Resenha: Um Mundo Sem Príncipes - Soman Chainani

Trazendo temas como estereótipos de gênero e relacionamentos complicados, a continuação da série chega com a missão de continuar a promessa subversiva do primeiro livro.

agosto 15, 2018 - Postado Por: Clara Gianni
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Trazendo temas como estereótipos de gênero e relacionamentos complicados, a continuação da série chega com a missão de continuar a promessa subversiva do primeiro livro.




Finalizei minha resenha do primeiro volume de “A Escola do Bem e do Mal” afirmando que seu final era digno de uma boa subversão, a despeito de alguns tropeços no desenvolvimento de ideias e personagens. Também disse, contudo, que, para que tal final se provasse realmente subversivo, ele deveria se manter até os próximos volumes. E cá estamos nós, diante do segundo título da série, “Um Mundo Sem Príncipes”. Teria o autor se mantido fiel à proposta do livro anterior nesta continuação da história de Sophie e Agatha?



Esta resenha tem alguns spoilers de "A Escola do Bem e do Mal", necessários para compreender os acontecimentos de Um Mundo sem Príncipes. Estejam avisados.



A história começa alguns meses após o fim do primeiro livro – quando Agatha salvou a vida de Sophie com um beijo de amor verdadeiro e as transportou de volta para Gavaldon a fim de selar o final do conto de fadas de ambas (infelizmente, o autor deixa bem claro de diversas formas que a relação entre as duas é puramente platônica, a despeito do beijo). Como as primeiras jovens que escaparam vivas da Escola do Bem e do Mal, as duas são tratadas como celebridades locais, e recebem todas as regalias a que têm direito. Sophie vive relativamente bem após as experiências traumáticas do ano anterior, e tenta se esquecer de suas tendências para o Mal que quase a fizeram matar a melhor amiga; entretanto, o pai deseja se casar novamente com a amiga de sua falecida mãe, o que lhe deixa em um conflito interno entre sucumbir ao ódio e à mágoa e se manter fiel a seus princípios. Agatha, por sua vez, também tem seu próprio conflito interno: embora esteja feliz por ter Sophie de volta, além de sua antiga vida, a garota é perturbada de uma insatisfação que não compreende; ela ainda sonha acordada com Tedros, o príncipe encantado com quem ela teoricamente deveria ter finalizado sua história – mas escolheu beijar Sophie no lugar. Entre o desejo de reencontrar seu príncipe e a vontade de permanecer com sua amiga do jeito que sempre quis, Agatha não consegue permanecer em paz.

São estas duas perturbações que, cada uma à sua maneira, encaminham as duas garotas de volta ao mundo mágico que pensavam ter abandonado: as fronteiras entre o povoado e os contos de fada acabam por se dissolver, em certo momento, levando-as até a Escola do Bem e do Mal, agora dividida entre Escola dos Meninos e Escola das Meninas. O motivo da mudança: o beijo de Agatha e Sophie alterou a estrutura dos contos de fada – pois foi a primeira história de princesas e bruxas que não precisou de um príncipe para ter seu final feliz – o que levou princesas e rainhas de diversas histórias a reconhecerem que não necessitavam de príncipes ou reis, expulsando-os de seus reinos. Abandonados pelas florestas, estes homens logo se reuniram com um objetivo em comum: eliminar Sophie (que cumpria o papel de bruxa e vilã de sua história), para que Agatha, como princesa, terminasse seu conto de fadas ao lado do príncipe Tedros e restaurasse a ordem “natural” das coisas. A proposta partiu de ninguém menos que o próprio Tedros, que oferecera metade de sua herança pela cabeça de Sophie, tudo para obter o amor de Agatha de volta.

A Escola de Meninas agora ocupa o castelo do Bem, coordenada pela misteriosa Reitora Sader, enquanto os garotos sujos e abandonados ocupam o castelo do Mal. Em meio a todo o caos, Agatha e Sophie devem novamente tomar uma decisão que decidirá os rumos, não só das duas escolas, como também de todos os contos de fadas.



