Resenha: Um Milhão de Finais Felizes - Vitor Martins

Segundo livro de Vitor Martins mostra a essência dos autores YA da nova geração, cheio de fôlego e sensibilidade para tocar em temas extremamente relevantes

agosto 03, 2018 - Postado Por: Francisco Neto
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Segundo livro de Vitor Martins mostra a essência dos autores YA da nova geração, cheio de fôlego e sensibilidade para tocar em temas extremamente relevantes




O embate entre a comunidade LGBTQ+ e os religiosos é histórico, provocando casos de agressão e morte de pessoas LGBTQ+. Apesar, de não ser um discurso único que gira ao redor desse embate, ele se torna sim um dos maiores conflitos que corroboram para o preconceito ainda se mantenha forte no seio da sociedade. Em 2017, por exemplo a parada LGBT de São Paulo decidiu colocar esse tema e evidência, mostrando a importância do respeito a todos independente de gênero e sexualidade.

Logo então se imagina que colocar esse tema nos centro de uma história trará muita dor sobre uma obra. Isso é verdade. Porém, em Um Milhão de Finais Felizes o autor Vitor Martins consegue mesclar essa parte mais sensível do mundo LGBTQ+, com muitas alegrias e momentos extremamente divertidos, cheio de referências a cultura Pop, deixando assim o seu recado de tolerância nesse embate cruel, e ao mesmo tempo uma mensagem de que nosso mundo pode ser mais feliz se nos focar naquilo que realmente importa.



Diferente da história de Quinze Dias, que tinha um relação bem intrínseca ao que eu vivi, Um Milhão de Finais Felizes, ou apenas UMFF, trata de algo que passou meio longe da minha realidade, porém que vi muitos de meus amigos passarem. É algo extremamente presente em nossa comunidade: Pessoas LGBTQ+ que sofrem uma dualidade em suas mentes, por serem de uma família religiosa que não consegue aceitar a sua condição homoafetiva.

Na obra de Vitor Martins, conhecemos Jonas, um jovem de 19 anos que ainda não entrou na faculdade e conseguiu um emprego em uma cafeteria no estilo Starbucks futurista (Empresários, olhem essa oportunidade na cara de vocês, hueheueh). O garoto ainda é meio perdido sobre o que quer no futuro, entretanto, ele anda com um caderninho, e nele escreve ideias para as suas próximas histórias, quem sabe não se torne um escritor?

A questão toda é que já é difícil decidi o futuro, quando se está emocionalmente estável, então imagine na montanha russa de sentimentos que Jonas vive. No seu emprego e com seus amigos, ele é uma pessoa divertida, alegre, cheia de vida. Porém, tudo isso muda quando ele chega em casa e dá de cara com o seu pai. Um verdadeiro embuste. O cara passa o tempo todo criticando Jonas, não dá atenção a sua esposa, e a faz de empregada, numa relação extremamente tóxica.

E não só isso, Jonas se sente como se não pertencesse a esse lugar, ele é gay, porém passou a vida toda indo aos cultos religiosos, em um lugar onde a homoafetividade é um problema, onde se acredita que pessoas LGBTQ+ irão para o inferno. Então sua mente não lida bem com essa dualidade que sua vida lhe proporcionou. E nesse contexto, sua mãe que é uma pessoa extremamente religiosa, sempre tentar leva-o a igreja.

Nesse processo, Jonas conhece Arthur, o ruivo barbudinho, cheio de referências a Disney dos anos 2000 (Não é adolescente VM, hueheuhe) e acaba achando-o um dos caras mais lindos do mundo (pode ser que ele esteja certo? Sim, hueheue). A conexão foi tão forte, que apesar da possibilidade dele nunca mais encontrar Arthur, ele tem uma ideia para uma história que ele logo começa a desenvolver: Piratas Gays.



UMA HISTÓRIA SOBRE AMIZADES: Vitor Martins consegue fazer personagens tão marcantes que faz a gente querer se importar com cada um deles de maneira única. São amigos que não estão ali somente para ajudar o protagonista a crescer. Cada um tem a sua história, seus próprios dramas e que nos ajudam a crescer como pessoa, a partir dessas experiências.

Isadora está na faculdade, e essa mudança do Ensino Médio para "a vida adulta" foi muito marcante para ela. É muito difícil ela conciliar amizades, com estagio, estudos e isso a afastou do seu grupo de amigos, algo que acontece bastante na vida real. Conexões fortes que são quebradas sem nenhuma explicação aparente. E como costurar essa amizade de volta?

Karina é uma personagem extremamente amável (diferente de fofa tá), ela trabalha com Jonas na cafeteria e está muito frustada em não conseguir nenhum emprego na área de teatro em que ela se formou. Muitas dessas portas são fechadas por ela ser gorda, o que eu a entendo totalmente. Durante muito tempo eu trabalhei com eventos, e era muito difícil conseguir alguma coisa, e quando finalmente dava certo, eu me esforçava muito mais que os outros "para justificar" eu continuar no trabalho. (Na verdade, queria uma história de Karina, assim como Becky Albertali fez uma da Leah).

