Resenha: Bile Negra - Oscar Nestarez

História com referências a teoria humoral, leva o leitor ao terror de uma mente aterrorizada por uma epidemia de .... Melancolia

fevereiro 20, 2018 - Postado Por: Redação SOODA
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História com referências a teoria humoral, leva o leitor ao terror de uma mente aterrorizada por uma epidemia de .... Melancolia




Criada na Grécia, pela chamada Escola de Kós. A Teoria Humoral esteve em alta, para explicar a saúde física e mental do homem, durante o período do século IV a.C. até o século XVII com o surgimento da Ciência Moderna. De acordo com ela, a saúde humana era regida por quatro humores, de acordo com cada fluído humano. O sangue rege o lado mais sentimental humano, o amor; O fleuma é responsável pela racionalidade, sensatez; A Bilis amarela desperta a coléra e; por fim, a Bilis Negra dá o tom a melancolia. Quando em desordem no organismo, o corpo começa ser acometido por várias doenças. Hoje, apesar de ser invalidada, do ponto de vista corporal, a ideia da teoria humoral ainda é objeto de estudo em algumas áreas do conhecimento, como a Psiquiatria.



Porém, e se A Bile Negra, responsável pela melancolia, entrasse em um estado de desordem e fosse responsável por uma epidemia? E se essa epidemia de depressão fosse causa da Bile Negra? E se isso fosse elevado na centésima potência? Oscar Nestarez utilizou a literatura do horror para se debruçar nesses E Se? E assim surgiu "Bile Negra", seu segundo romance publicado em livro físico, agora pela Editora Empíreo.

Na história conhecemos Vex, um personagem problemático, que acabara de passar por muitos traumas. Nada confiável, o protagonista é responsável por fazer o leitor caminhar por essa narrativa, quase sempre duvidando de tudo o que é relatado. Inicialmente, ele tentara voltar a sua vida normal com os seus amigos, sair à noite, em uma São Paulo, que por si só traga a melancolia para aqueles que lá moram. Alias, Nestarez uma vez relatou em uma palestra sobre terror e horror que eu tive a oportunidade de mediar, que a capital mais movimentada do país, também é propicia a esse status depressivo (não do ponto de vista patológico).

Porém, tudo começa a mudar quando amigos e pessoas próximas a Vex começam a ter surtos, o qual os olhos, de branco, tornavam-se negros. E fluídos negros começavam a sair por vários orifícios e pairavam sobre a cabeça. As pessoas acometidos por essa moléstia, acabavam ficando, essencialmente, de duas formas: Em estado catatônico, ou ainda, enlouqueciam totalmente, sendo quase impossível fazê-los parar.

Rapidamente, a epidemia se alastrou por São Paulo, e outras cidades no sul do país. Para tentar fugir desse pânico, o personagem bolou um plano de se esconder em uma área totalmente isolada do Sul do País. Mas essa epidemia relacionada a disfunção da Bile Negra tem limites de onde chegar? Ela atinge só os seres humanos? Do que mais ela pode ser capaz?



O TERROR E O HORROR PODEM IR LONGE

A história criada por Nestarez é criativa, com referências claras a Edgar Allan Poe e talvez em partes, por Kafka, além de pitadas daqueles filmes trashes dos anos de 1980. Porém, sua obra explora o conjunto dessas atividades, onde, podemos nos sentir enojados sobre algumas descrições, e mesmo assim, o medo também é pertinente na mente humana, onde se instala boa parte de sua obra.

A narrativa desse livro, apesar de curta, um pouco mais de 150 páginas, demanda de tempo do leitor para se acostumar. Até porque, ao longo da história o autor deixas pistas do que pode está acontecendo. E um leitor mais desatento pode acabar se perdendo, estragando assim um pouco de sua experiência com essa leitura.

Boa parte dos personagens presentes na obra, funcionam semelhante aos Filmes B de horror. Desaparecem e não deixam nenhum vestígio. Porém, alguns desses personagens tem um significado simbólico, extramente relevante para obra, especialmente àqueles que seguem viagem com Vex. E sobre eles, tenho duas ressalvas a destacar:



O CUIDADO COM A REPRESENTATIVIDADE

CG está presente na obra como uma cota importante para a representatividade. Porém, senti que inicialmente ele se imergiu no esteriótipo do gay promiscuo efeminado. Apesar, do respeito que o autor tentou ao colocar nessa obra. Na minha opinião, houve um escorrego. Afinal, dificilmente algumas atitudes que esse personagem fez ao longo dos primeiros capítulos é entregue a um personagem heteronormativo, e isso é um problema, porque reforça o esteriótipo já conhecido pelo público LGBT. Basta ver comentários do G1 sobre qualquer evento direcionado para esse público. Mais a frente o personagem melhora, mesmo assim, duvido que em outras circunstâncias essa melhora seria a mesma.

Outro problema para mim, foi a descrição de uma personagem feminina, próximo do capitulo 22 (ou 23), imerso aquele desejo carnal colocando alguns leitores em um anti - climax canalha. E não falo em relação a presença da personagem para história, reconheço a importância dela ali. Refiro-me ao modo que ela foi retratada. E vale ressaltar, nesse caso, que a narrativa em primeira pessoa não isenta o autor. Até porque, até aquele momento, nada justificativa a sexualização da personagem naquele ponto.

Óbvio, que nenhuma das duas ressalvas apontadas na narrativa tiram a relevância da história e nem o conteúdo apresentado. Porém, é bom deixar claro aqui, para que não haja surpresas durante a leitura.

Bile Negra é uma história que joga a nossa mente em um poço profundo de melancolia, no qual nós seremos responsáveis por cavar a saída, afinal de contar o terror é isso. Ele distorce a realidade e nos aprensenta das formas mais dolorosas possíveis, para que assim a gente consiga enxergar no fim do túnel uma possibilidade de nos torna-nos pessoas melhores.



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BILE NEGRA
Autor: Oscar Nestarez
Editora: Editora Empireo
Ano: 2017
Skoob: 4.3 Estrelas
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04 Estrelas
"Uma pandemia se espalha por bairros, cidades e países. Sorrateira, é causada por uma perigosa substância, que age como um verme que fatalmente conquista a vida do hospedeiro. E Vex, um jovem tradutor, precisa recrutar todas as suas forças para conte r este avanço. Com origem na Teoria Humoral segundo a qual o bom funcionamento de corpos e mentes depende do equilíbrio entre humores, o romance explora o excesso do mais saturnino deles: a bile negra, ou melancolia — do grego mélas (negro) e cholé (bile)."
Autor: Oscar Nestarez é paulista, pesquisador da literatura de horror, no qual já publicou diversos artigos. No campo da ficção, o autor já publicou diversas antologias e Bile Negra é o seu primeiro romance.

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