Resenha: A Grande Rainha - Marion Zimmer Bradley (As Brumas de Avalon #2)

Quando todas as mulheres são iguais, mas só aquelas iguais a mim

junho 06, 2018 - Postado Por: Clara Gianni
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Quando todas as mulheres são iguais, mas só aquelas iguais a mim.




(Para mais detalhes acerca da proposta destas resenhas, da abordagem adotada, resenha do primeiro livro e informações sobre possíveis trigger warnings - alertas de gatilho -, clique aqui)

Dando prosseguimento à resenha (e às problematizações) desta obra tão extensa que é o volume único de As Brumas de Avalon, a abordagem será do segundo livro da série: A Grande Rainha.

A sensação que tenho lendo este volume único é a de que estou maratonando uma série de TV. A narrativa segue bastante fluida, iniciando no exato ponto em que A Senhora da Magia termina, com a estada de Morgana no reino de Lot – esposo de sua tia Morgause, irmã de Igraine – durante a gestação de seu filho concebido nas fogueiras de Beltane.

O foco da trama dessa vez, contudo, não é na jovem sacerdotisa, mas em Gwenhwyfar (ou Guinevere), cuja aparição remonta ainda ao primeiro volume, quando frequentava o convento de Ynis Witrin, na região em que Avalon se esconde sobre as brumas. Trata-se da tal Grande Rainha do título: ao fim da adolescência, a garota é entregue em casamento a Artur – que, a esta altura, já é o Grande Rei da Bretanha de pleno direito –, sem que nenhum dos dois sequer se conheça. Leodegranz, o pai da jovem, oferece seus melhores cavalos em troca da união; e assim Gwen – alta, loira e frágil como porcelana – é levada à corte em Caerleon para selar o matrimônio. Apaixona-se por Lancelote, um dos muitos Companheiros de Artur, parte do que futuramente será a Távola Redonda, cujo sentimento é mútuo. Atormentada pelos desejos pecaminosos que nutre pelo cavaleiro de um lado, e o dever moral de dar um herdeiro ao Grande Rei de outro, Gwenhwyfar leva uma vida um tanto quanto angustiante como Grande Rainha da Bretanha.



É bastante evidente que Gwen foi concebida, desde o início, para ser um contraponto à figura altiva e impositiva de Morgana. Profundamente religiosa, a jovem possui uma infantilidade que inspira cuidados, extrema dependência e uma predisposição à submissão. Sua vida é dominada em todos os aspectos pelo cristianismo, constantemente apavorada com a possibilidade de cometer qualquer pecado, sempre carregando a sombra de uma possível ira divina contra si. Um dos pontos mais marcantes da trama concernem a uma possível infertilidade da jovem, que é incapaz de carregar algo no ventre por muito tempo sem que sofra de abortos espontâneos; o que atiça a ideia em sua mente de que estaria pecando em pensamento – principalmente quanto a seu amor por Lancelote – e que as diversas gestações interrompidas seriam um tipo de punição.

Seu pavor mais simbólico, contudo, é sua agorafobia – um tipo de transtorno de ansiedade relacionado a medo de espaços abertos, uma espécie de oposto da claustrofobia – que se manifesta com bastante frequência ao longo da história. Desde a primeira cena, Gwen busca a segurança dos muros, fortalezas e ambientes fechados que caracterizam a vida palaciana, não suportando permanecer muito tempo fora de casa ou viajando pela estrada. Quase uma síndrome do pânico. Em algumas descrições, a jovem é quase capaz de acreditar que o céu poderia engolí-la viva, de tão amplo e aberto. Completamente oposta a Morgana e sua profunda relação com a natureza e os campos abertos de Avalon, bem como de seu (aparente) destemor de punições divinas ou quaisquer crenças irracionais.

Pelo menos a princípio. Mas já adianto que não as considero tão diferentes assim e logo digo o porquê.

A questão é que detestei Gwenhwyfar durante muito, muito tempo. E não fui a única: não é difícil encontrar resenhas e mais resenhas se queixando do perpétuo melodrama da personagem ao longo deste segundo volume – tão diferente, a princípio, do dinamismo que Morgana confere quando a narrativa é em sua perspectiva. Não é difícil acreditar que Gwen é uma criança chorona e birrenta, capaz de fazer com que Artur quebre alianças políticas valiosas por puro fanatismo religioso (sim, novamente aquele embate silencioso entre cristão e pagão, para além da guerra contra os saxões).

