Resenha: Vacas - Dawn O´Porter

Esse livro é sobre feminismo, liberdade individual e opinião

outubro 06, 2017 - Postado Por: Francisco Neto
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Esse livro é sobre feminismo, liberdade individual e opinião




QUERIDOS LEITORES,
“Existem vários tipos de mulheres, e todo o esforço é necessário para que elas não sejam vistas como novilhas ou vacas. Mulheres não precisam se encaixar em esteriótipos. Vacas não precisam seguir o rebanho” Pág. 7


O que vou falar hoje não é especificamente sobre feminismo, e o que ele prega, questiona ou deixar de questionar. Apesar de ser a favor da causa é uma discussão que não me diz respeito e acredito que existam pessoas que tenham mais legitimidade que eu para discutir o assunto. É importante saber a hora de ouvir. Mas o que vou contar para vocês hoje são histórias. De três mulheres, e que estão dentro dessa discussão do feminismo. Depois disso, cada um de vocês podem tirar suas conclusões. E claro, ter uma opinião, afinal de contas se manter calado, não significa que você não tem opinião, mas que existe o momento certo para expressa-las.

A primeira história é de Tara, uma senhora de 42 anos, produtora em uma empresa que produz documentários. Vivendo em meio de um ambiente misógino, Tara precisa demonstrar força e capacidade duas vez mais, somente por ser mulher. E ter uma filha. Aos 36 anos, depois de uma noite com um cara, ela engravidou e teve uma filha. Mãe Solteira. Dupla jornada. E isso já é motivo para julgamentos, tanto no ambiente de trabalho, como escolar. Não por sua filha, mas pelas outras mães. Para completar, ela acabou fazendo uma coisa (não vou julgar o mérito e nem dar spoiler), no qual seu rosto foi aparecer na internet. Agora, ela não é somente julgada nesses microambientes, mas por toda a sociedade. A internet é implacável.

A segunda história é de Camilla Stacey, ou somente Cam. Uma blogueira com opiniões fortes sobre o feminismo. 36 anos, solteira, sozinha, Feliz. Algumas pessoas devem pensar, ser sozinho e feliz não combinam. Eu rebato: E quem disse isso?. Enfim, Depois de um texto dela, ela se ver em meio a uma intensa discussão na sociedade britânica, sobre Ser Mulher e não Ter Filhos. Inclusive foi apelidada por alguns jornais de "Rosto de Mulheres sem Filhos".

A terceira história é de Stella, assistente pessoal de um fotógrafo. 27 anos e com um dilema nas mãos. Sua mãe e sua irmã gêmea morreram de câncer e ela descobriu que tem o gene BRCA, responsável pelo câncer de mama e ovários, dando assim 85% de chances para que ela desenvolva a doença. A única solução é que ela retire ambos os órgãos, diminuindo as chances de isso ocorrer. A questão é. Ela não poderá mais ter filhos depois disso. Apesar de nunca ter pensado nessa possibilidade, com uma situação dessas em mãos, surge uma vontade grande de ter uma criança. Mas chegamos a segunda questão. Seu namorado não aguenta a pressão e a deixa sozinha. E agora ela quer fazer de tudo para gerar um filho, antes de fazer as cirurgias necessárias para salvar a sua vida.

Essas três histórias se conectam em "Vacas", livro da autora Dawn Porter, que aborda questões feministas, liberdade individual e opinião. Palavras que se interconectam com objetivo maior de provocar a felicidade, especialmente àquelas pessoas que não se encaixam na norma social de nossa sociedade patriarcal.



QUESTÕES FEMINISTAS

A história aborda questões que tem sido pauta nas discussões feministas, em seus vários aspectos e pontos de vistas. A autora tenta estabelecer uma discussão em que nós leitores tenhamos a compreensão dos vários pontos de vistas existentes. Seja por meio dos textos da Camilla Stacey, ou ainda do enredo em si. Mostrando que não existe contradição no feminismo, mas que cada situação deve ser vista de uma maneira diferente e que o ponto chave que converge à discussão. É evitar a subjugação do homem sobre a mulher, especialmente em pautas que não lhe dizem respeito.



LIBERDADE INDIVIDUAL

É óbvio que como ser social, existem algumas normas sociais que são seguidas, por vários motivos (que não vou entrar no mérito) e que também com as mudanças dos aspectos sociais, essas normas também mudem. O problema encontra-se quando a sociedade quer atuar no campo da individualidade ceifando a liberdade individual de cada um. Sabemos que existe uma linha tênue entre o individuo e a sociedade e que essa relação se intercruza. Mesmo assim, não devemos pautar a vida de outras pessoas sobre as nossas convicções. Mas fazemos, por isso nos dias de hoje existem tantos conflitos, especialmente com o advento da internet.

