Resenha: A Assombração da Casa da Colina - Shirley Jackson

A casa que ensinou Amityville a assombrar seus moradores

agosto 14, 2018 - Postado Por: Fábio Andrade
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A casa que ensinou Amityville a assombrar seus moradores




Existe uma máxima em meio ao mundo do terror onde: A casa que for palco – sem intervenção – de uma morte violenta, está fadada a compartilhar os tormentos dessa alma inquieta. Podemos ver ao longo dos anos esse tipo de fenômeno transformando simples casas em verdadeiros paraísos macabros do antro sobrenatural. Partindo dessa premissa, Shirley Jackson nos guia por uma temporada quase infinita de medos na Casa da Colina.

Antes de ler a obra procurei saber, a fundo, quem era a autora. Já havia ouvido falar de seu nome, porém nunca tinha tido nenhum contato com sua obra – algo que me arrependo amargamente. Apenas para fazer um parâmetro de apresentação, Jackson foi uma das autoras mais respeitadas no século XX, estudada pela academia e as bases literárias nos Estados Unidos. Shirley foi uma mulher simples, que teve seu estilo de vida mudado após o casamento. Durante toda a sua vida a autora escreveu seis romances, dois livros de memórias e diversos contos, porém teve a sua ascensão como escritora quando publicou o conto “The Lottery” que retratava todo o submundo sinistro de uma pequena cidade nos EUA, causando um alvoroço entre o público e os críticos que dividiram opiniões fervorosas a respeito da obra.

Confira a resenha de "Sempre Vivemos No Castelo" outro titulo de Shirley Jackson, que inclusive irá ganhar uma versão para os cinemas.

Em 1959, Jackson publicou o seu romance “The Haunting of Hill House” (A assombração da casa da colina) se envolvendo mais uma vez no horror obscuro da mente humana. A obra foi um sucesso de vendas e até hoje é extremamente reconhecida e respeitada entre a academia e leitores.



Antes de comentar um pouco sobre a trama preciso ressaltar algumas coisas que de cara me chamaram a atenção. A capa, por ser minimalista e com poucas cores traz o tom de simplicidade que perpetua durante toda a história e o segundo ponto é o primeiro parágrafo. Na edição da SUMA podemos ver todo o carinho que Shirley e a equipe da editora Brasileira tiveram ao preparar esse livro, deixando uma página exclusiva para o primeiro parágrafo ditando o tom de toda a história. Sem dúvidas é uma aula de abertura de livro.

“Nenhum organismo vivo pode existir muito tempo com sanidade sob condições de realidade absoluta; até cotovias e gafanhotos, supõem alguns, sonham. A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta. Lá dentro, paredes continuavam de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas; o silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho. ” Pag. 7.

E com essa bela abertura somos apresentados a essa história magnifica. O estudioso doutor Montague – cético à sua maneira – resolve investigar casos paranormais ao redor do mundo na tentativa de explica-los aos olhos da ciência, mediante a isso, decide convidar uma série de pessoas, sensíveis, para uma temporada dentro da casa mais assombrada do país. Eleanor, Theodora, Luke e o doutor formam o time que presenciarão fenômenos nada normais dentro da mansão, testando ao máximo seus limites e duvidando a cada momento até onde a sanidade do ser humano é capaz de suportar tais eventos.



É importante destacar toda a atenção que Jackson emprega em sua escrita, ditando o ritmo de forma muito bem pensada e explorando muito bem técnicas já conhecidas para construções de capítulos. Outro ponto de suma importância é a capa de ficção cientifica apresentada pela autora como justificativa para os fenômenos presentes na casa; utilizando de alguns conhecimentos em arquitetura e desenho, o doutor Montague explica que a casa fora projetada de forma singular, onde as paredes e seus ângulos são totalmente assimétricos causando uma perturbação no senso de padronização do nosso cérebro justificando possíveis descontroles emocionais e sensoriais.

Eleanor é a personagem principal da história, onde a partir dela todas as relações são montadas e vistas através de seus olhos; e é ela a protagonista do clímax da história. Os personagens se constroem muito mais pelas falas do que por suas atitudes, porém podemos perceber toda uma personalidade atemporal de Theodora em algumas atitudes mesquinhas egoístas. Luke retrata, por si só, a representação da nobreza na qual Jackson criticava com bastante ímpeto, fazendo com que toda empatia causada pelo personagem não passe de um breve interesse em bens materiais. O espectro de personalidades apresentados no livro constrói uma equipe bastante eclética para a trama, na qual fornecerem ritmo e intrigas bastante peculiares para a história, sem precisar apelar para núcleos envolvidos em romance, por mais que o fantasma do amor paire pelos personagens.

“A própria Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra as colinas, encerrando as trevas em seu interior; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse assim por mais oitenta. Lá dentro, as paredes continuavam de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas; o silencio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho” pag. 235.

A SUMA trouxe a obra numa edição muito bela, com capa dura, uma diagramação inovadora que coube muito bem para a proposta do livro, porém é perceptível que tradução e a preparação do texto foi uma das tarefas mais difíceis para a editora. O texto original, além de ser em inglês, utilizava toda uma métrica e ortografia americana do século no qual foi escrita que diferente bastante do que utilizamos aqui no brasil. A editora tentou manter viva essa postura da Shirley em não utilizar vírgulas para completar pensamentos em sentenças, algo que é padronizado no nosso idioma causando assim um pequeno desconforto em vários momentos do livro.



Não há como negar a importância que a obra teve para a literatura, composta pela autora que influenciou monstros consagrados como Neil Gaiman, Stephen King, Donna Tartt, Richard Matheson, conseguiu transformar uma obra de gênero – que até hoje é vista como menor – em leituras obrigatórias para o sistema educacional na América do Norte. Seja você escritor ou leitor, essa obra precisa ser lida o mais rápido possível.


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A Assombração da Casa da Colina (The Haunting of Hill House)
Autora: Shirley Jackson
Editora: Suma (Editora Companhia Das Letras)
Ano: 2018
Skoob: 3.5 Estrelas / Goodreads: 3.8 Estrelas
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04 Estrelas
Considerada uma das melhores histórias de terror do século XX, a A Assombração da Casa da Colina promete calafrios aos seus leitores. Vista por mestres como Stephen King e Neil Gaiman como a rainha do terror, Shirley Jackson entrega um livro perturbador sobre a relação entre a loucura e o sobrenatural. Sozinha no mundo, Eleanor fica encantada ao receber uma carta do dr. Montague convidando-a para passar um tempo na Casa da Colina, um local conhecido por suas manifestações fantasmagóricas. O mesmo convite é feito a Theodora, uma alma artística e “sensitiva”, e a Luke, o herdeiro da mansão. Mas o que começa como uma exploração bem-humorada de um mito inocente se transforma em uma viagem para os piores pesadelos de seus moradores. Com o tempo, fica cada vez mais claro que a vida, e a sanidade, de todos está em risco.
Autora: Shirley Jackson nasceu em San Francisco, Califórnia, em 1916, e faleceu em 1965. Uma das principais autoras americanas do século XX, influenciou escritores como Stephen King, Donna Tartt, Neil Gaiman e Richard Matherson. Sua obra é leitura obrigatória em diversas escolas dos Estados Unidos, e seu trabalho é aclamado por público e crítica.

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