Resenha: Heróis de Novigrath - Roberta Spindler

Apresentando uma história de fantasia em um mundo digital, Heróis de Novigrath é, ao mesmo tempo, nostálgico e inovador

abril 13, 2018 - Postado Por: Redação SOODA
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Apresentando uma história de fantasia em um mundo digital, Heróis de Novigrath é, ao mesmo tempo, nostálgico e inovador




Feche os olhos por alguns instantes antes do começo desta resenha. Respire fundo e relaxe.

Agora imagine uma época mais simples que esta aqui, menos agitada. Você acabou de chegar da escola, já farejando o cheiro de almoço. Mal você termina de se servir, corre pra frente da TV, naquele horário clássico de programas infantis em qualquer grande emissora. Se for um pouco mais velha, você provavelmente assistia a Sailor Moon na Record ou Dragon Ball Z na TV Globinho. Se tiver mais ou menos a minha idade, estaria assistindo a algum ep repetido de X-Men Evolution pela milésima vez no SBT. Quem sabe, até Power Rangers na TV a cabo. E quem for bem mais velho vai se lembrar daquele horário sagrado das tardes na TV Manchete, quando passaria Cavaleiros do Zodíaco, Yu Yu Hakusho, ou até Shurato (e claro, Sailor Moon antes de ir para a Record).



Tá, já pode abrir os olhos.

Geralmente pensamos que este tipo de lembrança, guardada lá no fundo da memória com aquele brilho saudosista, não passa disso mesmo: de tempos bons e histórias boas que jamais se repetirão, clássicos intransponíveis. De vez em quando, contudo, certas obras conseguem resgatar aquela atmosfera épica das aventuras que costumávamos consumir, sem cair no erro de simplesmente replicá-las formalmente por puro apelo nostálgico - e bem sabemos, nossos tempos são de repetição à exaustão de fórmulas já consagradas do passado. O melhor de tudo isso é que estas mesmas obras são capazes de incorporar tudo o que um dia amamos nas aventuras clássicas a uma narrativa completamente original, inovadora e, mais importante, atualizada para as gerações atuais, sem perder a familiaridade.

Heróis de Novigrath (HdN) é uma destas histórias.

Posso não estar tão familiarizada à temática central da obra, os chamados eSports (tão em voga hoje em dia através de jogos como League of Legends e DOTA 2), mas afirmo que HdN é capaz de incorporar o espírito de aventura e trabalho em equipe dos desenhos e animes clássicos e, simultaneamente, trazer um sopro de novidade a esse tipo de história consagrada, diferenciando-a daquelas que conhecemos.

Nos tempos atuais, o jogo eletrônico Heróis de Novigrath é uma sensação mundial. Do gênero “Massive Multiplayer Online Battle Arena” (MOBA), HdN movimenta uma gigantesca indústria composta de uma série de filmes, produtos licenciados, comunidades e, é claro, campeonatos sediados em estágios lotados pelo mundo inteiro. Numa realidade não tão distante da nossa, a movimentação de tais eventos se compara ao furor de uma Copa do Mundo - e por falar em copa, a febre de HdN no Brasil é uma paixão nacional quase tão grande quanto o futebol. Criada há quinze anos, a plataforma já alavancou diversos jogadores profissionais ao estrelato; e, é claro, também os levou à ruína com a mesma rapidez. É o caso de Pedro Gonçalves (ou EpicShot): em função de um erro fatal durante sua carreira em ascensão, anos antes, fora relegado ao esquecimento, sobrevivendo de streamings de suas partidas online e um emprego numa rede de fast food. Ele não espera muito de sua vida mundana, até receber um estranho visitante em sua casa: Yeng Xiao, um dos principais personagens jogáveis de HdN (e seu campeão favorito), em carne e osso.

“"- A escuridão cresce enquanto a luz perde seu brilho diante da dúvida.
A voz conhecida causou arrepios. Virou o rosto, dando de cara com Yeng Xiao sentado na cadeira de rodinhas. Ele era grande demais para aquele móvel. A pose relaxada, com as pernas cruzadas, quase o fazia parecer um cosplayer rico. Entretanto, a lança na mão direita era verdadeira, as feições idênticas às artes do jogo. Sobrancelhas retas e pretas assim como os cabelos compridos presos em um rabo de cavalo. O lanceiro de Lumnia estava ali ao seu lado, respirando e completamente real.
- Por favor, não grite. - Ele pediu assim que Pedro abriu a boca. - Você não quer assustar os vizinhos, quer?" (pg. 26) ”


