Resenha: Você Tem a Vida Inteira - Lucas Rocha

Uma obra jovem que retrata muito bem que ter HIV não é mais uma sentença de morte, desde que a sociedade esteja preparada para enterrar seus preconceitos

agosto 18, 2018 - Postado Por: Francisco Neto
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Uma obra jovem que retrata muito bem que ter HIV não é mais uma sentença de morte, desde que a sociedade esteja preparada para enterrar seus preconceitos




Era um exame de rotina. Porém, ele havia recebido uma ligação que tinha que comparecer ao laboratório. Mas porque? todos os resultados sempre estavam disponíveis na Internet, mas um não estava. Ele tinha medo do que viria. Passou a tarde com inúmeras possibilidades em sua mente. Mais tarde, no laboratório, uma biomédica o atendeu. Todos os pesadelos se tornaram reais, ele tinha o virus do HIV em seu corpo. E agora o que fazer da sua vida? Valeria continuar vivendo?

Ele estava com um feridas no corpo que não cicatrizavam. O médico pediu o exame, pois estava desconfiado. Mas poderia não ser. Era só para descargo de consciência, não? 30 minutos depois o resultado saiu. A consciência pesou, Era HIV que estava em seu organismo, e as feridas que não cicatrizavam eram do Citomegalovirus que já se reativara no seu corpo, mas que não era combatido pelas suas células de defesa. Era hora de agir rápido, pois o HIV já tinha avançado muito e a história precisava ser revertida, antes que fosse tarde demais.

16 anos, ele acabara de ter a sua primeira relação sexual, infelizmente, sem camisinha. Então resolveu fazer o exame, mas estava certo de que nada daria errado. Seus amigos todos faziam sexo sem proteção e nunca adquiriram uma Herpes sequer. Mas infelizmente o resultado não era positivo, a primeira e única vez que ele errou, foi responsável pela aquisição do HIV que agora permanecerá pelo resto da sua vida em seu corpo. 16 anos, ele não pensava, só chorava, acreditando que sua vida tivera fim.



Começo essa resenha com três relatos verdadeiros de pessoas que receberam o seu diagnóstico de HIV. Por questões éticas, nenhum nome, ou local, ou data foram informados, a fim de que não fosse possível a identificação dessas pessoas. Porém, a história de Você Tem a Vida Inteira me fez trazer esses relatos, para mostrar que isso é real. A maioria dos diagnósticos de HIV+ sempre terminam, em o que vou fazer da minha vida? Mas porque? Porque ter HIV+ é uma sentença de morte? Ou pelo menos era. É possível mudar a cabeça dessa sociedade, que hoje em dia não é bem assim? Esse livro tenta fazer o seu trabalho. E deveria ser lido por todo mundo.

Não é novidade para ninguém, que ter HIV há 30 anos atrás, era quase como ter "Ebola". A morte era iminente. Sabia-se pouco sobre a doença. Então as campanhas eram assustadoras. É só ver como eram feitos os cartazes do Governo Federal. Alias, muitas pessoas públicas morreram naquela época. Cazuza, Renato Russo, Lauro Corona. Algo precisava ser feito.

Porém, 30 anos depois a medicina avançou bastante. Com apenas uma pilula por dia (na maioria dos casos) o HIV pode ser controlado por muitos anos no organismo da maioria das pessoas HIV+. A quantidade do vírus se torna tão baixa, que o exame nem detecta a presença do vírus no corpo, a possibilidade de transmissão é nula. A camisinha então se torna uma proteção mais para as pessoas HIV+ indetectáveis, do que para uma pessoa que nem sequer conhece a sua sorologia. O problema de tudo isso é, quantas pessoas sabem de tudo isso? Porque o fantasma do HIV continua rondando a nossa sociedade? até quando? São questionamentos que Lucas Rocha faz em seu livro.

Na história conhecemos três personagens. Ian, um jovem que está totalmente assustado com o seu diagnóstico de HIV+. Apesar de médicos, enfermeiros e psicólogos dizerem que a doença é facilmente tratada. Sua mente borbulha em muitos pensamentos, do tipo? O que eu fiz? A culpa é minha. Sou um idiota. Eu mereço. Certo, ele errou, por muitos motivos que não importam, porque é fácil fazer julgamentos sobre a vida dele. Mas de fato quantas pessoas "erraram" e não aconteceu nada? até onde, deve-se levar em consideração que o erro foi dele, ou do processo em si, das políticas sobre a questão? Enfim, são muitas perguntas, que ficarão sem respostas (pelo menos por enquanto), e agora, é hora de trabalhar no tratamento. Mas ainda existem muitos medos na cabeça de Ian, é nesse momento que aparece, Victor e por tabela Henrique.

