Resenha: Hibisco Roxo - Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda consegue construir um verdadeiro manifesto em forma de romance. E você deveria parar tudo o que está fazendo para ler.

agosto 23, 2018 - Postado Por: Rafael Lutty
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Chimamanda consegue construir um verdadeiro manifesto em forma de romance. E você deveria parar tudo o que está fazendo para ler.




Algumas vezes as coisas não são tão fáceis de explicar. Não soube exatamente o que esperar da leitura de “Hibisco Roxo” da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, o que eu posso afirmar é que soube no mesmo instante em que comecei a ler, que estava conhecendo um dos melhores livros que eu leria na vida. E eu estava certo. Hibisco Roxo se tornou um dos meus livros favoritos e a autora alçou para a lista de favoritas na minha estante.

“Hibisco Roxo” é narrado por Kambili, filha de Eugene, um capitalista nigeriano, católico, que “oscila entre o altruísmo e a tirania religiosa”, como diz a sinopse do livro. Chimamanda nos leva para dentro da casa de Kambili, onde a menina mora com seus pais e seu irmão mais velho Jaja. E pelos olhos da tímida menina, que desconhece o próprio sorriso, o leitor é conduzido à uma história que evoca uma série de sensações e reflexões.

Eugene, ou Papa, como é chamado por Kambili, é dono de fábricas de alimentos e de um jornal progressista, de oposição ao governo. Foi educado por missionários católicos e tornou-se um fundamentalista cristão que mantém sua família sob um domínio doentio e totalitário, impedindo-os de sequer pensarem por si mesmos. Ele rejeita toda e qualquer ligação com práticas tradicionalistas, que ele trata como paganismo, afastando-se inclusive do próprio pai. Eugene recusa-se, inclusive, a falar em igbo, sua língua materna, preferindo o inglês.

“Papa quase nunca falava em igbo e, embora Jaja e eu usássemos a língua com Mama quando estávamos em casa, ele não gostava que o fizéssemos em público. Precisávamos ser civilizados em público, ele nos dizia; precisávamos falar inglês.”

Embora cruel com sua família, Eugene ajudava toda a comunidade, pagava a mensalidade da escola de várias crianças, contribuía generosamente para a igreja e recebia a admiração de todos, principalmente de Kambili. A garota vê o pai como algo próximo de Deus, um ser incapaz de pecar. Eu gosto do modo como Chimamanda constrói Eugene, nos faz ver como a religiosidade e o altruísmo podem ser utilizados apenas como disfarce para ocultar uma personalidade violenta e cruel.

Beatrice, a Mama, é submissa ao marido, incapaz de contrariá-lo, de voz sempre baixa, como se cada gesto seu fosse calculado para não aborrecer o marido. Jaja, irmão mais velho de Kambili, embora não se caracterize exatamente como um “adorador” do pai, assim como toda a família, submete-se ao regime violento que Eugene impõe sobre a casa. A história tem seu rumo traçado quando Ifeoma, irmã de Eugene, insiste para que o irmão deixe os filhos passarem alguns dias em sua casa, na cidade de Nsukka, onde fica a universidade da Nigéria.



Ifeoma é professora universitária, mãe de três filhos e viúva. Assim como o irmão, foi educada por missionários católicos ingleses, mas sabe lidar e respeitar as práticas tradicionalistas das religiões africanas. Tem orgulho de ver seus filhos desenvolvendo senso crítico e se posicionando politicamente a respeito de diversos assuntos. A realidade no pequeno apartamento de Ifeoma, que sofre com a constante falta de recursos, os mesmos que afetam a universidade como a constante falta de água e eletricidade, é completamente diferente da realidade em Enugu, cidade onde vive a família de Kambili.

A casa de tia Ifeoma é sempre cheia de risos e tagarelices, todos têm suas opiniões bem definidas a respeitos de diversos assuntos. Enquanto na rica e abastada vida da família de Kambili, as opiniões e personalidades de todos é controlada e ditada por Eugene. E é este choque entre duas realidades tão distintas que transforma completamente a vida de Jaja e Kambili.

O maior destaque em Hibisco Roxo são os personagens, construídos de um modo tão humano, que é difícil terminar de ler, por não querer se afastar deles. Outro ponto a ser destacado, entre os vários que merecem, é que a autora não repete os mesmos estereótipos que temos a respeito da Nigeria; só o fato de termos uma história em que a protagonista é de uma família rica e abastada, nos mostra uma realidade diferente da que estamos acostumados a ter a respeito do continente africano como um todo.

Em “Hibisco Roxo”, Chimamanda não desperdiça absolutamente nada, nenhum diálogo é vago, nenhuma cena está ali apenas para “encher linguiça”, não. É tudo muito bem calculado e construído para que o leitor receba um verdadeiro soco no estômago a cada virar de página. E é escrito de modo tão crível que por muitas vezes não parece se tratar de uma história de ficção.

Existem muitas outras coisas a serem ditas sobre este livro incrível, mas eu acredito que seja válida a experiência de cada um, por isso deixo aqui algumas das minhas impressões a respeito desta leitura, e a minha enfática indicação. Eu pretendo ler todos os livros da autora que já foram publicados e em breve teremos mais Chimamanda aqui pelo Sooda.


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Hibisco Roxo (Purple Hibiscus)
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2011
Skoob: 4.6 Estrelas / Goodreads: 4.1 Estrelas
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05 Estrelas
Protagonista e narradora de Hibisco roxo, a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O Pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país. Durante uma temporada na casa de sua tia, Kambili acaba se apaixonando por um padre que é obrigado a deixar a Nigéria, por falta de segurança e de perspectiva de futuro. ENquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente. “Uma história sensível e delicada sobre uma jovem exposta à intolerância religiosa e ao lado obscuro da sociedade nigeriana.” - J.M. COetzee
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, na Nigéria, em 1977. Sua obra foi traduzida para mais de trinta línguas e apareceu em inúmeros periódicos, como as revistas New yorker e Granta. Além de Meio sol amarelo (2008) – vencedor do Orange Prize e adaptado ao cinema em 2013 –, é autora também dos romances Hibisco Roxo (2011) e Americanah (2014) – best-seller vencedor do National Book Award – e da coleção de contos No Seu Pescoço (2017), bem como dos ensaios Sejamos todos feministas (2015) e Para educar crianças feministas (2017), todos publicados no Brasil pela Companhia das Letras.

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