Senhor das Moscas e a luta pela sobrevivência na ficção

Descrevendo o mais baixo do ser humano através de um grupo de crianças, a obra de William Golding cria um legado para títulos mais modernos.

dezembro 11, 2017 - Postado Por: Clara Gianni
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Descrevendo o mais baixo do ser humano através de um grupo de crianças, a obra de William Golding cria um legado para títulos mais modernos.




Senhor das Moscas é uma daquelas obras das quais todo mundo já ouviu falar só pelo nome - eu mesma passei tanto tempo ouvindo a respeito que já imaginava o que encontraria quando iniciasse a leitura. Trata-se de um livro cuja narrativa, a princípio, não nos deixa suspeitar ser um dos mais influentes da cultura popular; a despeito de ter sido publicado em 1954, guarda grande relação com romances mais recentes, como as distopias YA (young adults) que fizeram um moderado sucesso já há algum tempo.

O contexto é o fim da Segunda Guerra Mundial, em que um grupo de garotos britânicos, estudantes de um colégio interno, é abandonado em uma ilha deserta após um naufrágio durante a viagem que deveria transportá-los a um local seguro. Aos poucos, somos apresentados às crianças: conhecemos o garotinho loiro, Ralph; o rapaz ruivo altivo, líder do grupo de coral da escola, Jack Merridew; o menino rechonchudo, sempre acompanhado de seus óculos de grau, apelidado de Porquinho do início ao fim da trama. Há outros garotos mais velhos espalhados pela praia, além de meninos mais novinhos, entre quatro e seis anos, chamados de “pequenos”. Carismático, Ralph assume uma posição de liderança, ao convocá-los todos através do toque de uma concha encontrada numa das lagunas espalhadas pela beira da praia – seu jeito assertivo passa segurança às demais crianças, que o elegem “democraticamente” como líder (no estrito sentido de “maioria de votos”).

Conforme se dá a repartição de tarefas – manutenção de uma fogueira para que a fumaça atraia socorro, coleta de frutas, caça aos porcos do local em busca de carne –, contudo, crescem as divergências entre os meninos, encabeçados pelo próprio Ralph (que busca manter a coesão grupal e ainda possui esperanças de que um resgate venha salvá-los) e Jack, acompanhado dos garotos do coral (que, tendo descoberto a diversão de ser caçador, é tomado por ímpetos cada vez mais brutos). Acompanhamos a tensão entre ambos até que esta alcance as vias do insuportável durante os últimos capítulos – e, como já se espera de obras deste filão, revele verdades nojentas e desconfortáveis acerca da natureza humana, mesmo que através do comportamento de um grupo de crianças.

"O mundo, aquele mundo compreensível e obediente à lei desmoronava. Primeiro era uma coisa, depois outra; e agora – o navio tinha passado". (pg. 101)

A narrativa é repleta de simbolismos. A tríade de protagonistas possui seus respectivos arquétipos: Ralph pode ser imaginado como o espírito de liderança, ou “democracia”, em que Porquinho, por sua vez, é a sabedoria ignorada (tal qual Cassandra nas tragédias gregas, é condenado a conhecer a verdade e a jamais ser escutado), e Jack, por fim, personifica a força bruta dos regimes totalitaristas dos quais a Europa ainda se recuperava no pós-Guerra. A semelhança mais notável é com o fascismo: as crianças passam a ter medo de uma criatura indistinta conhecida apenas como “o Bicho”, medo este do qual Jack se vale para exercer seu poder e ofertar segurança e carne fresca obtida por seu bando de caçadores – mais ou menos da mesma forma que tais regimes se utilizavam de um temor irracional para ganhar força em tempos de instabilidade política, criando um “inimigo comum”. Um de meus personagens favoritos, contudo, não está entre estes três: é o menino esquizofrênico Simon, que representaria o saber místico e religioso paralelo aos jogos de poder, remontando à figura dos profetas do antigo testamento. Seu papel é importante para que entendamos quem exatamente é o “senhor das moscas” que dá título ao livro.

