Resenha: Lembra Aquela Vez - Adam Silvera

Primeiro livro de Adam Silvera publicado no Brasil tem todos os elementos para ser um grande episódio de Black Mirror: Tecnologia que assusta, dramas humanos e representatividade

janeiro 12, 2018 - Postado Por: Francisco Neto
Compartilhe:

Primeiro livro de Adam Silvera publicado no Brasil tem todos os elementos para ser um grande episódio de Black Mirror: Tecnologia que assusta, dramas humanos e representatividade.




Uma das noticias mais assustadoras dos últimos dois dias foi a criação de um serviço de hipnose online, pela Samsung e HBO com objetivo de fazer o telespectador esquecer que assistiu a sua série favorita, possibilitando que ele assista de novo, como se fosse a primeira vez. Um serviço "legalzão" que se perpetuado pode causar danos significativos naqueles que usam. Algo que alguém diria "Isso é muito Black Mirror", no qual eu digo "Isso é muito Lembra Aquela Vez".

A história de Adam Silveira está longe de ser um futuro distópico, como a maioria dos episódios apresentados na série tecnológica. Porém, não deixa de ser alarmante. Na obra, o autor criou o instituto LETEO. Uma organização que desenvolveu uma técnica de esquecimento de memórias ruins. Ou seja, pessoas que sofreram algum trauma significativo em suas vidas podem simplesmente suprimir parte de suas vivências que trazem esses momentos infelizes. Uma mãe pode esquecer um filho assassinado, um filho pode não lembrar um parente que lhe praticou mal e assim sucessivamente.

Nesse contexto, conhecemos o Aaron, um jovem de 16 anos, morador do Bronx (Nova York) que após o suicídio de seu pai, atentou contra a sua própria vida. Depois de um tempo ele vem tentando superar todo esse trauma e tem a ajuda da sua amorosa namorada Genevive. Ambos, parecem que se dão muito bem e estão vivendo um namoro bastante "shippável". Além disso, como um tipico garoto da periferia, ele gosta de se juntar com um grupo de amigos para brincar até tarde. Ele é um jovem hétero, que todo mundo quer ser.

Porém, depois de uma viagem da sua namorada. Aaron se aproxima de um novo residente da área: Thomas. Um jovem, que parece não ter muito direcionamento na vida. Com o tempo, ele percebe que algo a mais está crescendo e vai além da amizade. Infelizmente esse amor não é correspondido. E com mais esse sofrimento, ele começa a perceber que existe algo de muito estranho em sua vida. Que as coisas não se encaixam do jeito que ele imagina. Por fim, o jovem leva uma surra dos seus antigos amigos, ele percebe o que aconteceu em sua vida.



O INSTITUTO LETEO

Criado por uma pesquisadora que teve um trauma da perda da irmã. O Instituto que já existe em várias partes do mundo, tem como objetivo estudar a memória humana do ponto de vista neurológico e psíquico. Como resultado desses estudos está a possibilidade dos profissionais do instituto manipularem a mente humana, a fim de suprimir memórias, criar outras, fazendo que as memórias ruins fiquem arquivadas em uma área do cérebro que não é acessível. Assim, as pessoas podem continuar a viver suas vidas sem aquelas dores.

A questão é que existe vários efeitos colaterais nessas pesquisas, um deles que ao esquecer alguns procedimentos, é necessários que várias memórias sejam apagadas, pois se uma delas for ativadas, pode acionar o desenrolamento de outras, que por fim causam o retorno do que havia sido esquecido. Só que em muitos casos, alguém sendo suprimidas os momentos felizes com determinadas pessoas. Por exemplo, durante o livro conhecemos o caso de um jovem, no qual o irmão gêmeo foi assassinado. Os pais o levaram para o procedimento do instituto. Porém, ele teve que esquecer que tinha o irmão. Assim, muitos momentos felizes também foram suprimidos.

Esse instituto leva o leitor à discussão sobre a importância da existência de memórias ruins. Afinal de contas, elas são experiências de nosso cotidiano. Apaga-las é como se estivesse suprimindo todas as falhas e dores que nos levaram a alguma felicidade. Isso por consequência acaba sendo prejudicial a nossa mente, que vive de experiências boas e ruins.



A REPRESENTATIVIDADE DA PERIFERIA E LGBTQ+

Acho que poucas vezes me senti representado em muitos aspectos como nessa obra. Primeiro, em relação ao cotidiano de periferia. Apesar de não ser nem próximo das favelas brasileiras, o Bronx é um dos lugares mais pobres de Nova York. Nessas áreas, ainda são comuns as crianças e adolescentes na rua, brincando, correndo, se espatifando no chão. É comum que quando se tem a primeira vez, o jovem chega com o amigo e conte, ou ainda as brigas sem sentido, entre uma rua e outra. Claro, parte dessa realidade mostrada não é tão bonita quanto é pintado sobre uma Megalópole como NY, a exemplo do tráfico de drogas, o amigo que provavelmente vai cair no mundo do crime, ou ainda, a gravidez na adolescência.