(Te entendo, Pedro. Teria um xilique igualzinho se eu chegasse em casa e encontrasse a princesa Zelda estirada no sofá de casa)



Xiao é mais que um mero personagem eletrônico, explicando a Pedro que ele, todos os demais campeões, seus inimigos, e o mundo inteiro de Novigrath é real - o jogo se tornara uma realidade própria após sua popularidade. É dividido entre duas facções: os Defensores de Lumnia (heróis protetores) e os Filhos de Asgorth (criaturas monstruosas, também jogáveis); e, por conta destes últimos, a paz em nosso mundo se encontra ameaçada. As fronteiras entre a dimensão de Novigrath e a nossa tornam-se cada vez mais difusas conforme o tempo passa, momento propício à invasão dos Filhos, que desejam dominar esta dimensão.

É quando Xiao, transitando entre as duas realidades, seleciona Pedro para auxiliá-lo na luta contra tais criaturas. Sua incumbência: reunir cinco jovens com garra (não pera), e com eles formar uma equipe competitiva de HdN, como seu técnico, para impedir a chegada deste mal iminente. São eles: Cris (ou Fúria), rapaz talentoso, embora arrogante; Samara (Titânia), garota sagaz, ainda que traumatizada pela morte dos pais; os gêmeos Adriano (LordMetal), roqueiro piadista, e Pietro (Roxy), prático e responsável; e Aline (NomNom), moça tímida, dotada de uma inteligência afiada. O time: Vira-Latas.



DINÂMICA CLICHÊ, QUE AMAMOS

Embora a dinâmica dos games online não seja conhecida de todos, qualquer um que tenha gasto um mínimo de horas na infância em frente à TV conhece esta estrutura de jovens escolhidos para combater o mal. De Digimon a Super Gatinhas; de Jovens Titãs a Clube das Winx; de W.I.T.C.H. a Caverna do Dragão. Trata-se de um trope (ou tropo), isto é, um tipo de convenção ou clichê (aqui entendido em um sentido não pejorativo) recorrente na cultura popular. E ele tem nome: a chamada “Five-Man Band” (numa tradução bem literal “Banda de cinco pessoas”), formação comum em narrativas sobre equipes, e que geralmente possui arquétipos próprios: a líder, o grandão e calado, o alívio cômico, a nerd e o “coração” da equipe, entre outros. A grande graça deste trope é observar como indivíduos tão diferentes são capazes de cooperar entre si e trabalhar como um único grupo.

Acompanho a produção literária da Roberta há alguns anos, e uma característica recorrente em alguns de seus trabalhos é a utilização de figuras e convenções conhecidas para contar histórias bastante inusitadas. Introduzindo em seus contos e romances um cenário familiar aos leitores, a autora frequentemente conduz a trama em um ritmo estável, até a derradeira quebra de expectativa, no clímax. Aqui não é diferente. Todos conhecem histórias sobre equipes de cinco a seis pessoas, o líder, o mentor, o mal iminente, e por aí vai. Somos envolvidos nesse cenário clássico, mantidos numa zona de conforto tão macia quanto o sofá da sala depois da escola.

Ok!!!

Achou que era só isso mesmo?

ACHOU ERRADO, OTÁRIO. (Não pude resistir hehe)

Brincadeiras à parte, a construção da tensão próxima do clímax é tão palpável que ouso dizer: esta é a narrativa mais bem arquitetada da autora até o presente momento. A cadência dos capítulos, as personagens cativantes, a linguagem ágil, tudo contribui para o ritmo constante e acelerado rumo ao choque final (e rapaz, que choque! Terminei o livro sentindo que tinha levado uma lambada na cara). É bem verdade que senti alguns trechos um pouco mais corridos que outros (principalmente no que se refere ao final), mas, de um modo geral, a narrativa é muito bem trabalhada, sem exageros ou grandes lacunas - um trabalho quase cirúrgico, tamanha a precisão para tecer uma trama dinâmica.

Conversando com amigos inseridos neste cenário de partidas online, alguns comentaram com certo estranhamento as pequenas explicações dos jargões e termos próprios do meio gamer inseridas ao longo do texto. Do meu ponto de vista de quem pouco conhece eSports, creio ser importante esta ambientação - um dos maiores méritos da trama é inserir rapidamente quem é leigo, sem didatismos. Mas imagino que possa ocorrer este estranhamento.