O livro em si é uma espécie de desconstrução de outro, The Coral Island, de R. M. Ballantyne. Trata-se de uma narrativa igualmente pautada em um grupo de garotos perdidos em uma ilha deserta. É pintada com ares heroicos e idílicos por seu protagonista, Ralph Rover, rememorando lembranças do passado – a semelhança entre nomes não é mera coincidência. Se na narrativa de Ballantyne há romantismo e saudosismo exagerados na caracterização de seus protagonistas – rapazes brancos, heterossexuais e, acima de tudo, portadores de todas as virtudes associadas ao ideal europeu judaico-cristão civilizado –, Golding decompõe a psiquê de cada um de seus personagens, meninos igualmente brancos e “civilizados”, para questionar a pretensa superioridade do homem britânico (homem mesmo, no sentido particular do termo) frente a outras culturas e comportamentos. Os meninos repetem de tempos em tempos “Somos ingleses!” como uma motivação para a sobrevivência e superação diante do desconhecido e, no entanto, quando se entregam ao descontrole e à histeria, tornam-se a caricatura dos povos “selvagens” e “primitivos” que tanto temem. Entender Senhor das Moscas é essencialmente entendê-lo como a oposição da narrativa preexistente em The Coral Island, embora a esta não se limite.

Não estamos lidando com heróis virtuosos, mas com garotinhos egoístas, que choram de fome e cansaço ao fim do dia, brincam na praia quando deviam abastecer mantimentos e, acima de tudo, são facilmente conduzidos aos ímpetos de barbárie e destruição, seja por influência alheia – o famoso “comportamento de manada”, ou conduta gregária –, seja por desejo próprio. O autor não nos poupa da violência de suas descrições, ainda que seus personagens não contem mais que treze anos – ou justamente por isso: conforme a trama avança, é possível compreender nas crianças pequenas e nos jovens a semente do mundo adulto corrompido.

Penso eu que retratar a luta pela sobrevivência justamente entre crianças é efetivo na medida em que William Golding não apenas critica a ideia de que o ser humano seja uma criatura inerentemente virtuosa, como também questiona o ideal de pureza infantil frente à corrupção advinda do crescimento. Em Senhor das Moscas, o potencial humano de destruição não necessita esperar a idade adulta para se manifestar – ele sempre esteve conosco, desde a infância, pronto para emergir. O texto é chocante porque, diferentemente de outras histórias, as personagens se comportam e conversam da mesma forma simples com que crianças de fato interagem entre si na vida real, o que torna seus atos de brutalidade ainda mais difíceis de digerir: eles vêm de meninos comuns.

"O céu negro foi rasgado por uma cicatriz azul-esbranquiçada. Dali a um instante, o som desabou sobre eles como a chicotada de um açoite gigantesco. O canto adquiriu um tom de maior agonia. 'Mata o monstro! Corta a goela! Espalha o sangue!' Agora, do terror, emergia outro desejo, denso urgente, cego. 'Mata o monstro! Corta a goela! Espalha o sangue!'" (pg. 166)

Discussões sobre a natureza humana corrompida não são recentes, e uma das mais conhecidas é aquela encabeçada por Thomas Hobbes e seu estado de natureza no livro O Leviatã. Falar sobre Hobbes e a famosa frase “O homem é o lobo do próprio homem” parece até um pouco óbvio e evidente por si mesmo, mas o que o destaca das abordagens anteriores é ser um dos primeiros pensadores modernos a imaginar o ser humano como uma criatura autointeressada e com desígnios próprios que não sejam a busca pela virtude e o bem comum - o que posteriormente levará demais teóricos a questionar se existe de fato um bem comum, mas isso é outra história.

A questão é que já não era possível se desvencilhar dessa noção (um tanto quanto pessimista) de natureza humana sem reelaborá-la ou refutá-la em outras teorias. E a noção hobbesiana nos persegue, mesmo com novas teorias, não apenas no meio acadêmico, mas também na cultura popular. O precedente que Senhor das Moscas nos traz é subverter a natureza infantil na incorporação deste novo “estado de natureza”, algo que aparecerá em outras mídias mais recentes, notadamente Battle Royale (BR) e Jogos Vorazes (THG).

Dentre os dois, o segundo é, sem dúvida, o mais conhecido, principalmente em virtude de suas adaptações hollywoodianas bem sucedidas. Ainda que o foco da trilogia (composta pelos livros Jogos Vorazes, Em Chamas e A Esperança) se volte a uma escala mais “macro”, quer dizer, ao regime político vivido, Suzanne Collins dá o pontapé inicial da trama ao pretender narrar a luta pela sobrevivência – em uma de suas entrevistas, a autora conta que a ideia para os livros surgiu enquanto zapeava os canais, entre um reality show envolvendo jovens e filmagens de bombardeios de guerra; seu pai é, inclusive, veterano das guerras da Coreia e do Vietnã, à semelhança do próprio William Golding, veterano da 2a Guerra. O plot é conhecido: após guerras e desolação, a América do Norte dá lugar à potência de Panem, composta por treze distritos, comandada diretamente pela Capital. Seguindo-se à rebelião (e destruição) do 13o distrito, os demais se submetem aos Jogos Vorazes, reality show no qual dois jovens de cada distrito, meninas e meninos entre doze e dezoito anos, serão selecionados e enviados a uma arena projetada para que ali lutem até que reste apenas um sobrevivente. Através da protagonista, Katniss Everdeen, observamos crianças e adolescentes fugirem, firmarem alianças e, acima de tudo, matarem. Tudo em prol da autopreservação.