Victor conhece Ian, no centro de acolhimento de portadores de HIV, ele tinha ido lá porque estava preocupado com a sua sorologia, logo depois de descobri que o cara que ele estava ficando (Henrique) é soropositivo indetectável há três anos, e mesmo fazendo sexo com camisinha, a pulga social dizia que ele podia contrair a doença. É quase óbvio que o resultado é negativo, mas o ódio que ele tem por Henrique por não ter contado antes é tão grande, que ele acha que tudo aquilo que eles tiveram de bom deve ser jogado fora. Sim, julga-lo por isso também é complexo. 30 anos de campanhas dizendo que você tem que ficar longe de pessoas HIV+ não vão mudar de uma hora para outra. Ao conversar com Ian, ele acaba dando o número dele ao Henrique, acha que ele pode ajuda-lo de alguma forma.

Já o Henrique que faz o tratamento direitinho, e tem a carga viral indetectável (Tão baixa, que não é detectado nos exames) fica pilhado do Victor não responder mais a mensagens. Será que o HIV irá impedi-lo de vivenciar um relacionamento mais uma vez. Até quando? O HIV parece não ser mais uma sentença de morte, mas pelo jeito ainda é uma penitência. Não parece? Enquanto Victor não responde, Henrique conversa com Ian, contando suas experiências e mostrando ao jovem que é possível ser HIV+ e continuar vivendo, porém, as coisas vão mudar sim. E não é só os exames rotineiros que terá de ser feito, ou a pilula que deverá ser tomada todos os dias. Mas o enfrentamento social que será diário.



Quando falei sobre isso a primeira vez, na resenha de Pilulas Azuis pontuei que o maior vilão dessas história era o vírus. Tá, ele não é o bonzinho, mas com certeza o maior vilão é o preconceito contra as pessoas soropositivas, o desconhecimento social que ainda existe na sociedade. E como enfrenta-lo?

Estando ao lado de pessoas próximas, de pessoas que fazem bem e estarão preparadas para enfrentar tudo em qualquer circunstância. E a história de Lucas Rocha mostra muito bem isso, como as amizades são relevantes para evoluir sobre essas discussões. Henrique sempre esteve ao lado de Eric, uma Drag Queen super divertida que estava pronta para salva-lo de qualquer sinal de tristeza. E a gente também. As partes mais divertidas da histórias teve o protagonismo de Eric e sua trupe de Drags (podia rolar um continho sobre elas, hehehehe).

Além disso, o apoio de Henrique ao Ian foi essencial para que seus medos fossem superados, além de Gabriel, um amigo dele antes da descoberta de sua sorologia, e que não saiu de perto em nenhum momento. O momento que Ian conta a ele, eu simplesmente chorei, que nem uma criancinha. foi muito tocante a construção desse momento. Dos medos de Ian, e depois da reação de Gabriel. Amigos são tudo.

Victor que apesar de não ser soropositivo, foi um dos personagens que mais cresceu nessa história. E a forcinha de Sandra, sua melhor amiga, foi essencial para isso. De mostrar que os seus medos são normais, e vão acontecer, mas que tentar e se no futuro não der certo, é pior do que simplesmente fechar a porta para o amor, e ficar com a frustração de não ter tentado. A curva desse personagem foi impressionante. Comecei imaginando, "Que babaca" (sim, eu julgo os personagens para evitar julgar as pessoas, heheheh) e terminei simplesmente amando-o.



Minha única ressalva sobre essa história, tem um nome: glamourorização dos tratamentos de HIV no Brasil pelo SUS. Apesar de nossa referência nesses tratamentos e reconhecer que estamos muito a frente de muitos países. Nem tudo são flores aqui. Sei que tratamentos em cidades como Curitiba e São Paulo, as coisas são muito boas. Mas a realidade, das cidades do Norte e Nordeste é completamente diferente. Aqui em Belém, por exemplo, existem dois locais de acolhimentos para pessoas com HIV. Um que atende o município, e outro que atende pacientes do interior do Estado.

