Tem na Netflix: Alias Grace

Dois assassinatos. Dois culpados. Um "perdão". Baseado em obra de Margaret Atwood, a história real se tornou uma carta histórica ao feminismo, até hoje nunca desvendada

novembro 06, 2017 - Postado Por: Redação SOODA
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Dois assassinatos. Dois culpados. Um "perdão". Baseado em obra de Margaret Atwood, a história real se tornou uma carta histórica ao feminismo, até hoje nunca desvendada




O ano era 1843. O Canadá ainda não era um país independente (Isso aconteceu somente em 1867). Muito da cultura britânica estava impregnada sobre solo canadense. Inclusive a forte opressão sobre as mulheres que sequer tinham direitos. Nesse ano, um crime chocou a nação que buscava sua "civilidade". O assassinato de fazendeiro Thomas Kinnear e sua governanta Nancy Montgomery. Os acusados foram seus empregados McDermott e Grace Marks. Ambos declarados culpados. Porém, somente Dermott foi enforcado. Grace depois de anos de prisão foi "perdoada". Essa história é real. Suas nuances misteriosas foram o mote para que Margaret Atwood escreveste em 1996 "Grace Vulgo", que agora chega adaptada em uma mini-série de seis episódios na Netflix.

A série inicia com anos depois da Grace (Sarah Gadon) ter sido presa. Agora, o jovem psiquiatra Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft) quer saber mais sobre a história. Ele foi convocado para fazer um laudo que traria como resultado o perdão de Grace. Que, por algum motivo inexplicável (ainda), tinha uma simpatia por todos da região. Inclusive a jovem trabalhava na casa do Governador e tinha regalias que as outras presidiárias não tinham. Algo, que causa estranheza para todos nós espectadores, do tipo (O que diabos está acontecendo aí?)

Com isso, Grace começa a contar a sua história, que de fato não inicia tão fácil. A jovem começa relatando a sua viagem da Irlanda em direção ao Canadá, que teve como resultado a morte de sua mãe. Sendo assim, ela passa a ser criada por seu pai. E ele inicia relações de abuso constantes sobre ela. De todas as formas. Até que um dia ele a obriga a procurar um emprego, e ela vai parar na casa de uma família nobre da região.

Assim como, em "The Handmailme´s Tale", as mulheres são protagonistas da história, porém sobre vieses diferentes. Enquanto, a série aclamada pelo Emmy 2017 reflete sobre um futuro distópico, onde as mulheres são subjugadas sobre a religião. Aqui, elas sequer tinham direitos, mesmo em um país "progressista" como o Canadá, especialmente se elas fugissem daquele espectro de "mulher direita". E temas como aborto e opressão são fortemente abordados. Levando a influenciar fortemente a personalidade dual da protagonista.

Divulgação Netflix


Essa dualidade é apresentada, a partir do terceiro episódio, depois que Grace Marks perde uma amiga, em circunstâncias extremamente dolorosas, mostrando que mulheres não tem importância naquela sociedade. Então, os depoimentos de Marks para o psiquiatra saem do espectro da confiabilidade e entram na desconfiança. É loucura ou fingimento? verdade ou mentira? Ficamos perdidos sobre o que pensar a partir desse momento.

A história que até então estava no caminho de um romance histórico ganha um ar misterioso, misturando um thriller policial e terror psicológico, onde o telespectador fica extremamente tenso com os acontecimentos que caminham para o fatídico assassinato. O personagem de Simon Jordan faz esse papel na série. De uma pessoa que está aquém de compreender tudo o que está acontecendo, sendo hipnotizado pela narrativa de Grace e ao mesmo tempo, tentando compreender o que é a realidade ou fantástico na história contada por Grace.

Divulgação Netflix


E mesmo nessas tensões, o clima feminista não é esquecido na série. Todos os acontecimentos são embebidos por esse discurso. O que leva a crer que a escritora Atwood, consegue escrever qualquer história, pautando o tema. Como esteve a frente da produção, ela não deixa que essa questão saia de cena em nenhum momento. Seja na maneira como Grace se porta, convencendo as pessoas de que é uma "boa moça" e por isso incapaz de cometer o crime. Ou ainda, nas circunstâncias que a coloca na cena do crime (praticando ou não o crime, desde o inicio fica claro que a personagem estava presente na casa, durante os acontecimentos, então não é spoiler). Alias, as reflexões de Jordan sobre o caso retratam bem essa questão, onde Grace, desde jovem é fruto dessa sociedade machista que acabou por praticar atrocidades com ela.

Não há de se esquecer que a fotografia e figurino da série foram extremamente pensados, baseados no período histórico em que foi constituída. O que torna bem mais crível o tempo histórico imputado ao seriado. Sem contar que as atuações não deixam a desejar. Especialmente de Sarah Gadon no papel de Grace Marks, no qual foi exigido bastante e ela conseguiu assumir a personagem com primazia. Além disso, outros personagens fazem a diferença na história, como Zachary Levi (o eterno Chuck) na figura do bom vivant Jeremiah Pontelli, e também o enigmático Kerr Logan que interpreta o cruel e assassino James McDermott.

Divulgação Netflix


Ao chegar no final dessa história, propositalmente aberto (você está disposto a colocar o seu ponto final?), é quase impossível não cair nas discussões e reflexões imputadas, inicialmente por Margaret Atwood, escritora da história, e também pela responsável pela adaptação, Sarah Polley (indicada ao Oscar de melhor Roteiro Adaptado). Pensamentos esses, no qual mostra que esse mix entre thriller policial e romance histórico, pode trazer temas tão importantes e atuais para uma sociedade que ainda oprime significativamente a mulher. Entretenimento que diverte e também advoga por uma causa necessária. Não estranharia em nada, mais uma série baseada nos livros de Atwood chegar no topo, no Emmy 2018.




Alias Grace
Direção: Mary Harron
Duração: 6 Episódios
Lançamento: 03 de Novembro de 2017
País: Canadá/Eua
Thriller, Policial, Romance Histórico
IMDB: 71 de 100
05 Estrelas
Com base na verdadeira história de Grace Marks, uma empregada doméstica e imigrante da Irlanda que foi preso em 1843, talvez erroneamente, pelo assassinato de seu empregador Thomas Kinnear. Grace afirma não ter memória do assassinato, mas os fatos são irrefutáveis. Uma década depois, o Dr. Simon Jordan tenta ajudar Grace a recordar seu passado.
Por: Francisco Neto

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