Outra coisa que não é tão bonito dessas periferias: Como os LGBTQ+ são tratados. As vezes, existe uma ideia que ser gay é ter que aguentar umas "piadas", e que ao bater de frente, é considerado "MIMIMI". O problema é que no interior dessas comunidades, a homofobia é bem longe da realidade dos privilegiados de classe média. Lá, quem possui uma orientação sexual diferente, apanha, corre o risco de sofrer assédio, e é bastante excluído de muitos grupos de amigos. Então, muitos preferem esconder que estão fora da heteronormatividade social. E isso está bastante claro na obra de Adam Silvera. É uma realidade crua, que precisa ser trabalhada e discutida, com o intuito de executar a ignorância. E com toda a certeza, brigas no facebook não serão responsáveis por essas mudanças.

CAPA E EDIÇÃO DA EDITORA ROCCO

Existem vezes que histórias não estão a altura das capas e diagramação. No caso de "Lembra Aquela Vez" arrisco dizer que essa é uma situação inversa. A capa e diagramação escondem uma grande história. Apesar, do projeto fazer sentido, com o uso de "pichações" sobre o cérebro. Acredito, que está longe de mostrar e atrair o público para a obra. Talvez isso tenha impactado direto sobre a questão da obra não ter ganhado um "hype", como nos Eua, ou até mesmo, o livro "Simon Vs. a Agenda Homo Sapiens" escrito pela grande amiga de Adam Silvera, Becky Albertalli.



NARRATIVA E FINAL AGRIDOCE

Lembra Aquela Vez é daquelas histórias que tem uma narrativa que vai te ganhando aos poucos. Aqueles leitores que se incomodam com um inicio mais lento, talvez não tenha tanto apreço. Porém, com o tempo a história vai entregando o que promete, ou até mais, montando as peças, as quais vão ganhando um sentido enorme. Apesar, de uma narrativa jovem, as discussões são válidas para todos. Seja do ponto de vista dramático, ou da ficção cientifica. Adam Silvera construiu uma obra, que se interliga formando uma teia imensa que se mantem impregnada após a leitura.

Ao chegar ao final da história, que talvez seja longe do que muitos esperam. A história finaliza com um momento bem dolorido, mas que tem um docinho que te dá uma sensação de esperança, mostrando, que nem sempre tudo precisa está bem, para as coisas serem absolutamente felizes. E que acima de tudo, se estão bem com as pessoas ao nosso redor, ok, já podemos ter os nossos finais felizes.

A estreia de Adam Silvera foi simplesmente marcante e agora ele tem muito trabalho pela frente para continuar nos mostrando a sua voz. E a nós leitores, somente nos resta se deliciar e se apaixonar por cada obra que ele se propõe a escrever. Após finalizar esse livro, fui correndo até a livraria para comprar A História é Tudo que me Deixou, segundo livro do autor lançado no Brasil, e terceiro livro da sua carreira. E com certeza estou ansioso para a chegada de outras obras dele por aqui. Ele com certeza é a voz LGBTQ+ que precisávamos.


Ficaram interessados? Adquira o livro clicando na capa acima, e ajude esse lindo blog a crescer!
Lembra Aquela Vez (More Happy Than Not)
Autor: Adam Silvera
Editora: Rocco (Selo Rocco Jovens Leitores)
Ano: 2017
Skoob: 4.4 Estrelas / Goodreads: 4.0 Estrelas
Compre Aqui: Amazon, Saraiva, Submarino
05 Estrelas
Aos 16 anos, Aaron carrega no pulso uma cicatriz que registra a dor pelo suicídio do pai, mas, com o apoio da mãe e da namorada, Genevieve, está determinado a seguir em frente. Quando a garota viaja para um acampamento, porém, Aaron se aproxima de Thomas, e acaba encontrando nele mais do que um melhor amigo. Confuso, Aaron considera recorrer ao LETEO, um instituto que realiza procedimentos científicos para apagar memórias indesejáveis, na tentativa de esquecer lembranças ruins e, principalmente, quem ele é. Mas será possível encontrar a felicidade fugindo de si mesmo? Com uma narrativa pungente e sincera, Adam Silvera fala sobre bullying, homofobia, medo, incertezas, ética, amizade, amor, aceitação e a procura pela felicidade.
Autor: Adam Silvera nasceu e cresceu no Bronx. Ele era livreiro antes de entrar no ramo editorial infantojuvenil, e já trabalhou em uma empresa de desenvolvimento literário, um website de escrita criativa para adolescentes e como crítico de romances infantojuvenis e de jovens adultos. Ele é alto, por nenhum motivo aparente, e mora na cidade de Nova York.

Comente com o Facebook