Discussão: Tag Experiências - Literatura ou Não? #YAéliteratura

abril 21, 2018 - Postado Por: Redação SOODA
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Depois da polêmica, afinal de contas o que é literatura/arte?


John Green é um dos principais autores do Gênero YA

Nessa semana uma velha polêmica no mundo literário voltou: Preconceito Literário. Isso por que, No último dia 17 de abril, a Tag Experiências, uma caixa literária que recentemente recebeu um prêmio literário internacional, enviou um e-mail ao seu mailling colocando as diferenças entre a Tag Curadoria e Tag Inéditos, dois de seus produtos.

A questão é que com intenção de mostrar as diferenças entre os dois produtos, o infográfico enviado pela Tag foi considerado separatista e preconceituoso. Nele, ao explicar a Tag Curadoria a empresa usou termos como "leitores mais avançados", ou "literatura que faz pensar" em contraponto a explicação da Tag Inéditos, no qual foram usadas frases como "literatura que entretém" e "tramas que não exigem muita concentração". Logo, o assunto se tornou um dos mais comentados no Twitter. Editoras, autoras e leitores logo se posicionaram sobre o assunto, especialmente pessoas apaixonados pelo subgênero YA, literatura voltada para o público de 15 a 29 anos, de Acordo com a Associação de Serviços de Biblioteca para Jovens Adultos (YALSA).

Divulgação encaminhada por e-mail


"Nada é mais perigoso para a estrutura de poder do que jovens empoderados e conscientes", dizia um Tweet da Editora Plataforma 21. "Minha vida literária serie um desastre, provavelmente não leria tanto que leio hoje", ressalta um tweet indignado de um jovem. Esses tweets podem ser encontrados na #YAÉLITERATURA, criada com o intuito de congregar pessoas que se incomodaram como a forma que a TAG se posicionou sobre o tema. A repercussão foi tão grande, que blogueiros e youtubers que receberam titulos da TAG para divulgação, se recusaram a fazer o trabalho, em protesto.

Essa discussão colocou voga uma polêmica que já tem bastante tempo, desde quando o mercado editorial decidiu criar o gênero YA. "O gênero YA é litertaura ou não é?".



Para falar sobre o tema, é preciso ter em mente, alguns aspectos. O primeiro deles é que a literatura como forma de arte também sofre da mesma dicotomia e identidade que a arte contemporânea sofre, assim como os seguintes questionamentos. O que é arte? Quem determina? Quais são as regras que coloca algo dentro de espectro da arte ou aqueles que tiram? O que é bom ou ruim? O que tem valor de ser cultuado ou exposto? São discussões bastante subjetivas que estão na esfera da filosofia da arte até os dias de hoje e não se esgotaram e assim é com a literatura.

Antes da criação da Imprensa por Gutemberg (Século XV), os livros tinham poucas edições e acesso. Então poucas pessoas tinham acesso a esse tipo de arte e/ou podiam aprecia-las. Então essa forma de arte/literatura eram de "poucos para poucos". Também por isso, tinham um rigor estético para ser apreciado/contemplado, e seguiam o pensamento humano mais restrito à época.

Porém, com o tempo e o acumulo do pensamento critico, além do maior acesso a essas formas de arte/literatura, especialmente no século XX, na era da reprodutibilidade, esse mesmo rigor perdeu o sentido e também foi possível a expansão de novas formas de fazer literatura, que não estava segregado somente as grandes elites burguesas e sim a toda a população, e assim o homem teve mais liberdade para escrever sobre o que quisesse sem a mesma cadência que em tempos anteriores.

O livros eram restritos a uma pequena classe social burguesa


Claro, é inegável a influência do mercado literário sobre o que ser ou não publicado (de certa forma isso sempre esteve presente) e alguns aspectos técnicos ainda precisam ser valorizados. Porém, existe uma maior fluidez desse mercado, visto que também existe um público-alvo bem maior, que gostaria de consumir a literatura, do qual tem interesse.