DIVERSIDADE E PERSONAGENS

A multiplicidade de pontos de vista e personagens merece um elogio à parte. Não é fácil carregar uma história com tantas personagens principais, muito menos com uma saudável dose de complexidade, sem recair em estereótipos grosseiros. A despeito de serem facilmente identificáveis, todos os protagonistas de HdN são retratados com dignidade; e é natural alguns recebam um pouco mais de atenção que outros, em função do foco narrativo (notadamente Pedro, Fúria e Titânia). Boa parte iniciou a narrativa com algum conflito interno ou mazela moral e a trabalhou ao longo do texto. Da parte de alguns, não consegui visualizar uma mudança tão significativa - foi o caso de Titânia, embora seja possível argumentar que sua relação com a memória dos pais seja seu grande conflito, e é difícil não simpatizar (mas, pessoalmente, gostaria de ter visto um pouco mais de seus defeitos). As dinâmicas dos Vira-Latas - suas brigas e alegrias, erros e acertos - são divertidas de verdade, e nos vemos rindo junto com a equipe (ah, Adriano! Como eu aprecio homens com senso de humor…). A inclusão das minorias (principalmente LGBT) é digna e bastante natural.

Tenho de frisar aqui: o final é mesmo de tirar o fôlego.

UM TRABALHO EDITORIAL PRIMOROSO

O trabalho da Suma das Letras com o material é primoroso - afora alguns pequenos erros de revisão aqui e acolá, que talvez sejam revistos em uma reimpressão, nada que tire o brilho da obra. É sempre muito gratificante acompanhar uma autora paraense - ou fora desse eixo concentrado Rio-São Paulo, em geral - alcançando tamanha repercussão, publicada em um grande grupo editorial. Mais ainda: uma autora mulher escrevendo sobre videogames, no gênero fantasia - o que é triplamente maravilhoso, e uma baita conquista, considerando o estigma que ainda recai sobre nós em ambos os meios, tanto gamer quanto de literatura fantástica. Ocupando seu espaço nestas esferas com tamanha propriedade, devo dizer: Roberta me representa.

HdN vai te fazer rir e chorar, talvez os dois ao mesmo tempo. Para boa parte dos leitores, será uma porta de entrada para este cenário tão gigantesco que são os eSports. Mas para outra parcela - ouso dizer, ainda maior - terá aquela sensação gostosa de voltar para casa, ligar a televisão e assistir seu programa favorito antes do dever de casa.

"- Todo time requer união, Epic. Tem que se mover como uma unidade, uma força. Você ganha ou perde como uma equipe, como uma família. Não posso prometer o melhor resultado hoje, mas sei que podemos vencer. Enfrentaremos juntos o que vier." (pg. 264)


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Resenha por Clara Gianni

Heróis de Novigrath
Autora: Roberta Spindler
Editora: Suma (Companhia das Letras)
Ano: 2018
Skoob: 4.2 Estrelas / Goodreads: 4.86 Estrelas
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05 Estrelas
Em uma épica luta do bem contra o mal, Roberta Spindler escreve partidas emocionantes, batalhas arrasadoras e personagens cativantes. Heróis de Novigrath é um livro original e apaixonante, para quem gosta de boas aventuras. Heróis de Novigrath é mais do que um jogo de computador. É um esporte. Uma paixão mundial que atrai milhões de torcedores fanáticos para estádios, banca equipes famosas e leva seus jogadores do chão ao topo — e vice-versa. Pedro sabe bem como uma carreira pode desabar de uma hora para a outra. Heróis de Novigrath ainda é seu grande amor, mas seus dias de glória terminaram. Ou é o que ele pensa, até receber a visita de Yeng Xiao — seu herói favorito do game. Quando o guerreiro se materializa em sua casa, Pedro acha que perdeu o juízo, mas a verdade é que HdN é mais real do que ele poderia imaginar. Ao redor do mundo, jogadores alimentam o game com sua paixão e, sem saber, com sua energia vital. Agora, os monstros da terra de Novigrath estão a um passo de invadir o nosso mundo, e os Defensores de Lumnia precisam de um time que possa restaurar a força do lado dos heróis. Pedro já deixou que sua ambição o derrubasse uma vez, mas Xiao tem certeza de que ele é a pessoa certa para montar o novo time. Por todo o país, cinco jovens mal imaginam a missão que os aguarda. Heróis de Novigrath é muito mais do que um jogo — é o futuro de todos eles.
Autora: Roberta Spindler nasceu em Belém/PA e é graduada em Publicidade e Propaganda. Nerd confessa, adora quadrinhos, games e RPG, e trabalha como editora de vídeos. Escreve desde a adolescência e é apaixonada por literatura fantástica. Tem contos publicados em diversas antologias. É autora de "Heróis de Novigrath", lançamento da Suma em março de 2018, e "A torre acima do véu"(Giz Editorial).

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