Tara comete um deslize social, como todos nós seres humanos temos, porém ela vai parar na internet. E a vida dela toda passa a ser pauta de uma sociedade, as pessoas entendem ser um direito seu dissertar sobre a vida da outra pessoa. É claro, que temos opiniões sobre as coisas, e isso não é ruim, a questão é que estamos falando da individualidade de uma pessoa, como se fosse um problema social. E isso se torna o X da questão. Porque ocorrem julgamentos, pautados em fragmentos do que conhecemos, ao invés de lidar com a questão em si.

Vou dar um exemplo. Recentemente um museu e artista tem sido escrachado pela internet por um vídeo de 20 segundos de uma performance que não tinha qualquer objetivo erótico. Porém, sem entrar no mérito de ser certo e errado da mãe permitir o acontecimento, existe um julgamento enorme na internet por um fragmento, totalmente descontextualizado, como se a vida daquelas pessoas fossem a vida de quem opina. Sem questionar, por exemplo, que pior do que aquele acontecimento em si, é a repercussão, é a exposição de forma demasiada da criança na internet. A vida de todas aquelas pessoas mudou, não porque o ato é criminoso ou não, mas porque o julgamento online é implacável.

Depois desse livro, me vi pensando quantas vezes eu fiz isso. Quantas vezes eu fomentei uma discussão, julgamentos sobre a individualidade de alguém. Me sinto culpado, e ao mesmo tempo reflexivo de que tenho que me policiar sobre essa questão. E nas próximas vezes não pautar a vida individual, mas talvez assuntos. Como por exemplo. Pautar que eu concordo com classificação indicativa em exposições, que nudez e pedofilia não são a mesma coisa e por aí vai. E claro, sempre levando em consideração, opiniões de profissionais do ramo.



OPINIÃO

Ainda no gancho da discussão passada, uma coisa que achei bastante interessante nesse livro foi a questão de opinião. Nós como seres humanos sempre teremos a nossas opiniões e se tem uma coisa que não pode ser tirado de nós é a capacidade de pensar e refletir. Assim, como tive várias opiniões sobre as atitudes das personagens, se são erradas ou não. Eu sei que da mesma forma que temos essa capacidade. Também deveríamos desenvolver uma outra. Quando omiti-las, ou não.

E não estou falando de censura, e sim bom senso que são coisas diferentes. Devemos tomar cuidado sim com as nossas opiniões, assim como devemos assumir aquilo que dizemos. Assumir responsabilidade e infelizmente vemos pouco isso, muitas pessoas querem omitir questões sem se interessar se irá afetar o outro, ou se existe o conhecimento prévio do assunto e sem ser responsabilizado pelo que foi dito, passando a bola para quem recebeu o que foi falado.

E juntando a opinião com liberdade individual. Se ela for ferir a individualidade de outras pessoas, é bom ter cuidado ao emiti-la porque é sim responsabilidade nossa aquilo que falamos. E esse livro é um exercício sobre essa questão, especialmente no que diz respeito ao feminismo.



NEM TUDO SÃO FLORES

Bom, eu tive um problema com esse livro. Na verdade com uma personagem em si, que acredito que a construção dela destoou na construção das outras duas personagens. Ela acabou tendo um ar vilanesco que acho que não encaixa no tom da história. Onde, foge a questão de ser opinião ou não, mas um problema e se for um pouco mais afinco, um crime. E mesmo que as ações dela sejam explicáveis (não justificáveis), eu acredito que a autora poderia ter segurado o tom dela para que a história fosse mais condizente com o livro todo.

Ademais, acredito que a voz que esse livro provoca sobre um movimento que está em transformação é bastante importante para que nós seres humanos possamos compreender o outro, especialmente as mulheres.

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VACAS (The Cows)
Autor: Dawn O´Porter
Editora: Editora Harper Collins Brasil
Ano: 2017
Skoob: 3,9 Estrelas / Goodreads: 3,88 Estrelas
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04 Estrelas
"Um pedaço de carne; feito para reproduzir; além da sua data de vencimento; parte do rebanho. Mulheres não têm que se encaixar em estereótipos. Tara, Cam e Stella são estranhas vivendo suas próprias vidas da melhor forma que podem, apesar de poder ser difícil gostar do que você vê no espelho quando a sociedade grita que você devia viver de um jeito específico. Quando um evento extraordinário cria laços invisíveis de amizade entre elas, a catástrofe de uma mulher vira a inspiração de outra, e uma lição para todas. Às vezes não tem problema não seguir o rebanho. Vacas é um livro poderoso sobre três mulheres julgando uma à outra, mas também a si mesmas. Entre todo o barulho da vida moderna, elas precisam encontrar suas próprias vozes."
Autora: Dawn O´Porter é escritora, colunista e jornalista e já fez inúmeros documentários sobre temas polêmicos.

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