Resenha: O Melhor Que Podíamos Fazer - Thi Bui

Um tributo para todo o esforço e as dificuldades que os pais passam ou passaram pelos filhos.

dezembro 06, 2017 - Postado Por: Thyago Costa
Compartilhe:

Um tributo para todo o esforço e as dificuldades que os pais passam ou passaram pelos filhos.




"Será que nossos pais alguma vez nos olharam e se sentiram meio... desapontados? Expectativas tão grandes e tantas possibilidades de quebrá-las. E ainda que tenham trazido a gente para longe do lugar de sua dor, algumas sombras se estenderam, projetando uma melancolia cinzenta sobre nossa infância. Evocando uma escuridão que não entendíamos, mas que podíamos sempre sentir."

Vocês já perguntaram aos seus pais sobre as vidas deles? Sobre as dificuldades que tiveram? Sobre seus sonhos e medos? Essas e tantas outras perguntas muitas vezes morrem na garganta dos filhos, uma morte que causa a distância e o atrito familiar. Nossos pais geralmente possuem entendimentos sobre o mundo que achamos antiquados, ações que visam nos proteger, mas causam tristeza; e palavras (ou a falta delas) que nos fazem caminhar para mais longe de suas asas. Mas qual seria o motivo de todas essas atitudes? Bom, em um mundo com milhares de histórias similares, essa não é uma pergunta de uma única resposta, e por isso Thi Bui nos dá sua resposta, com delicadeza e lágrimas nas páginas de O Melhor Que Podíamos Fazer.

Thi Bui nasceu no Vietnã em 1975, e imigrou para os EUA com sua família em 1978, quando ainda era uma pequena criança. Na sua nova vida sonhou ser advogada, e por isso estudou Direito e Artes, porém acabou se tornando professora na rede pública de ensino. Seu desejo em escrever sobre a história de sua família e da fuga da Guerra no Vietnã começou em 2002, mas foi em 2005 que a ideia para uma graphic novel surgiu e, com isso, uma obra única e bela.



A história começa em 28 de dezembro de 2008, no parto do filho de Thi. Ela é a narradora e nos mostra toda a dor, o medo e a angústia que estavam presentes com ela naquele momento, ela nos mostra a violência que sofreu dos médicos no parto, com empurrões na barriga e pressões psicológicas. Vemos uma jovem mãe sendo posta para levantar e andar para o próprio quarto, minutos após ter o filho. Somos arremessados em uma narrativa crua, vemos a força de uma mulher movida pelo amor ao filho, passando por tantas provações. E após as coisas se acalmarem, Thi nos fala sobre sua mãe e entendemos que o que ela passou nas últimas horas fora pequeno perto do que seus pais passaram na vida toda.

A partir desse momento começamos a descobrir sobre o passado de sua vida, junto com a própria Thi Bui, pois a obra trabalha como um diário de pesquisa e relatos, coletando memórias de seus pais em entrevistas. A história então mescla o passado e o presente numa linha de tempo linear até metade do quadrinho, e depois começa a costurar as partes de maneira totalmente eficaz.

"Eu cresci com o menino aterrorizado que se tornou meu pai. Com medo do meu pai, ansiava por segurança e conforto, não fazia ideia de que o terror que eu sentia era apenas a sombra do que ele tinha vivido".

Thi tinha um relacionamento distante com o pai, Nan. E o ponto de partida para uma aproximação era saber sobre seu passado. Nan narra a infância triste e cheia de lágrimas na qual convivia com a violência do pai e ao mesmo tempo que tentava sobreviver num país em guerra, dormindo no frio e passando fome. Uma criança... apenas uma criança se sentindo odiada, sem um pingo de amor.



A mãe de Thi se chama Hang e teve uma educação de qualidade em boas escolas. Era uma garota muito inteligente e esforçada, mas não tinha o carinho dos pais. Se por uma parte a infância de Hang pareceu menos sofrida do que a de Nan, a vida adulta ao lado dele se mostrou uma verdadeira provação. Hang e Nan tiveram seis filhos, e todas as gravidezes foram grandes testes de resistência e amor. A Guerra do Vietnã fez a vida do casal ser mais problemática e a vida no país não era mais segura. Sendo assim, Hang e Nan junto com os filhos apostaram em uma nova vida nos EUA.

