Resenha: Enterre seu Mortos - Ana Paula Maia

Uma obra que questiona em seu subtexto várias nuances da natureza humana

setembro 03, 2018 - Postado Por: Redação SOODA
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Uma obra que questiona em seu subtexto várias nuances da natureza humana




Pessoas tomam a literatura como válvula de escape para uma melancólica e cansada vida de rotinas, conhecendo novos mundos, amores, personagens, seres mágicos que nos distanciam psicologicamente de nossa essência como humanos; porém Ana Paula Maia faz, com maestria, exatamente o contrário. Enterre seus mortos é uma viagem crua e direta pelas frias estradas que nossa moral trafega todos os dias, mostrando que antes do coração, há carne e osso.

Na década de 10, Hollywood nos presentou com um dos gêneros que encantariam gerações ao redor do mundo, os Westerns. Faroeste, como foi traduzido no Brasil, trouxe um clima árido – já conhecido por nós - cheio de personagens dúbios que resolviam seus problemas na valentia de uma bala e levantando temas como: moral, ética, amor, vingança e julgamento. Foi utilizando essa atmosfera seca e sem esperança que Ana Paula Maia nos conta a história de Edgar Wilson, um removedor de animais mortos. Vale destacar que o cenário criado pela autora funciona como um personagem “vivo” na história, pois diversos fatores relacionados a localidade são indispensáveis para a coesão das atitudes tomadas por eles.

Deus ou o Diabo, parece que nenhum dos dois está aqui

Ana Paula cria uma cidade fictícia no interior do Brasil para servir de palco a toda frieza vivida pelos protagonistas, inclusive um cachorro. A esperança é um tema levantado no subtexto do livro, apresentando questionamentos a respeito da natureza humana dos trabalhos feitos por Edgar. Aqui fica claro que a válvula de escape se transforma em uma grande tela de realidade interiorana, isso é mostrado com a dureza que Edgar trata os animais mortos; tornando completamente justiçável sua personalidade, rotina e a sociedade a qual o homem está incluso.

“— E é aí que eu digo pro senhor: fico meio que apavorado.
— Por quê?
— Eu tenho certeza que aqui, nada e nem ninguém me escuta. Deus ou o Diabo, parece que nenhum dos dois está aqui”. Pag.16


A remoção de animais mortos na estrada se tornou um pratica lucrativa em tal cidade, fazendo com que o oficio seja o motivo – graças a rotina – para um tratamento frio com os corpos dos animais. Eles são moídos, são vendidos, são jogados fora sem e mínima empatia socialmente causada por tal ato, fazendo que outro ponto martele a mente do leitor: a rotina.

Edgar Wilson trabalha nesse ramo há anos, sem família na cidade ele desconhece qualquer razão esperançosa para mudar de vida ou sair daquela zona de conforto. Mais uma vez o cenário interfere nas atitudes dos personagens com a desesperança velada do local, a interação natural entre causa um certo desconforto no leitor ao reconhecer que tudo aquilo – para eles – é normal. A totalidade da concepção de mundo é fechada apenas naquela cidade interiorana, tendo como poucos prazeres a monotonia da pesca. Até que algo surge em frente a Edgar lhe dando uma nova tarefa introspectiva.

Mais uma morte na estrada.

Animais estraçalhado pela estrada não são novidades para Edgar, porém quando um corpo humano é encontrado num matagal sem razão aparente para a morte; o instinto moral de Wilson fala mais alto. A imersão na cabeça do personagem é algo que Ana Paula Maia fez com muita precisão; fatos e apresentações embasam qualquer atitude – por mais simples que seja – de seus personagens, isso causa um conforto enorme na mente de qualquer leitor.

Com uma escrita carnal e direta, a autora sabe muito bem utilizar os elementos para que o leitor passe a página sem perceber. Frases certeiras como um tiro são achadas aos montes, expandido também aos diálogos muito bem trabalhados, por mais frios que sejam, ainda possuem um caráter humano nas entrelinhas. Vale muito refletir sobre a relação pessoal desse povo que vive em uma bolha de marasmo e sem perspectiva.

