Resenha: Céu Sem Estrelas - Íris Figueiredo

Uma história tocante, recheada de representatividade e reflexões em meio a universidade e o Rio de Janeiro

julho 23, 2018 - Postado Por: Redação SOODA
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Uma história tocante, recheada de representatividade e reflexões em meio a universidade e o Rio de Janeiro




Lembro como se fosse ontem... Na verdade foi ontem sim. Assim como tem sido todos os dias da minha vida, quando eu percebi que ser gordo era um problema. Sim, hoje eu sou gordo. Não tanto como em 2012, mas ainda assim, me sinto mal escolhendo roupas, me olhando no espelho. E mais, ouvindo elogios. Em minha mente eles não parecem reais. Eles são?

As vezes, algumas pessoas não percebem o quanto é horrível essa fiscalização do que comemos, ou então, esses conselhos travestidos de "só quero ajudar". Sem contar as piadas, o "bullying", que hoje não sofro, mas que antes eram diários. Adolescentes são implacáveis.

Lembro que logo depois de passar pela cirurgia de redução, e emagreci mais de 70 kg. A primeira coisa que eu fiz, foi ir no shopping e comprar um monte de camisas P e M, e calça 38 e 40. Gente, vocês não imaginam o que é isso. Simplesmente entrar no shopping e perceber que pode usar uma roupa que está no manequim. Afinal, o mundo não está preparado para pessoas gordas. Mesmo, nós sendo mais de 50% da população brasileira.

Sabe por que to contando isso? Porque a vida de Cecilia também é assim. Céu sem Estrelas representa em algum nível, pessoas que já sofreram por não está no padrão aceito pela sociedade. Íris Figueiredo, muito obrigado por esse livro.



A história é contada sobre o ponto de vista de dois jovens: Cecilia e Bernardo.

Cecília é uma jovem de 18 anos que acabou de entrar na universidade para cursar Desenho Industrial. A jovem acaba passando por uma maré de azar nesse momento de transição para a vida adulta (Já disse o quanto essa história me representa?). Ela acabara de perder o emprego. E a sua mãe, ao descobrir, manda ela passar uma temporada na casa da avó. A jovem, cansada de ser uma boneca (quando se cansa de brincar é deixada de lado) decide então ir morar na casa de Iasmin. Sua amiga de infância. A questão é que ela passa a morar sobre o mesmo teto de Bernardo, seu crush de infância.

Bernardo é um pouco mais velho. Cursando Engenharia na universidade, o jovem tem como amigos aqueles "heteros topzera" (hehehe) que só pensam em choppada e mulheres. Não que pensar em choppada seja ruim, afinal, na época da faculdade vivia no Espaço Recreativo Vadião (onde aconteciam as festas da UFPA). Mas pensar só nisso, aí é um pouco complicado (heheueheu). Além disso o jovem ainda estava um pouco perdido sobre o seu futuro e os seus relacionamentos. Então vez ou outra ele ficava com Roberta. A garota era embuste nível hard, e mesmo ele se esquivando dela, ela era insistente (acontece!!!). Ele cedia, porque existem coisas que são bacanas demais para fugir, e acho que ela era boa nisso, pelo menos eu deduzo, porque se não fosse, aí eu mandaria a real pro Bernardo: "Meu, que tu tá fazendo da tua vida?". A chegada de Cecília em sua casa mudaria tudo.

CONSEQUÊNCIAS DA GORDOFOBIA: Durante toda a história é possível ver que a Cecilia tem muitos problemas, e claro que nem todos eles são associadas a gordofobia, porque afinal de contas, todos nós temos problemas. Mas a jovem tinha esse agravante. Afinal de contas, o mundo não está preparado para pessoas gordas, ou obesas. Então, a vida toda, somos pressionados para baixo. Ficar com uma pessoa gorda, às vezes é um "fetiche" para alguns, ou "uma tortura" para outras. Mas o que as pessoas não percebem nesse jogo, é que existem sentimentos. E eles são quebrados a todo o momento, até chegar a situações mais extremas como a de Cecília, uma jovem que na primeira brincadeira sofre "ataques de pânicos". Vendo a cena isolada, até parece frescura, ou mimimi, como alguns dizem. Porém, o contexto é muito mais profundo. Cecília já está quebrada há muito tempo e precisa de ajuda.