"Já não sou mais criança... sou? Ter um filho certamente me ensinou que não sou o centro do universo. Mas ser filha, mesmo crescida, é como ter uma licença para ser egoísta por toda a vida. Sempre nos ressentimos do que nossos pais fizeram com a gente, ou das coisas que não fizeram para a gente. E, no meu caso, os chamamos pelo nome errado".

Durante toda a narrativa coletamos todos os fragmentos do passado da família de Thi, dos seus medos e de seus sonhos. Vemos a preocupação de Thi em não passar um trauma para o filho, e principalmente no entendimento do porquê seus pais serem tão distantes e indiferentes. Às vezes o amor é camuflado por um mar de lágrimas passadas que afogam nossos sentimentos.



A arte de Thi Bui é delicada e detalhada, com quadros pretos e brancos pincelados em parte por uma aquarela viva e forte em tons vermelhos. Uma das coisas mais curiosas do trabalho da artista é a utilização específica dessa cor, pois dos vários significados para ela no Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier, destaca-se a representação da vida e da morte, do nascimento e da violência, da sobrevivência e da guerra. Uma cor forte para acompanhar relatos tão fortes quanto.

"Costumava pensar que a história misturou a vida dos meus pais com a poeira de uma explosão catastrófica que penetrou a pele deles e se tornou parte de seu sangue. Que, sendo filha do meu pai, eu também era um produto da guerra e sendo filha da minha mãe, nunca estaria à altura dela. Mas talvez ser filha deles signifique simplesmente que sempre vou sentir o peso do passado. Nada do que aconteceu faz de mim especial, mas minha vida é um presente grande demais, uma dívida que nunca poderei pagar. [...] O que me preocupou desde que tive meu filho foi o medo de lhe passar algum gene do sofrimento ou involuntariamente lhe causar danos que nunca poderia desfazer. Mas quando olho agora para meu filho de dez anos, não vejo guerra e perda, nem mesmo Travis nem a mim. Vejo uma nova vida, ligada a minha quase por coincidência, e acho que ele talvez possa ser livre".

Com um roteiro bem construído e uma arte tocante, a obra de Thi Bui consegue a transcendência para a vida do leitor, que é a maior dádiva que uma obra pode nos dar. Thi Bui nos faz abrir os olhos para as pessoas que muitas vezes fizeram tudo por nós e que estão ao nosso lado com amor. Ela também nos faz abrir os olhos para o número de imigrantes que sofreram e sofrem quando a única opção possível parece ser fazer de outras terras seu novo lar. Sofrimento alimentado por governos que constroem muros ao invés de derrubá-los.


Ficaram interessados? Adquira o livro clicando na capa acima, e ajude esse lindo blog a crescer!
O Melhor Que Podíamos Fazer (The Best We Could Do)
Autor: Thi Bui
Editora: Nemo
Ano: 2017
Skoob: 4.6 Estrelas / Goodreads: 4.3 Estrelas
Compre Aqui: Amazon, Saraiva, Submarino
05 Estrelas
Esta é uma história sobre a busca por um futuro melhor e saudosismo pelo passado. Explorando a angústia da imigração e os efeitos duradouros que o deslocamento tem sobre uma criança, Bui documenta a difícil fuga de sua família após a queda do Vietnã do Sul, na década de 1970, e as dificuldades que enfrentaram para construir uma nova realidade. O melhor que podíamos fazer traz à vida a jornada de Thi Bui em busca de compreensão e fornece inspiração a todos aqueles que anseiam por um futuro melhor enquanto recordam o passado de privações.
Autor: Thi Bui nasceu no Vietnã e imigrou para os Estados Unidos ainda criança. Estudou Arte e Direito e considerou se tornar uma advogada de direitos civis, mas, em vez disso, virou professora de escola pública. Bui mora em Berkeley, Califórnia, com o filho, o marido e a mãe. O melhor que podíamos fazer é sua primeira graphic novel.

Comente com o Facebook