Resenha: Mrs. Dalloway - Virginia Woolf

Mais que um clássico literário, Mrs Dalloway é uma profunda viagem através da psiquê humana

março 26, 2018 - Postado Por: Clara Gianni
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Mais que um clássico literário, Mrs Dalloway é uma profunda viagem através da psiquê humana.




É sempre um tantinho difícil iniciar uma resenha sobre uma obra consagrada, até pela aura criada em torno. Uma situação específica é escrever sobre livros recém lançados ou pouco conhecidos, com o intuito de discutir seus aspectos mais relevantes e colocá-los na ordem do dia das rodas de conversa – divulgá-los, portanto. Outra situação, completamente distinta, é escrever sobre livros que já povoam o imaginário popular há anos – quiçá até há séculos –, em virtude de novas reedições ou conteúdo extra, tendo ciência de que tais textos já possuem um séquito fiel de admiradores e, no mínimo, gente que já ouviu falar, nem que seja só o nome.

Mrs. Dalloway, sem sombra de dúvida, corresponde ao segundo caso.

Já tomara conhecimento de Virginia Woolf há algum tempo, sempre da boca de outros. Conheci um pouco de uma de suas obras mais famosas, “As Ondas”, por meio dos personagens do YA “Por lugares incríveis”, de Jennifer Niven; escutei seu suicídio pela voz de Florence Welch na música “What the water gave me” (o título, em si, referenciando uma obra de outra mulher maravilhosa de seu tempo, Frida Kahlo). Em tempos modernos de grandes franquias literárias nos quais a obra se sobrepõe completamente à persona do autor – o que não necessariamente é algo ruim –, Virginia Woolf compõe o imaginário dos grandes escritores do século passado, cujas produção parece ser entendida, em sua totalidade, enquanto um grande escrito autobiográfico.



O prefácio da edição da Penguin books – um tanto complicadinho, devo confessar – procura situar o livro no contexto da vida da autora: suas referências na composição, as críticas ao estilo de escrita livre que a consagraria; a relação com o livro Ulysses, de Joyce, lançado um ano antes; o impacto de Mrs Dalloway no modernismo inglês e na literatura universal. Mas é apenas a partir das primeiras páginas do romance que começamos a entender, de fato, os motivos pelos quais o legado de Woolf é continuamente revisitado ao longo das décadas.

Mrs. Dalloway – derivado dos contos “Mrs. Dalloway in Bond Street” e do inacabado “The Prime Minister” – narra um único dia de junho de 1923 no qual a personagem título, Clarissa Dalloway (senhora de classe na casa dos cinquenta, esposa de um político proeminente e mãe de uma jovem de 17 anos), providencia os preparativos para a festa abastada que dará em seu casarão, ainda naquela noite. Paralelamente acompanhamos, até certo ponto da narrativa, o veterano de guerra Septimus Warren Smith – homem profundamente traumatizado pelas experiências em combate, incapaz de viver sem abstrair de ilusões momentâneas que o façam esquecer do horror da própria existência. Embora jamais se encontrem ao longo da narrativa, Septmus e Clarissa são opostos complementares um do outro, este refletindo um certo tumulto mental ainda latente nos pensamentos daquela. A narrativa, contudo, não se limita a ambos – e é aqui que reside a riqueza da trama, ricamente costurada pelas perspectivas dos mais variados personagens, desde a filha de Clarissa, Elizabeth, passando por seu antigo interesse amoroso, Peter Walsh, até a atormentada esposa italiana de Septimus, Lucrezia.



Esta é uma daquelas histórias cuja premissa, por si só, não possui absolutamente nada de excepcional: uma mulher da elite inglesa se preparando para dar uma festa. Algo que sempre faço questão de dizer, no entanto, é mais válido do que nunca: não importa a história que você conta, mas como você conta; o modo e o estilo fazem toda a diferença entre um conto aparentemente banal e uma narrativa profunda e reflexiva sobre vida, escolhas e arrependimentos – e estilo narrativo é algo que Woolf tem de sobra. Apenas ela poderia criar um verdadeiro ensaio sobre a psiquê humana, da forma como criou, a partir da história de uma festa em um bairro rico de Londres.