E sinto muito em dizer, mas o relato que tenho desses dois locais são ruins. No centro de tratamento municipal, as pessoas precisam chegar de madrugada para realizar os seus exames. Ficam do lado de fora, expostos a violência (o local de acolhimento é em um dos bairros mais perigosos da cidade) e como as filas são do lado de fora, todo mundo que passa na rua, sabe o que as pessoas estão fazendo ali, não existe nenhuma discrição. É vergonhoso, mas é esse tratamento que muitas pessoas tem.

No centro de acolhimento estadual os relatos são um pouco melhor, mas às vezes as pessoas vem de outros municípios, levam horas e horas para chegar (as distâncias no Pará são enormes) e no local não podem levar o medicamento por questões burocráticas, ou simplesmente porque o pessoal da farmácia perde os seus prontuários. É triste ouvir esse relato de pessoas tão simples. É o tipo de coisa que me choca em nosso país.

Então ao ler sobre esses tratamentos no livros de Lucas Rocha, eu simplesmente comecei a rir. Não porque os relatos deles são irreais. Não são. Pelo que eu vi, ele teve contato com os centros de acolhimento do Rio, e a Fiocruz, locais verdadeiramente bons. Mas colocar isso em uma história que se passa no Brasil dá a impressão que é uma realidade nacional. E mais uma vez é triste falar, mas não é uma realidade nacional. Então, poderia haver algo minimo que criticasse as nossas politicas de saúde, até porque, se o preconceito está instalado em nossa sociedade. E em parte isso aconteceu porque as campanhas não evoluíram na mesma velocidade que a ciência, e isso sim é triste.

Um exemplo. Você sabia que se por acaso tiver uma relação de risco, não o caso de Henrique, que a relação dele não é de risco, mas uma relação sem proteção, ou a camisinha estourar por algum motivo (isso acontece com frequência), você pode ir ao Centro de Acolhimento e tomar o Prep, que nada mais é do que o a pilula relatada nessa resenha, durante 30 dias, que diminui em 100% as chances de de você contrair HIV? Deveria saber, mas o Governo não informa. Enfim, na minha opinião, a maioria das causas de mortes por HIV no país ainda é por negligência das nossas politicas de saúde associadas ao preconceito social, relatados na história de Lucas (Saiba mais sobre a Prep).

Cheguei ao final do livro, com um sentimento de aprendizado muito grande. É visível a preocupação do autor em construir uma história emocionante, com personagens marcantes, que tiveram uma enorme curva de crescimento. E mostrando que está mais do que na hora de mudar nossa visão sobre pessoas HIV+. Esse livro se tornou sim, um dos favoritos do ano, não somente pela sua relevância social sobre o tema, mas pela sua história cativante, mostrando que todos tem uma vida inteira a ser vivida. Independentes de sua sorologia de HIV, que é só um detalhe, que a camisinha deveria ser o suficiente para resolver. Alias, usar camisinha ainda é a melhor forma de evitar tudo isso.



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Você Tem A Vida Inteira
Autora: Lucas Rocha
Editora: Galera Record (Grupo Editorial Record)
Ano: 2018
Skoob: 4.8 Estrelas
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Um livro sensível sobre o amor após um diagnostico de hiv. O livro de estreia de lucas rocha é sensível e honesto sobre um assunto que ainda é um grande tabu as vidas de ian, victor e henrique são entrecortadas pelo diagnóstico do hiv. Victor fica inseguro ao descobrir que henrique, com quem está começando uma relação, é soropositivo e resolve fazer um teste, mesmo que os dois só tenham transado com camisinha. Logo depois de um resultado negativo, ele conhece ian, um universitário como ele que acabou de receber uma notícia que pode mudar sua vida. No impulso de ajudar o garoto, henrique entrelaça os destinos dos três. lucas rocha narra, a partir das três perspectivas, os medos, as esperanças e o preconceito sofrido por quem vive com hiv, mas, principalmente, conta uma história que não é sobre culpa ou sobre estar doente, e sim sobre como podemos formar nossas próprias famílias e sobre nunca esquecer que ainda temos a vida inteira.
Autor: Lucas Rocha é bibliotecário com mestrado em Ciência da Informação e já tem contos sobre literatura LGBTQ+ lançados. Você Tem a Vida Inteira é o seu livro de estreia.

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