Resenha: As Icamiabas: Lenda das Amazonas - Salomão Larêdo

A obra mostra uma utopia, onde as mulheres Amazonas construíram uma sociedade justa para mulheres, transgêneros e os homens

outubro 09, 2017 - Postado Por: Francisco Neto
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A obra mostra uma utopia, onde as mulheres Amazonas construíram uma sociedade justa para mulheres, transgêneros e os homens




2017. Um ano que tem sido crescente a onda de conservadorismo em todo o mundo. E no Brasil não seria diferente. As mulheres, ao longo dos anos tem se tornado protagonistas de suas próprias histórias, a exemplo dos muitos direitos conquistados. Porém, homens (não digo individuo, mas sociedade) com medo de perder os seus privilégios, tentam de todas as formas ceifarem esses direitos. E se uma mulher conseguiu fazer um dos melhores filmes de super-herói do ano, sobre mulheres fortes. os Estados Unidos elegem um presidente declaradamente misógino. Porém a literatura como forma de arte, assim como o cinema, tem uma essencial função de subverter essas questões. Não é mimimi. É uma busca por direitos iguais.

E nesse contexto, Salomão Larêdo, autor paraense, sensível a causa feminista e com mais de 40 livros escritos, resgata a lenda das Amazonas. Lenda essa que deu origem ao nome da maior floresta tropical do mundo. Ao maior estado do Brasil. Porém, vale ressaltar que o autor não tem nenhum objetivo de retirar o protagonismo feminino ao escrever essa história, mas coloca-lo no centro das discussões, como uma homenagem, um resgate, e uma semente, contribuindo nas discussões sobre feminismo na Amazônia, de acordo com as peculiaridades.



Por falar nisso, é interessante como os homens, mesmo os indígenas arranjam forma de subjugar as mulheres. Vocês já ouviram falar da história de Jurupari? Então, segundo a lenda que é contada (ao final da história tem mais detalhes). As sociedades antes eram regidas pelas mulheres, porém Jurupari ao matar a sua própria mãe subverteu essa história, e os homens passaram a ser os dominantes, e se as mulheres se aproximassem do "clube do bolinha", poderiam também ser mortas pelo Jurupari.

E essa lenda é o start para a história de Salomão Larêdo. Onde as mulheres, liderada por Nivine se afastaram da tribo e começaram a montar a sua própria comunidade. E em acordo com os homens. Elas ficariam com as meninas e eles cuidariam dos meninos, em troca ela presenteariam os homens com o Muriaquitã, um colar que dá força e sorte, quase que interminável. E assim, as Icamiabas começaram a montar o Paíz das Pedras Verdes, uma sociedade utópica, justa, onde as mulheres que eram as regentes e conseguiram o que os homens não foram capazes em milênios.



A história é recheada de referências a cultura amazônica. Desde a lenda que a inspirou, até os acontecimentos históricos que demarcam a história da Amazônia, como o encontro entre os Espanhóis e Portugueses e as Amazonas. Porém, se engana quem acha que essa obra se passa nesse período histórico. Na verdade, eles se intercruzam e talvez isso pode deixar o leitor propositalmente confuso. Pois, ao mesmo tempo que relata esse período histórico, mostra mais tarde os "telulares", e a internet.

Além disso, o autor aproveita para fazer criticas severas a relação homem X floresta amazônica e a cobiça e a ambição pelos elementos naturais que elas nos fornece. E não só isso, algumas passagens do texto retrataram exatamente como muitas mulheres amazônidas são exploradas pelos homens. E o Paíz das Pedras Verdes veio justamente para acabar com todos esses problemas que existem na região. Onde as mulheres que lá vivem (e os homens que querem viver em harmonia com a natureza e a sociedade) conseguiram superar todos os problemas sociais, enfrentando até mesmo algumas moléstias da região como a Malária. Uma utopia que dá gosto de ler.



O texto de Salomão Larêdo é poético, como uma verdadeira homenagem as mulheres guerreiras da Amazônia, as quais lutam todos os dias pelo seu espaço. Porém, vale ressaltar que essa não é uma prosa de fácil assimilação. Ela é propositalmente truncada, com palavras não muito usuais, sendo algumas delas próprias do linguajar da região. Então é possível que você leitor possa não entender alguns parágrafos, quase como se estivesse lendo um texto em uma outra língua, especialmente se não for um morador da região.

Outro detalhe é que a prosa é intercalada por vários textos, que aparentemente não tem qualquer ligação, mas que ao final da história você percebe que tem importância. Porém essa passagem de um texto ao outro não tem qualquer aviso, e pode confundir um leitor mais desavisado. E esse caso, na minha opinião poderia ser resolvido na edição.

Ao final o autor ainda deixa todas as suas referências bibliográficas, e alguns textos sobre A Lenda das Amazonas, Muriaquitã, Jurupari e as Icamiabas fazendo esse trabalho de resgate do mito para as próximas gerações de leitores.



As Icamiabas aporta na literatura paraense no tempo certo, para levar todos os seus leitores a uma intensa discussão de como melhorar a qualidade de vida da mulher amazônida. Na verdade da pessoa amazônida, independente de raça, gênero, ou orientação sexual.
AS ICAMIABAS - LENDA DAS AMAZONAS
Autor: Salomão Larêdo
Editora: Editora Empíreo
Ano: 2017
Skoob: 3 Estrelas /
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03 Estrelas
Romance de mulheres guerreiras sem marido e seus muiraquitãs Com o mundo beirando o colapso, as Icamiabas inventam o Paíz das Pedras Verdes onde, de forma compartilhada, se articulam e executam projeto de sociedade planetária com novo modelo de vida, num inovador avanço social que deságua na revolução cultural e tecnológica, tornando possível a igualdade de direitos. O romance reconta a lenda das Amazonas e traz o feminino, a homossexualidade, as atrações e atracações, a opressão de todo gênero, o amar acima do preconceito, o amor entre mulheres e mulheres, entre mulheres e homens numa sociedade de mulheres, dirigida por mulheres, onde elas – que sempre trazem vida ao mundo – são provedoras da crença numa sociedade fervente, fervorosa e feliz. “As mulheres do reino das Amazonas construíram cultura nova, moderníssima civilização, baseada na convivência do bem comum que os homens, por mais esforço que fizessem, jamais haviam pensado ou imaginado, ou, se pensado, jamais executado por razões que a razão conhece muito bem.”
Autor: Salomão Larêdo é advogado, jornalista e mestre em letras. Suas obras sempre tem o objetivo do resgate da cultura amazônica, com base nas discussões contemporâneas. As Icamiabas é o seu 41º livro.

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