O engraçado é que, nessa segunda leitura, eu realmente não consegui me irritar com Gwenhwyfar. Se muito, creio que finalmente consegui entendê-la e sentir empatia por sua dor, principalmente entendendo que o cristianismo romano e o culto à Deusa de Avalon nada mais são que faces de uma mesma opressão patriarcal, cada uma à sua maneira – o primeiro praticamente escancarado nos atos de sexismo, enquanto que o outro estampa uma violência mais camuflada (mas ainda assim violência) através dos estupros rituais travestidos de celebrações da fertilidade, por exemplo. Tratamos Gwenhwyfar como insuportável, na melhor das hipóteses, porque somos induzidos a imaginá-la como a representação simbólica do cristão – em teoria, o “vilão” da história. Mas a personagem é muito mais uma vítima das circunstâncias, ideologias e violências sistemáticas sofridas ao longo da vida que sequer posso observar outra saída ou opção que não o comportamento infantilizado que possui inicialmente – e que depois se transforma numa profunda teimosia e insistência em fazer as coisas do seu jeito.

Novamente penso em todos os clichês sobre como esta é uma obra feminista e tudo mais – e já expliquei, na resenha anterior, o porquê de considerar As Brumas de Avalon um desserviço ao feminismo. E é engraçado que esta mesma obra seja composta por mulheres individualmente profundas e complexas, mas que passam a narrativa inteira brigando entre si. Tudo o que Gwen recebe de Morgana é zombaria, sarcasmo e um desprezo velado – veja bem, de uma mulher que deveria ver a face da Deusa em todas as mulheres, segundo aquilo que lhe foi ensinado. Em diversos trechos da história, somos lembradas de que todas as mulheres são irmãs perante a Deusa; e ainda assim, o único momento (próximo do final) em que Morgana parece demonstrar um mínimo de empatia por Gwen acaba por se converter em mais um ato de zombaria e ironia de sua parte.

Não se trata de romantizar as relações entre mulheres. Um dos méritos da obra, afinal de contas, é retratar suas personagens femininas como criaturas falíveis, erráticas e até cruéis; em suma, tratá-las como seres humanos. É no mínimo estranho, em tese, que estas mesmas personagens não reconheçam umas nas outras as opressões que sofrem, ou não se solidarizem entre si. Mas na verdade faz todo o sentido: garantir que mulheres se posicionem umas contra as outras e não se juntem é uma das táticas do próprio patriarcado. Mas estou divagando.

O fato é que finalmente pude entender Gwenhwyfar e, por consequência, também entender o quanto Morgana e ela são mais similares do que parece, à primeira vista. O principal motivo é o seguinte: assim como Morgana, Gwen também possui o dom sobrenatural da Visão.



Em A Senhora da Magia, soubemos que o destino de Morgana teria sido muito diferente caso Viviane não a tivesse levado da corte de Uther, aos onze anos, posto que este desejava livrar-se da menina o mais rápido possível mandando-a para um convento. Nessa época, a Visão se manifestava em Morgana com cada vez mais frequência, e não raro o padre a condenava como influenciada pelo demônio. Lembro do alívio que senti quando a garota fugiu daquele ambiente com sua tia para ser treinada como sacerdotisa. Foi por pouco, né? Imagina se ela permanecesse ali ou fosse para o convento?

Pois é, não precisa mais imaginar. Porque tudo isso aconteceu com Gwenhwyfar.

Em sua primeira aparição, a garota interrompe o passeio de Morgana e Lancelote – que, à ocasião, visitava sua mãe Viviane – pelos bosques de Avalon, uma vez que avançou os limites do convento de Ynis Witrin e se perdeu no feitiço que envolvia a ilha dentro das brumas. Importante lembrar que Avalon passou a ser protegida pela névoa por meio de um encantamento lançado por druidas poderosos, desde o crescimento do domínio cristão sobre a região, agora batizada de Glastonbury. De tal forma que apenas sacerdotes e sacerdotisas, iniciados nos mistérios da Visão, seriam capazes de atravessar aquele feitiço. E, no entanto, uma garotinha rosada e medrosa também conseguiu.

Não é a única vez que observamos a jovem em conflito com o dom. Ao longo do livro, Gwen rejeita repetidamente a influência indesejada da Visão, tomando-a como um pecado. É um lembrete de que tipo de vida Morgana teria levado caso as circunstâncias fossem diferentes. E tudo o que separa as duas mulheres é a intervenção de Viviane na vida de uma delas.

