Resenha: Guanabara Real: A Alcova da Morte - Enéias Tavares, Nikelen Witter e A. Z. Cordenonsi

Vapor, fumaça, intrigas e magia negra se misturam na paisagem carioca da Primeira República.

dezembro 18, 2017 - Postado Por: Clara Gianni
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Vapor, fumaça, intrigas e magia negra se misturam na paisagem carioca da Primeira República.




Já adianto que me empolguei bastante só de ler a sinopse de Guanabara Real: A Alcova da Morte. A Editora Avec (pela qual o livro foi publicado), relativamente recente no mercado, tem trazido títulos nacionais interessantíssimos de literatura fantástica, dando uma cara mais familiar a gêneros que sempre estamos acostumados a imaginar como algo de fora, como a ficção científica, o horror e a fantasia. No caso de A Alcova da Morte, é o steampunk – subgênero da Ficção científica que incorpora tecnologia avançada (geralmente movida a vapor) a um contexto vitoriano/Belle Époque. Assim, a ideia de um trio de investigadores particulares desvendando um misterioso assassinato ambientado em um Rio de Janeiro retrofuturista em fins de século XIX me fisgou na hora.

A trama se passa em 1892, no contexto pós proclamação da república. O país tem caminhado rapidamente rumo ao progresso urbano, científico e tecnológico, o que se deve principalmente aos investimentos da misteriosa figura do Barão do Desterro (uma espécie de upgrade do Barão de Mauá). Para celebrar estes avanços – que têm repercutido principalmente na capital, Rio de Janeiro –, o Barão decide presentear a Cidade Prodigiosa com um monumento de gigantescas proporções, situado no Corcovado. Durante sua inauguração, contudo, um assassinato se desdobra nos subterrâneos da estátua, chocando a nata da sociedade convidada para o evento. Diante da ineficiência da polícia carioca em solucionar o crime, cabe à agência de detetives da Guanabara Real – composta pelo engenheiro e cientista Firmino Boaventura, o místico boêmio Remy Rudá e a investigadora profissional Maria Tereza Floresta – lançar uma nova luz sobre o mistério e descobrir a sórdida trama de interesses políticos (e demoníacos!) por trás do acontecimento.



Cada um dos três autores reunidos para escrever A Alcova da Morte ficou responsável por um dos protagonistas da trama, cujos pontos de vista se revezam entre os capítulos, sempre em terceira pessoa. Enéias Tavares – do qual eu já havia lido alguns contos interessantes, publicados na revista Trasgo – assume Remy Rudá, dândi de gostos refinados, sexualidade aberta e predileção pelo ocultismo. Retirado forçosamente de sua tribo Caipora ainda criança, o jovem aprendeu a sobreviver aos trancos e barrancos, rapidamente esbarrando nos assuntos de esoterismo e magia, dominando-os. De longos cabelos negros e com os olhos delineados de lápis de olho, Remy choca a sociedade carioca com suas roupas extravagantes (embora sempre elegantes), cortejando homens e mulheres e saboreando os prazeres do mundo físico ao extremo. Um verdadeiro hedonista, e não pude deixar de pensar em Dorian Gray ao vê-lo – embora bem mais poderoso, além de mais bondoso e gentil que sua contraparte inglesa. Indígena aculturado e claramente bissexual, Remy representa a parcela LGBT da trama, tendo em vista os preconceitos pelos quais passa ao longo do livro, narrados com sutileza, evitando o panfletário e o piegas. De longe, meu personagem favorito – principalmente levando em conta as influências lovecraftianas para criar o cenário de horror sobrenatural no qual ele se insere.

“'Que eu seja a última coisa vista antes de dormirem, mas nunca a primeira ao acordarem', era um dos lemas de Remy, acostumado aos prazeres sensuais tanto quanto aos tesouros da solidão”. (pg. 99)

A.Z. Cordenonsi, por sua vez, concebe Firmino Boaventura, engenheiro positivista e defensor do progresso científico. Seu maior estigma reside no fato de ser negro e instruído em uma sociedade na qual a abolição da escravatura não passa de uma formalidade. Exímio inventor, carecendo das habilidades sociais de seus parceiros Remy e Maria Tereza, sente-se bem mais à vontade junto a seus experimentos que próximo a pessoas. Se Remy fora meu personagem predileto, posso afirmar com segurança que Firmino fora o que mais me surpreendeu. O cara é simplesmente uma caixinha de surpresas: como não bastasse sua genialidade para engenhocas de todo o tipo, ele possui uma mão mecânica que dispara descargas eletrostáticas e ainda por cima luta capoeira. CAPOEIRA. Contrariando os esteriótipos associados aos negros na Primeira República, suas habilidades de luta são uma grata surpresa – de tal forma que discordo daqueles que as apontam como um reforço destes mesmos esteriótipos, e creio que seja muito mais uma valorização de suas raízes africanas. Ao longo da leitura, fiquei me perguntando se havia algo que Firmino não fosse capaz de fazer. E na verdade há: reconhecer nas investigações místicas de Remy o mesmo valor das suas. Ambos passam o livro inteiro se bicando (na verdade, tá mais pro Remy provocando e Firmino pegando corda. É bem fácil, e até um pouco divertido, irritá-lo). Fora isso, ainda acho válido citar o exímio trabalho de Cordenonsi em fazer com que o leitor sinta com intensidade o racismo vivenciado pelo engenheiro. Não falo apenas dos olhares de nojo e as ofensas, mas do medo real em ter sua vida ameaçada por conta da cor da pele; a insegurança de sair às ruas e ser morto a todo momento. Pesado e necessário.