Muito desta façanha se deve à escrita em fluxo de consciência. Boa parte do legado de Mrs. Dalloway reside no estilo adotado pela autora para transitar entre os pensamentos de suas personagens. A escrita é surpreendentemente orgânica, e segue a mente dos protagonistas com uma naturalidade que é como se, de fato, pudéssemos ler seus pensamentos. Ideias nascem e morrem simultaneamente: Clarissa sai para comprar flores e lembra-se da juventude em Bourton; um carro passa; lembra-se que precisa ajustar o vestido para a grande noite; e, de repente, um avião rasga o céu desenhando letras entre as nuvens (seria uma jogada de marketing para vender balas toffee?). Logo em seguida, entramos na cabeça de Septimus, com seus delírios de grandeza.



É uma massa caótica de ideias, fios de pensamento misturados e entrelaçados, que formam uma grande tapeçaria pouco a pouco – e o resultado, como não poderia deixar de ser, são longos, LONGOS parágrafos, escritos como que em um transe hipnótico (e não foram raras as vezes em que eu parei a leitura e me perguntei “o que essa mulher cheirou pra escrever isso, mano?”). Confesso que considerei um pouco cansativo logo de início; mas muito disso se deve às milhares de tarefas e ocupações paralelas durante a leitura, o que tirou um pouco minha atenção. Assim, advirto: é preciso reservar um tempo específico de contemplação e concentração para apreciar a beleza narrativa de Mrs. Dalloway em sua totalidade. A narrativa é para ser densa mesmo, isso não é defeito – ao menos, não da forma como seus mais ferrenhos críticos consideravam, à época do lançamento do livro. Felizmente, consegui aproveitar muito dessa beleza a partir da metade para o final, quando arranjei um tempinho livre, e espero um dia reler a obra com o dobro de atenção aos (muitos) detalhes que eu porventura tenha perdido neste primeiro contato.

“Tal como em um dia de verão, as ondas se formam, se desequilibram e arrebentam; se formam e arrebentam; e o mundo todo parece estar dizendo "isso é tudo", de modo cada vez mais grave, até que mesmo o coração pulsando no corpo estendido na praia sob o sol também diz: isso é tudo. Não temas mais, diz o coração, lançando seu afrdo em algum mar, que suspira coletivamente por todas as mágoas, e renova, retoma, recolhe, deixa tombar. E unicamente o corpo ouve a abelha que passa; a onda que arrebenta; o cão que late ao longe, late sem parar. 'Céus, a campainha da entrada!', exclamou Clarissa, imobilizando a agulha”. (pg. 62)

Essa grande tapeçaria que mencionei lá em cima nada mais é que um recorte no tempo, sem começo, meio ou fim. Você já começa o livro, digamos assim, dentro da ação. E quando ele termina, a história ainda continua. Woolf faz o que muitas das autoras que a sucederam também fazem: pintar um quadro de um momento da realidade, um fragmento do cotidiano (algo que comentei quando falava de O Progresso do Amor, de Alice Munro). Não espere por plot twists, viradas súbitas de enredo ou uma conclusão definitiva para a trama ao final, pois não é esta a proposta. A narrativa e a trama aqui devem ser apreciadas em si mesmas, em um (digo novamente) momento de profunda reflexão e contemplação estética. Quando há momentos de quebra de expectativa, contudo, eles são poderosos – a visita de Peter Walsh a Clarissa após mais de vinte anos; um acesso de loucura (ou seria de profunda sanidade?) de Septimus perto do fim da trama, quando tudo parecia estar bem.

Outro ponto extremamente positivo são as personagens. Passando pela própria protagonista, até um mero passante na rua, todos são singulares e repletos de camadas, destrinchadas pouco a pouco. A autora, embora nem sempre possa desenvolvê-los até o final, deixa-nos uma curiosidade para sempre saber mais e mais sobre aquelas pessoas. A depressão de Septimus é tratada de forma digna (entre outros motivos, por Virginia sofrer, também, de depressão); o fanatismo religioso de Miss Killman, preceptora de Elizabeth, é mostrado como um mecanismo de defesa; e, talvez, o ponto que mais me tocou o coração fora o retrato da bissexualidade da própria Clarissa Dalloway. É fato que, em se tratando de representatividade LGBTI nas mídias de entretenimento, raramente encontramos personagens bissexuais com um tratamento de respeito – geralmente relegados a personagens “sem rótulos” ou excessivamente fetichizados. Virginia era, ela mesma, uma mulher bissexual, tendo mantido uma relação muito bonita com a também escritora Vita Sackville-West. E aqui vemos a delicadeza com que trata os sentimentos de Clarissa: embora casada e relativamente satisfeita com a vida que leva junto ao marido, ela relembra sua amizade de juventude com Sally Seton com um carinho profundamente romântico. Uma das cenas mais bonitas da obra é a lembrança do beijo trocado por ambas, vinte anos antes, durante o verão que passaram em Bourton:

“Sally parou; colheu uma flor; beijou-a nos lábios. Foi como se o mundo virasse de ponta-cabeça! Os outros haviam sumido; estava sozinha com Sally. E sentiu ter recebido um precioso presente, embrulhado, com a recomendação de que o guardasse sem olhá-lo – um diamante, algo extremamente precioso que, enquanto caminhavam (de um lado para o outro, de um lado para o outro), ela então desembrulhava, ou era trespassada pela radiância, pela revelação, pelo sentimento religioso!” (pg. 58)

Há de se ressaltar, ainda, que Mrs. Dalloway é um marco importante na literatura feminista pela diversidade e profundidade de suas personagens femininas, tão distintas e complexas entre si, perseguindo seus anseios e objetivos à maneira de cada uma.

A edição da Penguin-Companhia é muito bem feita (como já é do feitio), com fontes que não cansam a leitura e o prefácio que mencionei logo no início. O preço é bastante acessível, também – pude constatar, em uma pesquisa rápida, que não ultrapassa muito a faixa dos R$25. Assim, é uma boa opção para quem deseja se aventurar nesse mundo enigmático criada por uma das autoras mais importantes e geniais da literatura inglesa. Mrs Dalloway é, sem dúvida, um daqueles livros que, alguns anos após a primeira leitura, revela novos simbolismos ocultos a cada releitura. No mínimo, um livro de se reservar um tempinho da sua vida para ler ao menos uma vez.

“Porém, aprofundando mais, por baixo do que diziam as pessoas (e esses juízos, quão superficiais, quão fragmentários!), o que, agora em seu espírito, significava afinal isso para ela, essa coisa que chamava de vida? Oh, era bem estranho. Fulano de Tal estava em South Kensington; Sicrano em Bayswater; e alguém mais, por exemplo, em Mayfair. E, de maneira quase contínua, ela tinha consciência da existência separada deles; lamentava que fosse assim; sentia que seria ótimo se pudessem se reunir; e é por isso que fazia isso. Era uma oferenda; juntar, criar; mas para quem?
Uma oferenda pelo simples prazer de oferecer, talvez. Seja como for, esse era seu dom. Para ela, nada mais era assim tão importante; não conseguia pensar, nem escrever, tampouco tocar piano. Confundia armênios e turcos; adorava o sucesso; odiava o desconforto; necessitava ser apreciada; conversava bobagens sem fim; e, até hoje, se lhe perguntassem o que é o equador, não saberia dizer.” (pg. 150)


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Mrs. Dalloway (Mrs. Dalloway)
Autora: Virginia Woolf
Editora: Penguin-Companhia das Letras
Ano: 2017
Skoob: 4.1 Estrelas / Goodreads: 3.7 Estrelas
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05 Estrelas
Obra mais famosa de Virginia Woolf, Mrs. Dalloway narra um único dia da vida da famosa protagonista Clarissa Dalloway, que percorre as ruas de Londres dos anos 1920 cuidando dos preparativos para a festa que realizará no mesmo dia à noite. Pioneiro na exploração do inconsciente humano por meio do fluxo de consciência, Mrs. Dalloway se consagrou tanto pelo experimentalismo linguístico quanto pelo retrato preciso das transformações da Inglaterra do períodoentre guerras. Misto de romance psicológico com ensaio filosófico, este livro resiste a classificações simplistas e inaugura um gênero por si só. Precursor de algumas das maiores obras literárias do século XX, este romance é uma leitura incontornável que todo mundo deve fazer ao menos uma vez na vida.
Autora: Virginia Woolf era filha do editor Leslie Stephen, o qual deu-lhe uma educação esmerada, de forma que a jovem teria frequentado desde cedo o mundo literário. Em 1912, casou-se com Leonard Woolf, com quem funda, em 1917, a Hogarth Press, editora que revelou escritores como Katherine Mansfield e T.S. Eliot. Virginia Woolf apresentava crises depressivas. Em 1941, deixou um bilhete para seu marido, Leonard Woolf, e para a irmã, Vanessa. Neste bilhete, ela se despede das pessoas que mais amara na vida, e se mata de forma triunfante.

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