Resenha: Bruxa Akata - Nnedi Okorafor

Obra recorre a mitologia africana para encantar os leitores com a sua fantástica história

julho 16, 2018 - Postado Por: Redação SOODA
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Obra recorre a mitologia africana para encantar os leitores com a sua fantástica história




Sempre ouviu-se falar que a cultura africana tinha muito a ser explorado na literatura. Ao mesmo tempo que ela sempre foi jogada para aos esteriótipos nas histórias, quando aparecia. Ou ainda, os autores persistiam na mitologia grega e dos países nórdicos. Percy Jackson, Harry Potter, Senhor dos Anéis, são alguns desses exemplos em que a fantasia é tomada por figuras mitológicas dos países europeus. Mas com a mudança desses aspectos socio-culturais, a cultura africana tem invadido a histórias e livros ocidentais. Um desses grandes exemplos é o Filme Pantera Negra que lucrou mais de 1,5 bilhão de reais e tem toda a sua história baseada na cultura africana.

Na literatura especulativa, uma desses maiores expoentes é a autora norte-americana e descedente de nigerianos, Nnedi Okorafor, que já escreveu dezenas de histórias de fantasias e ficção cientifica, incluindo a Bruxa Akata, primeiro livro da série dos Akatas, que já conquistou a critica especializada e fãs em todo o mundo.

Na história conhecemos Sunny, uma jovem que nasceu nos Estados Unidos, filha de nigerianos, que foi morar no país de seus familiares um pouco antes de completar 12 anos. A mudança para outro continente já é um transtorno significativo e ainda fica maior, porque a jovem é albina, ou seja a coloração de sua pele é bem mais clara de que as pessoas da Nigéria. Isso então se torna motivo para bullyings constantes de jovens que não a aceitavam de jeito nenhum.

Porém, tudo irá mudar na vida da jovem ao conhecer o jovem Orlu. Ele consegue "salva-la" de uma surra que ela estava prestes a levar, e com isso ele se aproxima dela. Entretanto, o que a adolescente não imaginava era que essa aproximação a colocaria em um grupo de pessoas que são bem diferentes das pessoas normais. Esse grupo eram capazes de praticar Juju (uma denominação para Magia, na África) e Sunny era uma dessas pessoas. Que agora entraria na luta contra um psicopata que estava assassinando crianças na Nigéria.



MITOLOGIA AFRICANA É A BASE DESSA FANTASIA: De acordo com a história, as pessoas no mundo podem ser divididas em dois grandes grupos. as ovelhas, que são os seres humanos. E as pessoas-leopardos, um grupo de pessoas que tem capacidade de ter duas faces. A face humana e a face espiritual.

Ao adquirir a face espiritual, as pessoas-leopardos eram capazes de fazer juju´s (magias), das mais diversas possíveis. Essa face é semelhante as máscaras de matriz africana (você já deve ter visto algumas delas em algum lugar), e cada pessoa possui uma habilidade específica. Pessoas-leopardos existem em todo o mundo, incluindo os países ocidentais, como os Estados Unidos, e suas comunidades são coincidentes as comunidades negras que existem nesses locais.

Sunny não sabe de nada disso, até se juntar ao grupo de amigos de Orlu, que ainda tem Chi Chi, e Sasha. E juntos eles tem uma enorme responsabilidade para que o nosso mundo não mude completamente. Para isso, eles se encontram constantemente com Anatov, uma pessoa-leopardo do nível quatro que começa a indicar mentores para cada um deles. E também ensina muitas coisas a eles sobre o mundo de pessoas-leopardos.

Nada disso é colocado pela a autora ao acaso, tudo tem uma base na mitologia africana e seu enorme misticismo. Pessoas-Leopardo eram uma sociedade ribeirinha que vivia na África-Ocidental e que com o tempo foram dizimados. Essa sociedade acreditava fortemente nas figuras espirituais, e nessa relação entre o mundo físico e espiritual. Inclusive eles usavam peles de leopardo, pois acreditavam que ela dava o poder necessário para que eles adquirissem contato com esse mundo. E de certa forma, isso está bem presente na história de Nnedi.

Exemplo de como foram descritas as máscaras africanas
E não é só isso. Durante a história são descritos alguns rituais, figuras mitológicas da África, sem contar que a comida nigeriana e também a prática de algumas atividades são descritas, como o próprio amor do povo pelo Futebol. É provável que você consiga captar algumas dessas nomenclaturas, pois elas estão presentes no Brasil e vieram de uma resistência muito grande que dos africanos que eram escravizados aqui em nosso continente pelos colonizadores europeus.

É tão bonito de ver uma história tão bem escrita com todas esse arcabouço mitológico que foge do eixo europeu. Não é à toa que o próprio Neil Gaiman, e Rick Riordan elogiem tanto a autora e coloquem que sua história é muito diferente de tudo aquilo que eles já viram.