“(…) Sempre tomavam o pobre Firmino como o mais perigoso. A mão mecânica, a capoeira, a cor. Que tolice. Firmino não mataria uma mosca se pudesse evitar. O mesmo não se aplicava a Remy. Nem a ela”. (pg. 113)

Por último e não menos importante, Nikelen Witter concebe a autêntica detetive Maria Tereza Floresta, fundadora e líder da Guanabara Real – traduzindo: aquela que sempre impede que Firmino e Remy se matem logo de uma vez. Criada nas ruas do Rio, MT (como é chamada) cresceu como uma ladra, liderando uma gangue de trombadinhas na adolescência, garantindo que se tornasse uma figura temida pelos becos da cidade; mesmo já adulta, vestida como uma “verdadeira dama”, seu nome ainda desperta calafrios no boca-a-boca do submundo. Dona de um espírito prático e assertivo, além de muitos, muitos contatos, é simultaneamente afiada e elegante – tendo seu bom gosto estético apreciado por Remy e sua mente tática reverenciada por Firmino. Tereza não hesita em peitar grandes figurões – embora saiba a hora certa de adotar uma postura defensiva, como a boa estrategista que é –, e sua lábia, persuasão, além de seus informantes, já abriu a si e a seus parceiros diversas portas. Possui influência feminista, e especula-se que seu sobrenome seja uma homenagem à escritora pioneira do feminismo no Brasil, Nísia Floresta. As referências mais explícitas para sua criação são os romances investigativos de Agatha Christe.



“– Estou afirmando que estamos correndo riscos enormes, minha amiga.
– Sim, estamos.
– Nossas vidas, nossas almas... isso não a abala?
Maria Tereza deu uma baforada com a cigarrilha.
– Remy, querido, temo pela vida de Firmino e ontem mesmo nós quase te perdemos. Mas minha vida e minha alma se perderam há muito tempo, e hoje são essa agência. Enquanto ela estiver de pé, eu estarei também. Vamos fazer nosso trabalho”. (pg. 141)

A narrativa, de um modo geral, é dinâmica, e não se perde durante os momentos de pausa após os picos de adrenalina – o que merece atenção especial, considerando que se trata de um livro escrito a seis mãos. Os autores conseguiram a proeza de construir uma narrativa uniforme e equilibrada, sem deixar de colocar um pouco do estilo próprio de cada um. Percebi algumas resvaladas no uso da terceira pessoa – quando, por exemplo, a trama é narrada do ponto de vista de certo personagem (digamos, Maria Tereza) e, de repente, pula para os pensamentos de outro (Firmino) – uma ocorrência que, contudo, não se deu com tanta frequência a ponto de atrapalhar a leitura. Ainda posso citar que, a despeito de a trama se passar em fins de século XIX, os autores conseguiram incorporar algumas palavras e expressões do vocabulário da época sem tornar a leitura rebuscada ou complicada. Também gostei bastante dos recortes de jornal que apareceram ocasionalmente entre as páginas – e, aproveitando a deixa, já faço um pedido: mais ilustrações no miolo da continuação! A ilustração de capa é muito bonita, e seria muito legal ver mais delas entre capítulos, ou até entre páginas. Continuação esta que, aliás, revela-se imprescindível após o final aberto, já preparando ganchos muito bons e deixando os leitores na pilha para o próximo livro.

Mas nem tudo são flores. Tenho críticas para certos aspectos que me preocuparam, em questão a representação trans. Trata-se de uma personagem que aparece no contexto burlesco de Remy Rudá chamada Madame Leocádia. A madame, amiga querida de Remy, coordena o elegante prostíbulo Mansão das Orquídeas, ofertando a maior variedade de moças e moços “não apenas de distantes regiões do Brasil como também de outros países” (pg. 165). Prostituta até os trinta anos, quando ainda performava papel de gênero masculino, Leocádia fora vítima de agressão de seu antigo cafetão. A partir deste momento, assume papel de gênero feminino (ou, como queiram, efetua sua transição) e decide que abrirá sua própria casa, determinada a tratar seus profissionais de maneira digna, diferentemente de como fora tratada. Entendo a intenção positiva dos autores em representar a comunidade transexual, bastante marginalizada inclusive no próprio meio LGBT. Observo, entretanto, muitas questões problemáticas nessa execução e, uma vez que este não é o foco da resenha, vou me ater apenas a duas que mais me chamaram a atenção.