O enredo deste segundo livro se ampara num falso dilema: é preferível uma ditadura pseudo feminista de garotas que odeiam homens e desejam escraviza-los (após anos vivendo como criaturas submissas, esperando para serem salvas em suas próprias histórias), ou que tudo retorne ao padrão heteronormativo de antes (em que os rapazes vivem todas as aventuras enquanto as garotas apenas esperam seus príncipes)? Não existe meio-termo. Em diversas passagens, o livro nos leva a acreditar que a última opção é a mais sensata, tratando o final do primeiro livro como um equívoco que deve ser corrigido, e não uma oportunidade de repensar determinadas convenções. Até certo ponto, eu realmente acreditei que Soman trataria estes dois extremos como faces de uma mesma moeda: a necessidade de aprisionar a vida das pessoas em moldes e, inclusive, prepara-las em escolas independente de suas vontades – se o autor aborda a questão em algum momento, não é neste livro. Embora houvesse um comentário aqui, outro acolá, “Um Mundo sem Príncipes” padece do mesmo defeito do primeiro livro, e não consegue desenvolver suas críticas e provocações até o final.

Apesar de tudo, o livro tem muitos pontos fortes em relação a seu antecessor, principalmente quanto ao desenvolvimento das personagens. O autor continua a curva de desenvolvimento de Sophie como uma personagem complexa falível, e com sofrimentos bastante realistas – como o dilema entre sucumbir às suas tendências mais baixas e permanecer boa, pelo carinho à amiga.

“Sophie pensou em toda a esperança, toda energia, todo o tempo que ela dedicou aos seus sonhos de príncipe. A convicção de que um garoto deslumbrante de sangue nobre a levaria para seu castelo branco e felicidade eterna. Agatha a provocou impiedosamente por isso, antes que o Diretor da Escola as raptasse. ‘Como se esse deus musculoso pudesse ao menos entendê-la’, Agatha debochou. ‘Nós estaríamos bem melhor juntas’. Ela deu sua habitual fungada de porco para se assegurar de que soasse como uma piada. Mas Sophie sabia que ela estava falando honestamente. Agatha sempre achou que as duas eram o suficiente para um final feliz”. (pg. 90)

Agatha finalmente desenvolve mais camadas – e Soman parece ter encontrado um meio termo entre a garota gótica esquisita, apresentada no início do primeiro volume, e a heroína clássica que se tornou perto do final. Entretanto, a ideia de coloca-la completamente apaixonada por Tedros, cujas interações com a garota são bastante insignificantes perto de seu desenvolvimento com Sophie, e até contradizem seus próprios princípios, me incomodam.

“Sua mãe estaria preparando o almoço... alho e fígado, e o cheiro do caldeirão iria se misturar ao vento de cinzas, passando pelas janelas quebradas. Em sua cama, ela estaria se apressando para terminar o dever de casa de gramática, a ser entregue na lição da tarde. Encolhido num canto, Reaper rosnaria para ela, porém, um pouco menos que ontem. Enquanto ela tomasse o restinho do guisado, ela ouviria os gravetos quebrando, os saltos de vidro na varanda... ‘Vamos a pé para a escola?’, Sophie iria dizer. Elas desceriam a colina com seus casacos, um preto e um rosa, fazendo piadas sobre os meninos com cheiro de celeiro, da sala delas. ‘Deixe que eles tentem casar conosco’, Sophie diria, e ela daria uma risada, pois, houve um tempo que isso era verdade. Elas tinham uma à outra e nunca precisariam de mais”. (pg. 92)

Tedros, em si, teve bastante tempo na trama para desenvolver mais sua personalidade: entendemos melhor seu desejo de não cometer os mesmos erros do pai, abandonado pela esposa; sua pretensa paixão por Agatha, e os (muitos) equívocos que acaba por cometer ao longo da história por conta disso. Como Sophie, ele também é falível e bastante humano.



Mas tudo isso, a meu ver, me deixou com a ideia de que Agatha está inserida em relacionamentos abusivos, tanto por parte de Sophie, quanto de Tedros.

Sophie deliberadamente manipula Agatha, e faz com que a garota se sinta culpada em diversas passagens, para obter o que deseja; ela se aproveita da vontade da amiga de sustentar a amizade (e a confiança) das duas, e usa disso em diversos momentos; entretanto, a própria Sophie acaba reconhecendo estes comportamentos mais tarde – e percebe que, na realidade, é Agatha quem investe muito mais no relacionamento das duas. É interessante vê-la se arrepender de tudo isso e se submeter a certos sacrifícios para se provar digna do amor e do carinho de Agatha, antes que seja tarde demais.