REALIDADES SOCIAIS CONTRASTANTES: Além da mitologia africana presente em sua obra, a autora fez questão de colocar crianças mais reais no contexto africano, e que de certa forma congrega com a realidade de muitos países em desenvolvimento. Ao contrário de Harry Potter que ia para uma escola de Magia, e tava tudo bem para todo mundo. Sunny tinha que estar imersas as duas realidades e tentar conviver com elas. Ao adentrar na cidade de Leopardo-Bate, o tempo era exatamente o mesmo da Nigéria, então seus atrasos, e sumiços eram sentidos. E ela precisava lidar com essa relação, afinal de contas, seus pais não podiam saber de sua realidade alternativa, até porque a jovem era uma agente livre, ou seja, ela se tornou pessoa-leopardo, por causa da escolha da ser superior, e não como a maioria das pessoas, que era hereditário. É tipo a Hermione que tinha pai e mãe trouxa e era chamada de sangue-ruim.

Na história, a autora ainda aproveitou para fazer fortes criticas ao preconceito racial que existe na África, e também a corrupção que enceguecera o homem, até o mais poderoso de todos. E nesse contexto é mostrado também como a amizade é fundamental para combater o mal e se descobrir dentro de um mundo cheio de possibilidades e diversidades. Uma mensagem extremamente positiva para as crianças do mundo todo. Especialmente, as africanas que ainda não tinham tantas histórias "super conhecidas" para se sentirem representadas.

Okorafor é o tipo de voz que precisa ecoar cada vez mais no mundo. Não é à toa que suas histórias de ficção-cientifica e fantasia estão ganhando todo o mundo, e a autora já foi chamada até pela Marvel para escrever alguns arcos de Pantera Negra.

Bruxa Akata é uma história que trabalha os mesmos conceitos de amizade e luta contra o preconceito, só que do ponto de vista de uma pessoa que vivenciou isso na pele, e mostrou que não é necessário criar ambiguidades sobre algum personagem para que ele se torne emblemático, e sim, que se posicione verdadeiramente sobre o problema para que ele seja então combatido. Assim, a ignorância que ainda possuímos sobre os povos africanos e sua importância para o nosso mundo vai se esfacelando cada vez mais.



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CONFIRA O TED DA AUTORA SOBRE FICÇÃO ESPECULATIVA

A Bruxa Akata (Akata Witch)
#Akata Witch 1
Autora: Nnedi Okorafor
Editora: Galera Record - Grupo Editorial Record
Ano: 2018
Skoob: 4.8 Estrelas/ Goodreads: 4,09 Estrelas
Compre Aqui: Amazon
05 Estrelas
Carinhosamente apelidado de Harry Potter nigeriano, Bruxa Akata tece uma trama de magia e mistério, repleta de mitologia africana. Uma verdadeira história de amizade, superação e sobre como achar seu lugar no mundo Sunny tem 12 anos e sempre viveu na fronteira entre dois mundos. Filha de nigerianos, nasceu nos Estados Unidos; suas feições são africanas, mas ela é albina. Uma pária, incapaz de passar despercebida. O sol é seu inimigo. Castiga a pele delicada e a expõe aos olhares curiosos. Parece não haver lugar onde ela se encaixe. É sob a lua que a menina se solta, jogando futebol com os irmãos. E então ela descobre algo incrível – na realidade, ela é uma pessoa-leopardo em um mundo de ovelhas. Sunny é alguém com um talento mágico latente. Mais que isso: é uma agente livre. Uma pessoa com poderes, mas que nasceu de pais comuns. Logo ela se torna parte de um quarteto de estudantes mágicos, pesquisando o visível e o invisível, aprendendo a alterar a realidade, sendo escolhida por um mentor e conseguindo, enfim, sua faca juju — com a qual é capaz de fazer seus feitiços. Mas isso será suficiente para que encontrem e impeçam um assassino em série que está matando crianças? Um homem perigoso com planos de abrir um portal e invocar o fim do mundo?
Autora: Nnedi Okorafor nasceu nos Estados Unidos de pai e mãe imigrantes igbo (nigerianos). Possui Ph.D. em Inglês e é professora associada de escrita criativa, atualmente dá aulas na Universidade de Buffalo. Foi vencedora de diversos prêmios por seus contos e livros para jovens adultos: seu primeiro romance publicado para adultos, Quem Teme a Morte, venceu o Prêmio World Fantasy na categoria Melhor Romance; e Binti levou o Hugo Award e o Nebula Award de Melhor Novela de 2016. Nnedi vive em Illinois com sua filha, Anyaugo, e sua família.

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