Resenha: Jardim Para Borboletas Mórbidas - Ed Saraiva Jr

agosto 07, 2018 - Postado Por: Fábio Andrade
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Um história fantástica que tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial com toques de terror, mostrando a qualidade literária de autores paraenses




Um dos grandes mestres do horror uma vez disse:

“A emoção mais antiga e intensa da humanidade é o medo, e o mais antigo dos medos é o medo do desconhecido.”

Com essa afirmação lhe faço a seguinte pergunta: Como provar para o seu corpo arquejado em medo, que todo aquele fantástico horrendo criado pelo autor não é real?

Preciso confessar que fantasia sempre foi um dos gêneros que menos gostei por diversos motivos que não vem ao caso comentar agora. Quando recebi o Jardim para Borboletas Mórbidas tive uma ligeira impressão que seria apenas mais uma história fantástica cheia dos velhos clichês, porém levei um tapa na cara ao me fascinar com um livro que passa bem longe disso.

“O menino abriu as pálpebras de relance e não viu mais as crianças, entretanto, avistou uma mensagem no chão, escrita com sangue, que dizia: “ELA ESTÁ CHEGANDO (...)” pag. 20.

Podemos acompanhar a história sofrida do pequeno Nicolae que precisa crescer o mais rápido possível para lidar com a ausência da mãe e a solidão prematura, buscando em suas companhias fantásticas, meios para contornar essas situações e trazendo a normalidade para sua vida. Os personagens aqui criados formam – no geral – uma composição magnifica para toda a obra, apresentado aspectos e personalidades distintas que podem render horas de reflexões filosóficas. Preciso destacar um personagem que me chamou muita atenção, Anahí, a fada madrinha do nosso protagonista. Os arquétipos utilizados para a sua construção mesclam muito bem o que Ed quis nos passar com toda a reviravolta da história; na maior parte do livro ela atua como mentora e fiel amiga de Nicolae e em outros momentos mais tensos, ela passa a ser uma persona egoísta e fraca, isso mostra toda a sensatez e controle que o autor tem sobre sua obra.



Toda a pesquisa utilizada para a construção do enredo culminou numa ótima ambientação, utilizando a atmosfera de medo pairada no mundo durante o período da segunda guerra mundial, o livro soube resgatar todo esse temor tanto pelas partes criveis, quanto as das fantásticas, onde até as criaturas temem uma força maligna ganhando força em todo o globo. Assim como na capa, o azul e o cinza são cores predominantes na narrativa trazendo a falta de esperança como camada principal da história, construindo um ótimo background para Nicolae nos momentos em que ele se vê completamente derrotado.

“Em 23 de agosto daquele ano, o ditador Ion Antonescu foi preso quando o Rei Miguel I se juntou aos políticos pró-aliados. Mesma data em que Nicolae completara sete anos de idade e a Romênia voltara a sonhar” pag. 34.

Um dos pontos mais fortes do livro, sem dúvida alguma, se dá pela escrita bastante ritmada de Ed. Os parágrafos muito bem trabalhos mostram a inteligência que o autor teve em ditar o ritmo da história, no qual em momentos de introspeção, a presença de frases mais longas nos colocam perfeitamente na pele do protagonista. Toda a fantasia e o misticismo são apresentados com um véu de horror por trás da trama principal tornando a leitura muito mais atraente para os fãs dos dois gêneros. Podemos ver o peso da mão do autor em diversas cenas onde se precisa nivelar os níveis do horror fantástico, gore e sensibilidade.

Vivemos em um cenário muito feliz para a fantasia e o horror, tendo grandes pilares nacionais dos gêneros como Eduardo Sporh, Felipe Castilho, Karen Soarele, André Vianco, Soraya Abuchaim, entre outros. Isso proporciona uma grande produção literária aproveitando este ciclo editorial, causando assim, uma certa dificuldade de se destacar – em meio a enxurrada de novos textos – nesse momento, porém, a recém fundada Editora Folheando teve como uma de suas primeiras publicações o Jardim para Borboletas Mórbidas, que sem dúvida foge à regra e se torna uma obra que merece todo o reconhecimento e carinho por parte dos leitores e críticos. Além de trazer uma capa linda, sua diagramação não deixa nada a desejar fazendo com que a experiência da leitura desde livro seja cada vez melhor.



“Os ossos da mulher começaram a estalar, os seus braços ficaram atrofiados e a postura envergada. A velha corcunda se virou e revelou a sua face assustadora. Os cabelos eram brancos e emaranhados, pele cinzenta, olho esquerdo vazado e corpo esquelético. ” Pag. 107.

Fica mais do que recomendada essa incrível obra de um autor Belenense de destaque, sem dúvidas, foi uma das melhores obras de terror e fantasia que já tive a oportunidade de ler. Ed consegue nos prender a cada palavra posta neste livro, abrindo e fechando nossa mente com cenas que lhe perturbarão noites a dentro. Jardim para borboletas mórbidas se torna uma obra indispensável para os amantes do horror. É um privilégio imenso saber que esse tesouro é nosso.


Lançamento do Livro Jardim para Borboletas Mórbidas, clique na foto acima para saber mais sobre o evento.
Jardim Para Borboletas Mórbidas
Autor: Ed Saraiva Jr
Editora: Folheando
Ano: 2018
Skoob: 5.0 Estrelas
05 Estrelas
No período pós 2ª Guerra Mundial, em uma isolada fazenda na Romênia, vive Nicolae, um garoto muito inteligente que descobre um universo mágico e sombrio ao redor de sua casa. Quando sua mãe, Aurora Packwood, decide fazer uma viagem, deixando o garoto cuidando dos afazeres da fazenda, coisas assustadoras acontecem. Durante a ausência de Aurora, Nicolae começa a receber visitas de estranhos e acaba se tornando presa de uma criatura temida há séculos. Kaverah ressurgiu do mundo dos pesadelos para buscar suas crianças solitárias.
Autor: Ed Saraiva Jr escritor do gênero terror e do subgênero dark fantasy. No período da faculdade de jornalismo, o autor escreveu o seu primeiro conto de suspense e terror “Epidemia Walteriana” em 2015, no site de literatura Recanto das Letras para o Desafio do Terror Rascunhos Literários (DTRL). Sua obra de maior destaque o conto de dark fantasy “Jardim para borboletas mórbidas” (2017), participou da 28º Edição do Desafio do Terror Rascunhos Literários, sagrando-se vencedor na categoria “Melhor Título” e conquistando o Terceiro Lugar Geral no certame, onde recebeu incentivos dos leitores e outros autores para tornar a obra em livro no ano seguinte.

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