A segunda similaridade entre ambas é o temor ao divino. Resta óbvio o quanto Gwen é uma cristã devota e o quanto isso a oprime; mas mencionei que Morgana se distanciava disso, né? Não é bem assim: após renegar a Avalon (e à Deusa, por tabela) e abandonar a vida que levava como sacerdotisa ao descobrir de sua gravidez, notam-se alguns momentos em que Morgana é atormentada pela perspectiva da ira divina, de uma deusa vingativa que busca punir aquelas que se distanciaram de seu caminho.

“‘Tudo o que me aconteceu é consequência de ter repudiado os votos que fiz à Deusa…’ E então se lembrou do que Lancelote disseram em seu desespero, que não havia Deuses nem Deusa, mas que essas eram as formas que a humanidade dava, aterrorizada, ao que não entendia racionalmente.
Mas, mesmo se fosse verdade, isso não diminuía sua culpa. Pois se a Deusa tomava a forma que pensavam, ou era apenas outro nome para os grandes mistérios da natureza, ela ainda havia abandonado o templo e o modo de vida e o pensamento com os quais se comprometera, e havia abandonado as grandes marés e os ritmos da terra. Havia ingerido alimentos proibidos a uma sacerdotisa, tomado a vida de animais, pássaros e plantas sem agradecer àquela parte da Deusa que era sacrificada em seu próprio benefício, vivera negligentemente, entregara-se a um homem sem buscar saber o desejo da Deusa em suas marés solares, por mero prazer e depravação – não, não podia esperar que retornasse e tudo fosse como antes”. (pg. 443, grifo nosso);

(Pra deixar bem claro que o culto à Deusa não necessariamente significa liberdade sexual, mas algo bem distante disso)

É certo que os temores de Morgana são muito menores que os de Gwenhwyfar. Mas eles existem, e mostram a importante ligação que ambas possuem com o sagrado, e até onde são capazes de ir por conta desta devoção. Mais importante: o quanto ambas estão à mercê do patriarcado.

A despeito de seus medos, ainda, Gwen pode ser tão persuasiva e insistente quanto Morgana se assim o desejar – principalmente nos momentos em que aborda Artur na metade da trama –, e não posso deixar de me perguntar que tipo de sacerdotisa teria sido.

O que quero deixar claro aqui é como meras contingências as diferenciam, e que o “destino” de uma poderia muito bem ter sido o da outra. E questionar novamente uma religião como a de Avalon, que toma o feminino como sagrado, mas reforça as mesmas estruturas de opressão presentes do lado de fora – e não é difícil observar a facilidade com que Viviane e Morgana, posteriormente, reproduzem (às vezes sem nem perceber) comportamentos sexistas perante outras mulheres “menos instruídas”, ou que não compartilhem do mesmo destino sagrado que a Deusa as reservou.

Em suma, a trama segue bastante envolvente, em termos narrativos. O final é bastante inusitado – pra dizer o mínimo – e deixa um gancho gigantesco para o próximo volume. Não observei descrições tão evidentes de abuso em relação ao primeiro livro (embora saiba o que esteja me aguardando, se ainda me lembro bem). Ainda assim, minhas observações persistem, principalmente em tentar apontar aspectos que seriam duramente questionados, caso uma obra como esta fosse lançada agora, mas são ignorados por se tratar de uma obra considerada “clássica” e consagrada.

Sabemos, contudo, que não é bem assim.


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As Brumas de Avalon (The Mists of Avalon)
Volume Único
Autora: Marion Zimmer Bradley
Editora: Planeta
Ano: 2017
Skoob: 4.7 Estrelas / Goodreads: 4.1 Estrelas
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03 Estrelas
Grande clássico da literatura mundial retrata a mítica história do rei Artur a partir da perspectiva de mulheres mágicas e poderosas. Por séculos, as lendas arturianas povoaram o imaginário de leitores de todo o mundo. As Brumas de Avalon é considerado por muitos a versão literária definitiva do mito e muitas gerações de mulheres se deixaram arrebatar pela escrita envolvente de Marion Zimmer Bradley. Pelos olhos de mulheres complexas e poderosas como Morgana das Fadas, Viviane, a Senhora do Lago, Igraine, Morgause e Gwenhwyfar, os reinos de Camelot e de Avalon são revisitados neste clássico, repleto de magia, sensibilidade e intrigas. Uma releitura monumental das lendas arturianas...
Autora: Marion Zimmer Bradley começou sua destacada carreira como autora em 1961, com seu primeiro romance, A porta através do espaço. No ano seguinte, escreveu o primeiro livro da popular série Darkover, Sword of Aldones [Espada de Aldones], logo indicado ao Hugo Award. Esta série será adaptada para a TV, pela Amazon. Seu romance A torre proibida também foi indicado ao Hugo, e A herança de Hastur, ao Nebula Award.

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