radioativas e drogas, eles transformam seus filhos em aberrações - um espelho de sua própria moral - para salvar o negócio da família. Suas apresentações pelo país inspiram devoção de alguns e ódio de outros, e as tensões e valores familiares são levados a um novo nível. Geek Love lança sua luz sobre as nossas noções de bizarro e normal, belo e feio, sagrado e obsceno. Fãs da série American Horror Story e do filme Freaks, de 1932, vão se transformar com essa história, também uma das favoritas de Neil Gaiman, e tão singular quanto seus personagens.
Autora: Katherine Dunn foi uma autora norte-americana filosofa e psicologa. Apesar de já ter escrito duas histórias antes, Geek Love foi o grande divisor de águas em sua carreira. Publicado em 1989 e finalista do National Book Award, prêmio mais importante dos Estados Unidos, o livro atravessou uma geração influenciando fortemente a cultura Pop, e também pessoas influentes como Kurt Cobain, Neil Gaimam, Lea (Red Hot Chilli Peppers) e teve seus direitos comprados para virar um filme dirigido por Tim Burton, mas que nunca saiu do papel. O livro também é uma das grandes influências da série American Horror Story, na temporada "Freak Show".

Comente com o Facebook