Resenha: Dias de Despedida - Jeff Zentner

Um livro que apresenta os perigos de dirigir e usar o celular. Além da dor, culpa e medo daqueles que ficam

janeiro 04, 2018 - Postado Por: Francisco Neto
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Um livro que apresenta os perigos de dirigir e usar o celular. Além da dor, culpa e medo daqueles que ficam




Dor: Uma experiência sensitiva que provoca incômodo. Que nos expõe e nos torna vulneráveis.

Culpa: Um sentimento de reprovação que fazemos a nós mesmo ou ao outro.

Medo: É um estado sensitivo que nos alerta dos perigos que nos cercam.

Se eu pudesse resumir em três palavras Dias de Despedida de Jeff Zentner, seria: Dor, Culpa e Medo.

A história de Carver é fictícia, mas poderia muito bem ser real. Na verdade, ela não deixa de ser um espelho de fatos que podem acontecer no dia-a-dia. Ele fazia parte de um grupo de amigos, a Trupe do Molho (fez eu me lembrar que na escola fazia parte do grupo que era chamado de "The Blacks"). Até que um dia, a seguinte mensagem de texto mudaria tudo: "Cadê Vocês? Me Respondam".

Ela foi enviada para Mars, o jovem que mais rápido respondia as mensagens. Porém, isso não aconteceu dessa vez. Ele até tentou. Mas, antes de terminar a resposta, houve um acidente. O carro em que estava a trupe do molho atingiu um caminhão. Os três jovens morreram. Mars era o motorista que perdeu a atenção, assim que o celular vibrou. Ele não imaginou que ao mexer no aparelho, aumentaria em 400% a chance de um acidente. Que ao teclar as primeiras palavras, colocaria em risco todos que estavam no carro, mais que uma pessoa embriagada. Mas aconteceu. O que vem depois é devastador.



CARVER, UM JOVEM QUE PRECISA LIDAR COM PERDA, CULPA E MEDO. AO MESMO TEMPO

O jovem Carver está em uma situação muito delicada. Ele perdeu seus três melhores amigos. Ficou "quase sozinho", sem um suporte, sem chão. Quase como se cada um desses jovens da Trupe do Molho fossem uma viga que sustenta o Prédio da Vida. três vigas caíram e agora só a do Carver está de pé. E está difícil de segurar sozinho.

Soma-se a isso, ao sentimento de culpa de ter mandado a mensagem "que pode ter desencadeado" o acidente. A irmã de Eli acha isso. O pai de Mars também. Ou seja, culpa e dor se complementam na história e o corroem dia após dia.

Para completar, o pai de Mars forçou a promotoria a investigar o caso e considerar como "homicídio negligente". Ou seja, existe a possibilidade de Carver ir preso pelo acidente ocorrido. Medo se une a dor e culpa fazendo o universo de Carver desmoronar. Um jovem de dezessete anos está enfrentando muita coisa, por enviar "Cadê Vocês? me respondam".



COMO SAIR DO FUNDO DO POÇO?

Dias de Despedida é uma história sobre como lidar com sentimentos tão conflitantes, dolorosos que atingem após a morte de pessoas tão próximas. Carver precisa de ajuda, mesmo que ele recuse. Está tendo ataques de pânicos e não consegue seguir em frente. Parece que tudo o puxa para um sofrimento sem fim. E nesse processo, família, amigos e uma ajuda profissional são importantes.

Além dele, os familiares dos jovens mortos estão sofrendo bastante. E agem de maneiras bastante distinta. A vó de Blake tenta ser mais compreensiva, entender que Deus "chamou" o seu neto para viver no céu com ele. E também ajuda Carver a superar os sentimentos conflitantes nele. Ela pede para o jovem, "um dia de despedida". Ou seja, um momento entre ela e o Carver, para que eles vivencie um momento como se estivessem com Blake. Isso acaba sendo muito terapêutico, no caso dela.

Já os pais de Eli, e o pai de Mars agem mais agressivos, e nesse caso "O Dia de Despedida" pode ser mais conflitante, do que com a avó de Blake. E Carver precisou de muita força para vivenciar esses dois dias. E até mesmo um pouco de coragem. Em memória de seus amigos.

Outra personagem bastante significativa para a história é Jesmyn, a namorada de Eli. Apesar de estar há pouco tempo com ele. Ela sentiu fortemente o impacto de perder o namorado de forma tão brutal. E junto com Carver ela o ajuda a superar essa frase intensa. Conversar nesse momento ajuda muito.



