Resenha: Suicidas - Raphael Montes

Nove jovens em uma casa de campo? O que você imagina? Muitas coisas, menos o que de fato aconteceu a todos eles

outubro 13, 2017 - Postado Por: Francisco Neto
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Nove jovens em uma casa de campo? O que você imagina? Muitas coisas, menos o que de fato aconteceu a todos eles




Suicídios coletivos são acontecimentos extremamente chocantes. O maior deles ocorreu há 38 anos nos Estados Unidos, onde mais de 900 pessoas morreram devido ao incentivo de Jin Jones, fundador de uma seita cristã. E mesmo que algumas pessoas sejam assassinadas durante esse encontro com a morte, muitas acabam por forte influência (ou nem tanto assim), se suicidando. De certa forma é um mistério que permanecerá na mentes dos que ficaram vivos, o que de fato levou a cada um ser humano presente a cometer tal ato.

Assim como, foi um mistério para que nove jovens de classe média alta, participassem de um jogo denominado "roleta russa", e "todos" fossem encontrados mortos, no primeiro livro escrito por Raphael Montes que foi relançado pela Companhia das Letras em 2017.

A história se passa um ano depois que os corpos foram encontrados em um estado deplorável. A investigadora de policia, responsável pelo caso, decidiu juntar todas as mães dos jovens mortos, em uma reunião informal, a fim de mostrar uma prova que finalmente poderia desvendar o que ocorrera no dia 07 de setembro de 2008. Era um caderno com anotações de Alessandro, um dos suicidas, que contava em detalhes tudo o que acontecera naquela noite. Porém, que terminava antes do previsto (por motivos óbvios).

Então a história é contada sobre três pontos. O primeiro caderno de anotações de Alessandro, encontrado em sua casa, logo depois dos suicídio. O segundo caderno de anotações que foi encontrado recentemente e que seria lido para as mães durante a reunião. E também iremos ver os impactos da leitura desse segundo caderno, a fim de tentar desvendar o que acontecera naquele fatídico dia.



Antes de continuar a história, vou delinear rapidamente o perfil de todos os jovens que foram encontrados mortos, a fim de mostrar, que o suicídio para alguns deles era no minimo estranho:

Alessandro: Estudante de direito, o jovem sempre sonhara em ser escritor, depois de dois livros recusados por várias editoras, ele decidiu participar da Roleta-Russa, afim de ser reconhecido pela mídia.
Zak: Amigo de Alessandro, o tipico boy rico bombado. Que conquista mulheres num piscar de olhos e não dá muito valor a coisa "importantes". Seu pai é um rico endinheirado, sua mãe uma socialite. Depois de uma tragédia em sua vida, acha que a solução é a roleta-russa.
Ritinha: Conhecida de Alessandro e Zak. Ela acaba dormindo com Zak, depois de irem fazer um trabalho na casa dele. Ninguém sabe muito bem o motivo dela estar ali.
Noel: Sempre foi apaixonado por Ritinha. Talvez seja um dos principais motivos dele ter ido para a Roleta-Russa.
Otto: Apaixonado por um dos caras que está na Roleta-Russa. Porém, esse cara é gay, mas não quer assumir isso a sociedade
Dan: Jovem de 16 anos com Síndrome de Down, provavelmente não sabe o que está fazendo nesse jogo.
Lucas: Jovem extremamente depressivo, tanto que já tentou se matar pelo menos três vezes. (É meio óbvio o que ele está fazendo na Roleta Russa).
João: Irmã de Lucas. A jovem não tem a mesma vontade de se matar que seu irmão, inclusive o salvou de uma das tentativas de suicídio. Teve um affair por Alessandro. Porém, quando ela descobriu que ele era pobre, não quis saber mais dele.
Waleria: Até o meio da história não sabemos o que ela está fazendo ali. Só que aparentemente ela não tem tendências a querer se suicidar e teve um caso com Zak.

Perceberam então que é no minimo estranho que esses jovens tenham resolvido se unir para jogar "Roleta-Russa" com objetivo de se matar?. A policia também. Até porque a forma como os corpos foram encontrados é no minimo de se considerar que alguma coisa deu errado. Na verdade, conforme vamos nos debruçando na história percebemos que a coisa deu muito errado.



Não é a primeira leitura que faço do Raphael Montes e se tem uma coisa que venho percebido sobre o que ele escreve é a forte critica social. É possível vê-la em praticamente todos os capítulos da história. Seja na família perfeita de "Zak" construída na base da corrupção. Ou ainda, na displicência de Sônia, a juíza, mãe de Dan, que o deixou ir para esse caminho sem volta. A fome encegueirada pelo dinheiro e fama, sendo o ser humano capaz de se voltar ao seu lado animalesco para atingir o seu objetivo.

Ao longo da história, compreendemos que não somente aqueles jovens possuíam sérios problemas de caráter, mas suas mães também. O que de certa forma explica, como eles foram capazes de "acabar" com a própria vida. Mães egoístas, outras super protetoras, outras de índole profundamente duvidosa, e algumas com uma frieza sobrenatural. Afinal de contas, o que estava sendo relatado, era o "suicídio" dos próprios filhos, de maneira bem gráfica. O minimo que se espera, é uma reação dolorosa, ou se estiverem em um sentimento de introspecção, que ele não transcenda para a apatia.



Como romance policial o autor em alguns momentos tenta confundir a cabeça do leitor com determinadas atitudes dessas mães. Porém, se for um pouco mais atento, é possível perceber o papel de cada uma delas na história. Apesar de que ainda sim, o final foi surpreendente no meu caso. Não de explodir a cabeça, mas de interligar os pontos e de ficar com aquela sensação de que estava-se imerso em uma boa história.

Vale ressaltar, que de longe essa história tem qualquer incitação ao suicídio coletivo. Ele é praticamente o pano de fundo para cavar fundo os problemas de uma elite decadente, como a carioca. Além disso, sendo uma história de terror, falar que as mortes são extremamente descritivas e gráficas seria até redundância, porém, mesmo assim existem algumas cenas que são agressivas e podem servir de gatilho. Como uma cena de necrofilia que ocorre durante a história.



Mais uma vez as atrocidades humanas criadas por Raphael Montes me levaram por uma boa história, onde o protagonista é o caráter dos seres humanos ali presentes, onde todos são manipuláveis e manipulados, inclusive nós, os leitores.


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SUICIDAS
Autor: Raphael Montes
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2017
Skoob: 4,5 Estrelas / Goodreads: 4,3 Estrelas
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04 Estrelas
Antes que o mundo pudesse sonhar com o terrível jogo da baleia azul, que leva jovens a tirar a própria vida, ou que a série de televisão Thirteen Reasons Why fosse lançada e se tornasse o sucesso que é hoje, Raphael Montes, então com 22 anos, já tratava do tema do suicídio entre jovens, com a ousadia que virou sua marca registrada. Em seu primeiro livro, que a Companhia das Letras agora relança acrescido de um novo capítulo, conhecemos a história de Alê e seus colegas, jovens da elite carioca encontrados mortos no porão do sítio de um deles em condições misteriosas que indicam que os nove amigos participaram de um perigoso e fatídico jogo de roleta russa. Aos que ficaram, resta tentar descobrir o que teria levado aqueles adolescentes, aparentemente felizes e privilegiados, a tirar a própria vida.
Autor: Raphael Montes é advogado, escreveu o seu primeiro romance aos 20 anos de idade (Esse por sinal, que foi republicado em 2017), ganhando vários prêmios nacionais. Além disso, o autor já foi consultor de novelas como A Regra do Jogo e roteirista de algumas séries da Tv Globo e GNT.

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