Vale ressaltar que em Muitos casos, a ficção "best seller" segue uma fórmula para atingir um público maior. A agilidade da obra, a utilização de palavras mais simples, enredos menos complexos estão dentro dessa formula para que pessoas consumam e se entretenham, ao contrário de obras "clássicas" e "cults" que seguem uma outra lógica (mesmo assim seguem uma lógica).

Agora isso não significa, que ao seguir a formula, os autores, não possam incutir discussões importante, que instigam o leitor a pensar. E fazem isso sempre.

Por exemplo, em Tartarugas até Lá Embaixo, livro mais recente de John Green. O enredo é simples e de fácil aproximação com o público jovem. Uma jovem de 16 anos que tem TOC - Transtorno Obssessivo Compulsivo, e resolve junto com uma amiga encontrar um senhor que fugiu depois de ser acusado de corrupção. Cheio de referências Nerds, a obra entretém e leva sim o leitor a querer saber o que acontece, em capitulo, após capitulo. Porém, ao mesmo tempo, são utilizados termos e discussões que "teoricamente" não seguem a lógica de um romance YA. Filosofia da existência, dialética, incursão do leitor a uma personalidade complexa estão presentes na obra. Além, do uso do livro para discutir temas como TOC, privilégios sociais, tolerância entre outras, fazendo com que a obra não seja, somente entretenimento, mas política.

Uma das séries YA de maior sucesso nos dias de hoje


Outra obra YA que posso colocar sobre esse aspecto é Rainha Vermelha, da autora Victória Aveyard. O livro conta a história de uma jovem em uma sociedade dividida pelo sangue. Vermelhos e Prateados, onde os Vermelhos são subjugados e os prateados são a força dominante. Entretanto, a jovem é uma vermelha que possui poderes. Outro enredo que é simples de entender que em sua fórmula tem um triângulo amoroso, uma menina forte que precisa superar as suas fraquezas para vencer. Mas, no interior da história, especialmente no livro três é possível ver da autora, um esforço para discutir tolerância, disputas de poder, criticas a atual estrutura de supremacia dos Estados Unidos sobre os outros povos, e também a ascensão do conservadorismo, com a eleição de TRUMP (ver resenha do terceiro livro).

É possível que todos não vejam as mesmas camadas? Claro que sim, a literatura como forma de arte, depende da interpretação do outro para que possa atingir o seu ápice. E essa por consequência, depende das experiências e vivências de cada um. O mais importante é que ela cause um incômodo, sensibilidade, faça pensar, tire as pessoas da zona de conforto. Ou seja, tenham todos os aspectos, dos quais a "Tag Experiêncas Literárias" determinou para os livros que são enviados pela "Tag Curadoria".

Felizmente, após o episódio, a Tag reconheceu o erro e disse "Compreendemos que isso pode ter gerado interpretações contrárias à nossa intenção, e por isso nos desculpamos. De forma alguma quisemos dizer que existe melhor ou pior, e sim aquilo que é mais adequado ao que o leitor está buscando. Não é porque a TAG Inéditos não envia literatura brasileira (em função da proposta de enviar livros que ainda não foram publicados no Brasil e que fizerem sucesso lá fora antes) e porque a TAG Curadoria não envia YA ou autoajuda que achamos que esses gêneros devem ser menosprezados." (Veja a nota completa)

Esse episódio foi importante para discussão e mostrar mais uma vez que nem tudo que é arte/literatura, precisar ter os mesmos rigores, para ser considerado esteticamente bom ou ruim. Precisa sim, incomodar, fazer pensar, tirar da zona de conforto, independente de ser uma leitura mais fluída ou rebuscada. A forma de consumo sim, depende do público, porque ele vai determinar se aquela obra terá uma valor de pensamento critico, ou apenas entretenimento. Cabe a nós ser mais tolerantes e aceitar que nem sempre o que agrada aos nossos olhos, agrada o dos outros e que generalidades sempre serão superficiais em um mundo onde existem, pelo menos 7 bilhões de ouvidos e vozes esperando o seu momento para se ouvir e falar.

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