Danilo é um jovem extremamente de bem com a vida, é daquelas pessoas que a sua aura chega primeiro e já emana felicidade. Toda vez que ele entrava na história, um sorriso aparecia em meu rosto (hueheuehe). Claro, é um jovem que também tem uma subtrama envolvente e que foi contada nas horas certas para que Jonas também aprendesse, Vitor Martins costurou tão bem essa história.

LGBTQ+ Vs RELIGIÃO: Eu acredito que nem deveria existir um versus entre essas palavras, mas infelizmente a vida real não é assim. Pessoas são levadas para "cura gay" que não existe, a todo tempo existem bombardeios de religiosos dizendo que LGBTQ+ vão para o inferno, que não podem ser felizes. Pessoas apanham na rua, sofrem bullying na escola, são expulsos de casa. E sim, a Homoafetividade mata, porque muitos de nós são assassinados por fundamentalistas a cada 8 minutos no Brasil.

É uma realidade que Vitor Martins mostra de duas formas. Uma no lar em que Jonas vive, com o pai embuste e a mãe que não consegue entender o seu filho. Alias, é muito interessante ver esses dois pontos de vista, uma pessoa que faz mal por ignorância e outra por ódio no coração. Dois problemas, duas soluções diferentes.

O outro embate é mental. Jonas e sua cabeça, seus gatilhos, sua dualidade de uma vida cercada pela religião e outra por algo que não é possível mudar. E deveria estar tudo bem, mas não está, porque a pressão externa força o nosso interior, a nossa felicidade. E as vezes é necessário ajuda profissional para superar todas essas questões. Mas caramba, toda vez que Jonas caía em pensamentos invasivos, eu queria chegar perto dele e dar um abraço forte.

CULTURA POP E DIVERSÃO: Você deve imaginar que o livro é recheado de dramas não é verdade? Sim, você está certo. Porém, Vitor Martins consegue balancear muito bem os momentos dramáticos com alegrias e histórias extremamente divertidas, sem contar as inúmeras referências a cultura pop, algo tipico de VM. Ele fez isso em Quinze Dias e muito mais em UMFF. Liga da Justiça, Teen Wolf, Stephen King, Jhonny Depp, são somente algumas das dezenas que vão te fazer rir bastante.

SÃO PAULO MULTICULTURAL: Quem me conhece sabe bastante do meu apreço por essa cidade e seu multiculturalismo. WOW, cada vez que eu vou em São Paulo sempre descubro algo novo, e ao ver tudo isso escrito em um livro é como se eu tivesse voltando a mais uma viagem a essa capital com um grupo de amigos superdivertidos. (Alias, VM você me fez ter uma vontade imensa de ir em SP na época da PARADA LGBTQ+, se FLIPOP for no mesmo período desse ano, vai ser um casamento perfeito essa viagem, hueheue). Enfim, essa é uma grande vantagem de histórias que se passam no Brasil, a possibilidade de explorar nossas paisagens. Não que andar na Times Square não seja divertido, mas acho que se identificar com o lugar é muito relevante em uma história. Traz uma experiência bem diferente a leitura.

ps. Fãs de Quinze dias em uma surpresinha pra vocês em UMFF !!!

Finalizar a segunda obra de Vitor Martins é sim entender a qualidade de novos autores de YA que estão surgindo em nosso país. Que consegue conversar com jovens, trazendo temas extremamente relevantes e tocantes para o centro de reflexões que ajudam a criar empatia, mostrar aqueles que possuem dificuldades, que eles não estão sós e que dias ruins vão passar. E que a felicidade é possível, para todos, independente de gênero, sexualidade, cor, ou corpo.



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Um Milhão de Finais Felizes
Autor: Vitor Martins
Editora: Globo Alt (Globo Livros)
Ano: 2018
Skoob: 4,9 Estrelas /
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05 Estrelas
Jonas não sabe muito bem o que fazer da vida. Entre suas leituras e ideias para livros anotadas em um caderninho de bolso, ele precisa dar conta de seus turnos no Rocket Café e ainda lidar com o conservadorismo de seus pais. Sua mãe alimenta a esperança de que ele volte a frequentar a igreja, e seu pai não faz muito por ele além de trazer problemas. Mas é quando conhece Arthur, um belo garoto de barba ruiva, que Jonas passa a questionar por quanto tempo conseguirá viver sob as expectativas de seus pais, fingindo ser uma pessoa diferente de quem é de verdade. Buscando conforto em seus amigos (e na sua história sobre dois piratas bonitões que se parecem muito com ele e Arthur), Jonas entenderá o verdadeiro significado de família e amizade, e descobrirá o poder de uma boa história. .
Autor: Vitor Martins é apaixonado por livros, filmes, séries e pizza. Ele mora em São Paulo com seu namorado e dois gatos insubordinados. VM é designer gráfico, ilustrador, e autor também de Quinze Dias.

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