Resenha: O Diário de Myriam Rawick - Myriam Rawick

O livro é um relato verdadeiro e profundo de uma jovem sobrevivente da Guerra da Síria

julho 03, 2018 - Postado Por: Redação SOODA
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O livro é um relato verdadeiro e profundo de uma jovem sobrevivente da Guerra da Síria




Não há um dia que se acorde, e não seja visto mais um capitulo dessa sangrenta história: A Guerra da Síria. São mais de 350 mil mortos e 12 milhões de refugiados. Hoje, boa parte do país está destruído. E tudo isso porque?

Inicialmente a Guerra da Síria iniciou-se com um levante ao governo do ditador Bashar al-Assad. Porém, com o tempo os conflitos foram ganhando novas páginas com a chegada de forças do exterior. Irã, Israel, Turquia, Rússia, França, Estados Unidos, entre outros. Países que defendiam seus interesses, acabaram colaborando incessantemente para que a guerra se perpetuasse por anos a fim. Hoje já são 7 anos de Guerra Civil, que não tem perspectiva de terminar. Porém, como fica o seus povos com tantos conflitos? Como essa população tenta viver melhor, nesse clima de tensão? Entenda a Guerra da Síria.

O jornalista francês Phillppe Lobjois pensando nisso, resolveu ir para Alepo, um dos principais locais de conflitos da Guerra da Síria, para procurar histórias, que valessem a pena serem contadas. E encontrou uma jovem garotinha que desde os 6 anos de idade escrevia em seu diário, o seu olhar sobre o horror que estava acontecendo na sua frente, no seu dia-a-dia. Essa história precisava ganhar o mundo, foi assim que nasceu "O Diário de Myriam", livro publicado pela Editora Darkside Books.



Considerado por muitos como o "Diário de Anne Frank" dos dias atuais, o livro traz a trajetória de Myriam Rawick, moradora do bairro Jabal Sayid, local eminentemente habitados por descendentes de armênios que migraram para a Síria, durante o massacre desse povo pelos turcos no período que se inicia em 1915 e segue durante a primeira Grande Guerra Mundial. Lá a jovem tinha uma vida tranquila com seus pais e irmã, até que o exercito dos rebeldes começou a tomar conta da cidade de Alepo. O horror se iniciava, e perduraria por pelo menos 4 anos, tempo que o governo do Bashar al-Assad levou com o apoio da Rússia, para recuperar o território da cidade.

A história começa com o Prólogo do jornalista Phillipe Lobjois que conta como conheceu a jovem Síria. Na verdade, a busca dele em Alepo começou pelos hospitais, e logo ele encontrou a SOS Cristãos do Oriente que trabalha no apoio de famílias que estão sofrendo com a guerra. Por causa dessa comunidade Phillipe conheceu um padre que indicou a família de Myriam como um contato, mas especialmente a sua mãe, que é bastante ativa nesse apoio a comunidade cristã. Assim, o jornalista conheceu a jovem tímida que não gostava de falar, mas tinha muitos escritos que o fascinou. Era uma história que merecia ser contada ao mundo. Então, ele deu algumas orientação a Myriam durante alguns meses, e ela conseguiu finalizar a sua história de dor e sofrimento, mas ao mesmo tempo de esperança de um futuro melhor.

E é exatamente isso que encontramos nos escritos de Myriam, uma linguagem simples e dolorosa, que relata os vários momentos de horror. O quanto ela via corpos e sangue espalhados pela cidade de Alepo, prédios destruídos, amizades que se distanciaram, um terror real que dói ao ler. Cada palavra que descreve uma cena triste que Myriam olhava é um tiro em nossa alma, ao perceber que a inocência de uma criança estava sendo tirada a cada momento de sua infância. E pior as palavras se tornam, quando percebemos que milhares de crianças tiveram quase os mesmos sentimentos da jovem. Isso, quando elas ainda estavam vivas.

No inicio, a Myriam escrevia bem mais, talvez por ainda não entender exatamente o contexto do que vinha acontecendo, ou ainda porque o impacto da tomada do território de Alepo não tinha sido forte o suficiente no primeiro ano. Porém, conforme os dias vão se passando, Myriam tem cada vez menos disposição para descrever o que acontecia ao seu redor. É perceptível que sua estrutura psicológica vinha sendo afetada ao longo dos quatro anos. A cada morte de um parente, fuga de tiroteios e fogos cruzados e até mesmo, a possibilidade de não ir embora para a escola, tudo isso influenciava na sua vida.



A GUERRA GANHA NOVOS CONTORNOS: Nós ocidentais, estamos acostumados com a perspectiva norte-americana da Guerra da Síria, até porque a maioria dos canais de televisão reproduzem o que as agências de noticias dos Estados Unidos disponibilizam. Porém, nessa guerra os estadunidenses que começaram com um plano, acabaram se deslocando para o apoio aos Curdos (etnia que após o fim do Império Otomano, ficaram sem território). E assim deixam os Russos entrarem no jogo, como apoio ao ditador sírio. E essas tensões que acabaram atingindo uma ordem mundial constroem diversas narrativas, porém somente uma delas chega com força por aqui.

Interessante, que esses dias, eu estava entrevistando um libanês aqui em Belém do Pará, e ao conversarmos sobre esse tema, começou vir à tona essa reflexão sobre como o nosso pensamento tem se tornado unidirecional sobre um tema que é extremamente plural. E de certa forma, o Diário de Myriam coloca-nos em uma perspectiva mais interna desse jogo, que deixou há muito tempo de ser religioso. Várias situações que Myriam relata nos seus escritos podem ser facilmente associadas as mudanças politicas no país. A chegada dos curdos, o ódio aos cristãos, e uma parte do islamistas, o bombardeio russo. Enfim, todas essas situações estão presentes no texto, mesmo que Myriam não compreendesse totalmente o que estava acontecendo, porém, sabia que aquilo era o que impactava o seu sofrimento em Alepo.