ALÉM DA GORDOFOBIA, A REPRESENTATIVIDADE: Durante a história, ainda é possível reconhecer um gama interessante de personagens diferentes. Uma das melhores amigas de Cecília é uma Pessoa com Deficiência Física, e outra é negra. Além das personagens serem muito importantes na vida de Cecília, elas também estão lá para tocar em problemas inerentes às suas causas, como a dificuldade de uma delas em conseguir emprego por causa do cabelo, ou ainda às dificuldade de locomoção, visto que estamos em um mundo que também não se prepara para que pessoas com deficiência tenham a sua autonomia. São temas que foram tocados com muita naturalidade, a autora não forçou a entrada dessas temáticas na história, e isso cria um ambiente mais agradável a reflexão.



PRAZER, UNIVERSIDADE !!: Quando estamos na sofrência do vestibular, pouco imaginamos que que chegar no ambiente universitário, seja algo bem mais sofrido. E que talvez, o vestibular seja uma gota, num oceano de problemas que vivemos na academia. Trabalhos, provas, seminários, iniciação cientifica e por aí vai. Claro, existem muitas coisas para relaxar. Mas no geral, esse ambiente universitário é pesado. E a autora procura mostrar parte deles pra gente.

Cecilia e Bernado fazem parte de um projeto de iniciação cientifica na universidade, e assim conhecemos um pouco mais desse ambiente acadêmico, dos relatórios e pesquisas. O que é bem bacana. Apesar de que achei o ambiente desse projeto agradável demais (heuheuehue), os projetos de pesquisa que conheci não são bonitinhos e organizados como esse (hueheuhee).

E POR FIM: Além de todos esses assuntos abordados é possível perceber ao longo da história, que Cecília possui muitos problemas, e que talvez não seja possível resolve-los por ela mesmo. É necessário a ajuda de profissionais que estão qualificados a lidar com esses problemas.

Ainda existe essa imensa dificuldade em consulta-los, mas sério pessoal, conversar com alguém que consegue direcionar tudo que está acontecendo, de maneira mais profissional, com bases cientificas, é bem melhor do que achismos. Então, é importante desmistificar a figura do psicologo e psiquiatra, como alguém que só cuida de pessoas "com problemas mentais". É muito mais que isso. Talvez, se esse medo de ir até um sumisse, seria muito mais fácil lidar com muitos problemas.

Além de todas essas qualidades, Céu sem Estrelas foi muito bem diagramado, e com uma capa maravilhosa que combina bastante com a tonalidade da história. Somente próximo ao final, que senti que houve um corte brusco na mudança de alguns acontecimentos, que particularmente, tenho a impressão que teve mais haver com a escolha na edição, de deixar algumas coisas de fora que estavam escritas antes. Mas não é nada que realmente atrapalhe a fluidez da história, ou deixe o texto incompreensível.

Céu Sem Estrelas é mais uma história que reconhecemos a qualidade de autores brasileiros, que conseguem concatenar uma boa história com elementos do nosso país. Aproxima muito as temáticas tratadas e de certa forma mostra que gordofobia, depressão, entre outras questões estão sim, ao nosso lado, e precisamos reconhece-las para tratar com o seu devido respeito. Chorei ao ler essa história, porque ela combina comigo e com milhões de pessoas que passam pelo mesmo problema e se sentem sozinhos. Meu conselho é: Vocês não estão sozinhos. Se tiverem passando por situações semelhantes Ligue 188, ou acesse o site do CVV. Com certeza pode ser um grande start para sua mudança.



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Céu Sem Estrelas
Autora: Íris Figueiredo
Editora: Seguinte (Companhia das Letras)
Ano: 2018
Skoob: 4.9 Estrelas
Compre Aqui: Amazon
05 Estrelas
ecília acabou de completar dezoito anos, mas sua vida está longe de entrar nos trilhos. Depois de perder seu primeiro emprego e de ter uma briga terrível com a mãe, a garota decide IR passar uns tempos na casa da melhor amiga, Iasmin. Lá, se aproxima de Bernardo, o irmão mais velho de Iasmin, e logo os dois começam um relacionamento. Apesar de estar encantado por Cecília, Bernardo esconde seus próprios traumas e ressentimentos, e terá de descobrir se finalmente está pronto para se comprometer. Cecília, por sua vez, precisará lidar com uma série de inseguranças em relação ao corpo — e com a instabilidade de sua própria mente.
Autora: Íris Figueiredo nasceu em 1992, na região metropolitana do Rio. Formada em produção editorial, a autora já tem bastante experiência no mercado editorial e já escreveu dois livros antes de Céu Sem Estrelas.

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