Não vejo o mesmo por parte de Tedros. Embora reconheça seus erros e comportamentos predatórios em alguns poucos momentos da trama, o rapaz é rápido em arranjar uma justificativa para o que faz. Ele deseja Agatha como uma posse, o elemento necessário para alcançar seu “Felizes para sempre”, mas não reconhece isso (teimando em chamar de “amor” o sentimento que nutre pela jovem, embora me pareça algo egoísta e possessivo demais para tal). O autor realmente reconhece esses abusos e levanta estes questionamentos através de uma personagem muito importante. Como todas as provocações levantadas até agora, contudo, posso apenas esperar que sejam melhor desenvolvidas nos próximos livros.

O antagonista da história é excelente, e nos convence de sua capacidade de usurpar e alterar o que for necessário para alcançar seus próprios fins. Mas foi decepcionante me deparar com suas motivações, rasas demais para uma personagem com tanto potencial.

Neste segundo livro, o autor perdeu uma excelente oportunidade de questionar a fundo a hierarquia e os padrões que permeiam as relações de gênero, uma falha muito parecida com a do livro anterior. Embora pareça tecer alguns comentários, sua abordagem não deixa claro se (e quando) está reforçando os estereótipos de gênero, ou simplesmente fazendo uma sátira. A sensação que fica é a de que há algo faltando. O final, por sua vez, me pareceu bastante crível e coerente com o desenvolvimento das personagens até o momento, deixando aquela sensação agridoce de inocência perdida, e de que as coisas não serão como eram antes tão cedo.

Iniciei esta resenha questionando se, nesta segunda entrada da série “A Escola do Bem e do Mal”, Soman Chainani se manteve fiel à sua proposta inicial de subverter os contos de fadas. Tenho duas respostas possíveis. A primeira é que, como simples continuação do primeiro volume, “Um Mundo Sem Príncipes” não conseguiu se sustentar em termos de subversão – ao menos, não da mesma forma que o livro anterior. Como parte de um universo maior, contudo, os ganchos e as oportunidades deixadas por este segundo desfecho são muito promissores, e posso apenas esperar que o autor saiba usá-los a seu favor.

Quem sabe não tenhamos um “felizes para sempre” bastante inusitado, no fim das contas?


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Um Mundo Sem Príncipes (A World Without Princes)
Volume #2, Série A Escola do Bem e do Mal (The School for Good and Evil)
Autor: Soman Chainani
Editora: Gutenberg
Ano: 2015
Skoob: 4.2 Estrelas / Goodreads: 4 Estrelas
Compre Aqui: Amazon, Saraiva
3.5 Estrelas
Um Mundo Sem Príncipes - Nesta esperada continuação de A Escola do Bem e do Mal, as melhores amigas Sophie e Agatha estão de volta ao seu lar, em Gavaldon, para viver seu desejado final feliz, certas de que seus problemas terminaram. Mas a vida não é mais o conto de fadas que elas esperavam. Quando Agatha escolhe um fim diferente para sua história, ela acidentalmente reabre os portões da Escola do Bem e do Mal, e as meninas são levadas de volta para um mundo totalmente modificado. Agora, bruxas e princesas moram juntas na Escola para Meninas, na qual são inspiradas a viver uma vida sem príncipes. Tedros e os meninos estão acampados nas antigas Torres do Mal, onde os príncipes se aliaram aos vilões, e uma verdadeira guerra está se armando entre as duas escolas. O único jeito de Agatha e Sophie se salvarem é procurando restaurar a paz. Será que as amigas farão as coisas voltarem ao que eram antes? Sophie conseguirá ficar bem com Tedros nessa caçada? E o coração de Agatha, pertencerá a quem? O felizes para sempre nunca pareceu tão distante.
Autor: Soman Chainani Graduado em Harvard e escreveu uma tese sobre o motivo pelo qual os vilões são tão irresistíveis. Roteirista premiado, é mestre pela Columbia University na área de cinema e já trabalhou em mais de 150 festivais de cinema pelo mundo, ganhando diversos prêmios tanto pela direção quanto por roteiros, prêmios entre os mais cobiçados da área. Quando não está viajando, contando histórias ou em Nova York trabalhando como professor ele pode ser encontrado jogando tênis. Fazia mais de dez anos que não perdia um primeiro round, até começar a escrever

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