Ao mesmo tempo que a guerra acontecia, e existiam os sofrimentos envolvidos no processo. É possível ver a esperança nos relatos de Myriam. Em muitos momentos a jovem ressaltava os sopros de felicidade que ocorriam. Seja por um simples almoço que era um pouco melhor que o normal em período de guerra, ou então as várias vezes que a luz retornava na casa onde vivia. Essa é uma das partes mais emocionantes de se conhecer sobre a guerra. Ao mesmo tempo que existe o ódio e a dor, o amor está lá, pronto para ser emanado e a solidariedade humana desabrochar.



EDIÇÃO BRASILEIRA: A edição lançada no Brasil é uma das primeiras a sair depois da versão árabe e francesa. E aqui a edição ganhou um reforço de 200 jovens que pediam para que alguma editora brasileira lançasse a obra em português depois de conhecerem a história de Myriam. Coincidentemente, a Editora Darkside Books já estava em negociação dos direitos da obra, que foi lançada no dia 28/06 com a presença do jornalista francês orientador e colaborador do livro escrito por Myriam.

E a edição está impecável. A capa apesar de está em brochura, o que não é o padrão da Darkside Books, não deixa nada a desejar com os outros lançamentos da editora, sem contar que ela diz muito sobre o que a história pretende contar a seus leitores. Talvez a escolha de capa em brochura tenha haver com a possibilidade de baratear a obra e assim mais pessoas possam ter acesso a ela. O interior da obra, está no mesmo padrão que conhecemos da Darkside, como um acabamento impecável, e ilustração e diagramação dignas do que a obra merece. Unido a isso, também na obra é possível ver as imagens do famoso fotografo Yan Boechat, que ilustram muito bem a dores de um país que sofre a 7 anos com essa guerra.

Os conflitos da Síria ainda estão longe de se encerrar, e Myriam ainda vive sobre tensão em Alepo, sua cidade que ela não deixa por nada. Porém, sua história não está mais presentes em sua memória, está chegando em todo o mundo. O olhar de uma criança sobre as dores de uma guerra, trazendo esperanças de dias melhores.

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O Diário de Myriam Rawick (Le Journal de Myriam)
Autores: Myriam Rawick, Phillipe Lobjouis
Editora: Darkside Books
Ano: 2018
Skoob: 4,8 Estrelas / Goodreads: 3.6 Estrelas
Compre Aqui: Amazon
05 Estrelas
A Guerra da Síria vista pelos olhos de uma menina De um lado, uma menina judia que passou anos escondida no Anexo Secreto tentando sobreviver à guerra de Hitler. De outro, uma garota síria que sonha ser astrônoma e vê seu mundo girar após a eclosão de um conflito que ela nem mesmo compreende. Mesmo separadas por mais de setenta anos, Anne Frank e Myriam Rawick têm um elo comum: ambas são símbolos de esperança e resistência contra os horrores de um país em guerra e acreditam no poder das palavras. O Diário de Anne Frank emocionou leitores de todos os cantos do mundo, e agora é hora de conhecer o Diário de Myriam, mais recente lançamento da linha Crânio da DarkSide Books. “Meu nome é Myriam, eu tenho treze anos. Cresci em Jabal Saydé, o bairro de Alepo onde nasci. Um bairro que não existe mais.” o Diário de Myriam é um registro comovente e verdadeiro sobre a Guerra Civil Síria. Escrito em colaboração com o jornalista francês Philippe Lobjois, que trabalhou ao lado de Myriam para enriquecer as memórias que ela coletou em seu diário, o livro descortina o cotidiano de uma comunidade de minoria cristã que sofre com o conflito através dos olhos de uma menina. Assim como acompanhamos a Segunda Guerra Mundial pelos olhos da pequena Ada em a Guerra que Salvou a Minha Vida e a Guerra que me Ensinou a Viver, o Diário de Myriam apresenta a perspectiva de uma menina que teve sua infância roubada ao crescer rodeada pelo sofrimento provocado pela Guerra da Síria, iniciada em 2011. Myriam começou a registrar seu cotidiano após sugestão da mãe, que propôs que ela contasse tudo aquilo que viveu para, um dia, poder se lembrar de tudo o que aconteceu. Escrito entre novembro de 2011 a dezembro de 2016, o diário alterna entre as doces memórias do passado na cidade de Alepo e os dias doloridos e carregados de incertezas. E é com a sensibilidade de uma autêntica contadora de histórias que ela narra a preocupação crescente de seus pais com as notícias na tv, as pinturas revolucionárias nos muros da escola, as manifestações contra o governo, a repressão, o sequestro de seu primo e, por fim, os bombardeios que destroem tudo aquilo que ela conhecia.
Autora: Myriam Rawick começou a escrever em seu diário aos seis anos de idade. Seus registros sobre a guerra da Síria compreendem o período entre novembro de 2011. Refugiada em sua própria cidade.

Phillipe Lobjois é um repórter de guerra francês e autor de diversos livros. Estudou ciências politicas em Paris e já cobriu o conflito Karen, em Mianmar (Birmânia), a Guerra de Kosovo e a Guerra do Afeganistão. Quando a Guerra da Síria eclodiu, ele decidiu ir até a cidade de Alepo, onde conheceu a história de Myriam.

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