“Então duas aves acabam se chocando e algumas penas se desprendem, caindo lentamente. Uma delas toca o rosto de Edgar Wilson. Ele avança para além de uma clareira e num conjunto de arvores mais afastado ele encontra o corpo de um homem estirado no chão” Pag. 63


O livro usa uma estrutura de dois atos muito interessante, por mais que não tenha o seu ápice no meio da história, isso é compensado por ser um livro curto, bem capaz de você conseguir ler em no máximo dois dias. Mais uma vez a Companhia das Letras fez um ótimo trabalho, apostando numa história fora dos padrões usuais do mercado e pluralizando o ramo cada vez mais restrito a autores iniciantes.

Ainda há esperança

Por mais que a esperança seja um ponto quase inexistente para os personagens da história, existe uma mensagem no subtexto que remete exatamente a isso, porém não de uma forma tão egoísta em tratar algo nosso, mas sim em um sentimento alheio. Edgar se torna um imenso farol de esperança – que por mais fútil que seja o motivo – traz um alivio para os personagens que se relaciona ao decorrer da história. Enterre seus mortos foi uma das leituras mais prazerosas que tive esse ano, recomendo bastante para qualquer tipo de leitor e se você é um daqueles que gostam de interpretar e filosofar por cada linha de uma prosa rica, Ana Paula Maia escreve especialmente para você.

RESENHA POR FÁBIO ANDRADE



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Enterre Seus Mortos
Autora: Ana Paula Maia
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2018
Skoob: 4.0 Estrelas /
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05 Estrelas
Uma habilidosa mescla de novela policial, faroeste de horror e romance filosófico, escrito por uma das vozes mais originais da literatura brasileira contemporânea.
Edgar Wilson é “um homem simples que executa tarefas”. Trabalha no órgão responsável por recolher animais mortos em estradas e levá-los para um depósito onde são triturados num grande moedor. Seu colega de profissão, Tomás, é um ex-padre excomungado pela Igreja Católica que distribui extrema unção aos moribundos vítimas de acidentes fatais que cruzam seu caminho.
A rotina de Edgar Wilson, absurda em sua pacatez, é alterada quando ele se depara com o corpo de uma mulher enforcada dentro da mata. Quando descobre que a polícia não possui recursos para recolhê-lo — o rabecão está quebrado —, o funcionário é incapaz de deixá-lo à mercê dos abutres e decide rebocar o cadáver clandestinamente até o depósito, onde o guarda num velho freezer, à espera de um policial que, quando chega, não pode resolver a situação.
Nos próximos dias, o improvisado esquife receberá ainda outro achado de Wilson, o lacônico herói deste desolador romance kafkiano: desta vez o corpo de um homem. Habituados a conviver com a brutalidade, Edgar e Tomás não se abalam diante da morte, mas conhecem a fronteira, pela qual transitam diariamente, entre o bem e o mal, o homem e o animal. Enquanto Tomás se empenha em salvar a alma, Edgar se preocupa com a carcaça daqueles que cruzam seu caminho. Por isso, os dois decidem dar um fim digno àqueles infelizes cadáveres.
Em sua tentativa de devolvê-los ao curso da normalidade, palavra fugidia no universo que Ana Paula Maia constrói magistralmente, os dois removedores de animais mortos conhecerão o insalubre destino de seus semelhantes. Com uma linguagem seca, que mimetiza as estradas pelas quais o romance se desenrola, a autora faz brotar questões existenciais de difícil resolução. O resultado é uma inusitada mescla de romance filosófico e faroeste que revela o poderoso projeto literário de Maia.
Autora: A autora nasceu no Rio de Janeiro. É autora de sete romances, entre eles Carvão animal, De gado e homens e Assim na terra como embaixo da terra. Tem contos publicados em diversas antologias, entre elas 25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record, 2004) e Sex´n´Bossa (Mondadori, Itália, 2005).

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