MEMÓRIAS PARA SUPERAR MOMENTOS DIFÍCEIS

Apesar de ser uma fase bastante dolorosa, os pensamentos de Carver leva os leitores para os momentos felizes da Trupe do Molho. É possível conhecer Um Blake totalmente descontraído, cheio de piadas e ações que divertem a todos. Ou ainda, a sobriedade de Mars que tinha fortes objetivos traçados. E também, a alma mais leve de Eli que balanceia esse grupo. Eles acabam se tornando, um dos melhores grupos de amigos que podemos conhecer em uma história de YA. A amizade e cumplicidade dos quatros jovens é bem significativa.

A diversidade, é também um tema explorado pelo autor, com muito cuidado. Seja pela homosexualidade por um dos personagens, ou ainda a questão racial que é colocada em discussão. E também, a força de uma personagem que se recusa a ser vista como "prêmio" de alguém. Três personagens, três temas que estão na história e são bastante importantes para os dias de hoje.

É possível também ver no texto, o cuidado que o autor teve em construir a sua narrativa. Forte, com momentos intensos, muitas vezes fluídos. E também uma delicadeza, no qual é possível parar um pouco a leitura para se debruçar em determinados pontos. Olha só algumas frases que separamos dessa história, que são muito significativas:

"Engraçado como as pessoas passam por esse mundo deixando pedacinhos de sua história para que as pessoas que conhecem carregarem". P. 72


"Há vida por toda a parte. Pulsando, zunindo. Uma grande roda que gira. Uma luz que se apaga aqui, outra substitui ali. Sempre morrendo. Sempre vivendo. Sobrevivemos até não não sobrevivermos mais. Todos esses fins e começos são a única coisa realmente infinita". P. 91


"Este dia aguçou tudo o que eu vinha sentindo nas últimas semanas. A Culpa. O luto. O medo. Afiou esses sentimentos até ficarem cortantes e ardentes. Mas, por outro lado, tirou um pouco daquela pontada e a substituiu por uma sensação pesada de ausência. Enquanto o luto é um sentimento mais ativo - um processo de negociação -, a ausência parece o luto com uma dose de aceitação.". P. 203


"Nossa mente busca causa e efeito porque isso sugere uma ordem no universo que talvez não exista, mesmo se você acreditar em algum poder superior." P. 239


Dias de Despedida nos ajuda a compreender que o luto é inevitável, que o melhor a ser feito é aprender a lidar com ele. Sem uma fórmula pré-fabricada, que os sentimentos que vão surgindo é que vão direcionar o melhor caminho a seguir.

Se vocês quiserem conhecer mais um pouco sobre o autor, acesse aqui e confira a entrevista que fizemos, um pouco antes do lançamento dessa história.

Dias de Despedida (Goodbye Days)
Autora: Jeff Zentner
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2017
Skoob: 4.0 Estrelas / Goodreads: 4.24 Estrelas
Compre Aqui: Amazon, Saraiva, Submarino
04 Estrelas
"Cadê vocês? Me respondam." Essa foi a última mensagem que Carver mandou para seus melhores amigos, Mars, Eli e Blake. Logo em seguida os três sofreram um acidente de carro fatal. Agora, o garoto não consegue parar de se culpar pelo que aconteceu e, para piorar, um juiz poderoso está empenhado em abrir uma investigação criminal contra ele. Mas Carver tem alguns aliados: a namorada de Eli, sua única amiga na escola; o dr. Mendez, seu terapeuta; e a avó de Blake, que pede a sua ajuda para organizar um “dia de despedida” para compartilharem lembranças do neto. Quando as outras famílias decidem que também querem um dia de despedida, Carver não tem certeza de suas intenções. Será que eles serão capazes de ficar em paz com suas perdas? Ou esses dias de despedida só vão deixar Carver mais perto de um colapso — ou, pior, da prisão?
Autor: Jeff Zentner é um autor norte americano que mora em Nashville e começou a sua carreira criativa, como compositor de músicas. Em 2016 lançou seu primeiro livro "The Serpent King" que será lançado ainda esse ano pela Editora Seguinte. E mais tarde lançou "Goodbye Days" que foi lançado no Brasil como "Dias de Despedida". O autor também morou dois anos na região Amazônica e fala português fluentemente.

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