A primeira tem a ver com a apresentação da personagem:

“Os ombros nus vinham escondidos sob a farta e ondulante cabeleira loira. Nem todas as damas sabiam se portar, nem todas sabiam falar, nem todas sabiam se vestir ou se embelezar com equilíbrio, parcimônia e elegância. Madame Leocádia era uma mestra em todas estas artes e em muitas outras. Mas nem sempre foi assim”. (pg. 167)

Talvez nem todos enxerguem, mas considero complicado demonstrar indiretamente que Leocádia é uma mulher de verdade por ser “mais dama” que muitas outras damas – o que me lembra um pouco aquele elogio famoso direcionado às mulheres, “mais macho que muito homem”. Associar o ato de ser mulher tão somente à performance/representação de certos trejeitos ou estereótipos – como manter os cabelos longos, ser delicada, usar belos vestidos – apenas reforça estes mesmos estereótipos, e a opressão advinda dessa “feminilidade” (quer dizer, mulheres que não se sentem confortáveis em serem “femininas” ou elegantes. Seriam elas menos mulheres por conta disso?).



A segunda questão tem a ver com o modo como a prostituição é retratada. Há todo um cuidado na narrativa para diferenciar o meretrício exercido por Leocádia através de seus “Beija-Flores” e aquele do qual fora vítima, um gigantesco eufemismo para tratar tal realidade como algo belo e atraente, quando na verdade ainda há violência e maus-tratos por debaixo dos panos (uma vez que o número de profissionais do sexo que ali estão por vontade própria é irrisório em comparação àqueles que não possuem escolha alguma) – não necessariamente de Madame Leocádia, mas dos clientes da casa. E não posso deixar de me perguntar: a despeito das descrições romantizadas e dos convidados de luxo, em quê a exploração de Leocádia se diferencia daquela feita por seu antigo cafetão homem? Ser mulher trans não a exime desta pergunta – trata-se do oprimido reproduzindo o comportamento do opressor.

“– Uma última pergunta: O Barão do Desterro. Ele é um cliente da casa?
Leocádia respirou fundo e assentiu, temendo a repercussão daquela resposta.
– O Barão tem gostos peculiares. Mas ele é um dos únicos clientes que nunca desrespeita ou maltrata nenhuma das jovens. Além disso, dá sempre gorjetas altas, o que faz ser disputado por muitas das meninas (…)”. (pg. 175)

Para que o Barão do Desterro seja a exceção que confirma a regra, temos questões muito sérias escondidas por trás de todo o retrato glamoroso da prostituição que o livro pinta.



A despeito desta observação, a obra cumpre com seu papel de entreter os leitores, de forma tão competente quanto um título internacional de mesma temática, ou até mais. Pequenos defeitos, até mesmo minhas críticas – que, creio eu, muitos podem discordar –, não estragam o conjunto da obra, bem executado e muito bem concluído.

De um modo geral, as qualidades de A Alcova da Morte superam seus defeitos, entregando uma excelente aventura investigativa com todas as características que conhecemos e amamos dos títulos clássicos de fora, mas com as peculiaridades e nuances sociais próprias de nossa cultura.


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Guanabara Real: A Alcova da Morte
Volume #1, Guanabara Real
Autores: Enéias Tavares, Nikelen Witter e A. Z. Cordenonsi
Editora: AVEC
Ano: 2017
Skoob: 4.4 Estrelas
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04 Estrelas
Brasil, 1892. Durante a noite de inauguração da estátua do Corcovado, um horrendo crime toma de assalto a alta sociedade carioca. Para resolver o mistério, a investigadora particular Maria Tereza Floresta, o engenheiro positivista Firmino Boaventura e o dândi místico Remy Rudá terão de se embrenhar numa perigosa trama de poder e corrupção. O que parece mais um caso, aos poucos se revela um plano que põe em risco o futuro de todo país e para impedi-lo, a agência de detetives Guanabara Real terá de usar toda a sua perícia para solucionar os enigmas tecnológicos e os mistérios arcanos da sangrenta Alcova da Morte! Uma trama de investigação policial. Um enredo de ficção científica. Um crime de horror sobrenatural. Três autores, Três heróis, em um Rio de Janeiro que nunca existiu!
Autores: Moradores de Santa Maria, professores da UFSM e leitores incansáveis, Nikelen Witter, A. Z. Cordenosi e Enéias Tavares se conheceram em um evento steampunk no ano de 2013. Depois de meses de reuniões intermináveis, reescritas infindas e discussões acaloradas, sempre na companha de café ou vinho, finalizaram o manuscrito de Guanabara Real, romance escrito a seis mãos, com três protagonistas, meia dúzia de vilões e outras tantas criaturas exóticas. Witter releu seus livros de Agatha Christie para compor os capítulos de Maria Tereza. Cordenonsi mergulhou em Júlio Verne para criar as aventuras de Firmino. Tavares encarou o horror de H. P. Lovecraft para conceber as peripécias de Remy. Os três se divertiram muito no processo.

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