O primeiro diz respeito a um livro lançado em 1999 por Koushun Takame, tendo gerado um filme e uma adaptação em mangá, ambas em 2000. A história se situa em um Japão totalitário (parte da República da Grande Ásia Oriental), em que um dos mecanismos empregados para controle e opressão da população se chama “o Programa”, consistindo na seleção aleatória de uma turma do 9o ano de alguma escola secundária do país. Aqui, os jovens também serão encaminhados a um local deserto para que lutem até a morte e sobreviva apenas um. Muito se fala acerca de Jogos Vorazes ser um plágio desta premissa, mas acredito que cada um parte de observações distintas acerca de um mesmo objeto. Enquanto THG se preocupa em retratar a luta pela sobrevivência em relação ao governo que a promove – e como esta funciona como ferramenta de desinformação e manipulação das massas através dos meios de comunicação –, BR se debruça sobre as histórias de vida de cada um dos participantes, principalmente dos protagonistas Noriko Nakagawa e Shuya Nanahara, embora todos possuam um espacinho. Aproxima-se um pouco de Senhor das Moscas no sentido de que, como no início deste último, em BR temos relações prévias entre os participantes – os garotos isolados na ilha estudavam no mesmo colégio interno; enquanto que os jovens de BR fazem parte da mesma turma. O fio condutor que une as três obras, contudo, é o mesmo: mostrar a chacina de crianças por outras crianças como um reflexo do intrínseco potencial humano de destruição.

Na esteira dessa dobradinha juventude + sobrevivência, ainda vale citar livros como The Long Walk – escrito por Stephen King quando novo – e, mais recentemente, as séries de livros Gone e The Maze Runner, entre as já citadas obras YA distópicas nas quais o sujeito ativo, isto é, aquele que simultaneamente sofre e inflige dor, é o jovem. Ainda que seja possível tecer diversas ressalvas sobre como algumas destas obras acabam por criar protagonistas e pares românticos idealizados à imagem do público leitor – repetindo o círculo vicioso de The Coral Island – é notável a influência indireta que Senhor das Moscas exerce sobre as mesmas.

Junto a outros títulos como O Apanhador do Campo de Centeio, a obra de William Golding abre espaço para que os jovens, crianças e adolescentes tornem-se sujeitos de suas próprias histórias, criaturas tão complexas quanto os próprios adultos que virão a se tornar um dia. Para bem ou para mal.


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O Senhor das Moscas (Lord of the Flies)
Autor: William Golding
Editora: Alfaguara
Ano: 1954/ 2017 (reedição)
Skoob: 4.2 Estrelas / Goodreads: 3.6 Estrelas
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04 Estrelas
Publicado originalmente em 1954, Senhor das Moscas é um dos romances essenciais da literatura mundial. Adaptado duas vezes para o cinema, traduzido para 35 idiomas, o clássico de William Golding — que já foi visto como uma alegoria, uma parábola, um tratado político e mesmo uma visão do apocalipse — vendeu, só em língua inglesa, mais de 25 milhões de exemplares. Durante a Segunda Guerra Mundial, um avião cai numa ilha deserta, e seus únicos sobreviventes são um grupo de meninos em idade escolar. Eles descobrem os encantos desse refúgio tropical e, liderados por Ralph, procuram se organizar enquanto esperam um possível resgate. Mas aos poucos — e por seus próprios desígnios — esses garotos aparentemente inocentes transformam a ilha numa visceral disputa pelo poder, e sua selvageria rasga a fina superfície da civilidade, que mantinham como uma lembrança remota da vida em sociedade.
Autor: William Golding é um escritor britânico, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1983. Golding é autor de romances, poemas e peças de teatro. Publicou seu primeiro romance, O Senhor das Moscas (Lord of the Flies) em 1954, alcançando grande sucesso em diversos países. Outros romances de sua autoria foram Os Herdeiros (The Inheritors, 1955) e Ritos de Passagem (Rites of Passage, 1980). Sua obra aborda principalmente temas de sobrevivência em situações adversas, marcadas por isolamento e fragmentação da sociedade. Golding foi muito prestigiado ainda em vida, recebendo, além do Prêmio Nobel, o Booker Prize de 1980 e sendo ordenado cavaleiro pela Rainha Elizabeth II em 1988. Morreu em 1993.

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