Resenha: Paciência - Daniel Clowes

Quando Jack acreditou que tudo estaria acabado, recebeu uma oportunidade de alterar sua historia através de uma vagem no tempo.

setembro 01, 2017 - Postado Por: Thyago Costa
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Quando Jack acreditou que tudo estaria acabado, recebeu uma oportunidade de alterar sua historia através de uma vagem no tempo.




“Durante toda a sua vida, estudará o universo, mas desprezará sua mais clara mensagem: para criaturas tão pequenas como nós, a vastidão só é suportável através do amor. ” Contato, de 1985 (Carl Sagan)

“Ah se eu pudesse voltar no tempo!” Quantos de nós já não divagamos nessa ideia? Ter o poder de alterar uma coisa ou outra, quem sabe ganhar na loteria, encontrar velhos amores, tomar as decisões certas, etc. Seria um sonho, não é mesmo? Entretanto ainda estamos longe de alcançar isso realmente (mais uma divagação) porém, se existe algo na ficção que já estamos carecas de saber é que viagens no tempo não terminam muito bem, pois acabam bagunçando ainda mais a linha temporal – o filme Primer (2004) é um excelente exemplo sobre as consequências de se brincar com o tempo – ou se revelam um paradoxo surreal – se você já assistiu O Predestinado (2014) sabe exatamente do que estou falando.

Perigoso, mas tentador. O tempo sempre irá atrair a atenção de pessoas obcecadas por alterar o passado, principalmente para aquelas que perderam alguém importante. O que nos leva para nossa história de hoje, Paciência.



O ano é 2012, Jack Barlow e Paciência terão um bebê e apesar de todas as dificuldades em suas vidas farão de tudo para criar seu filho. Ele se preocupa com o futuro e pouco se importa com a vida passada. Ela está, de certa forma, presa psicologicamente ao passado, como um lembrete para não repetir os mesmos erros no futuro. Acima de tudo, das dificuldades e diferenças, existe o amor incondicional que os liga para a eternidade. Porém, tudo desmorona quando, ao voltar do trabalho, Jack encontra Paciência morta em sua casa... assassinada!

Jack foi acusado pelo crime e ficou treze meses na cadeia, tempo suficiente para arquitetar sua vingança contra o verdadeiro culpado pelo crime. Dor e desolação acompanham a sua vida desde então. Procurando pistas – sobre ex-namorados de Paciência, vizinhos psicopatas, etc - e caminhando cada vez mais para um caminho sem fim, mas não importa, ele só irá descansar enquanto fizer justiça...



Então, chegamos ao ano de 2029, Jack está velho e cansado da vida, a única pessoa que amou está morta e o seu assassino desconhecido. Não existe mais nada que possa ser feito, exceto alterar o passado. Ou seja, uma grande bobagem, não existe meio de fazer isso... ou não existia. Jack Barlow conhece um jovem excêntrico que produziu uma fórmula química para viajar no tempo, e com isso tem a chance de entender tudo que aconteceu no passado de Paciência, em uma jornada de aceitação e crescimento, para evitar a qualquer custo a morte de sua amada.



A viagem no tempo é um tema muito abordado na ficção científica, com explicações e situações complexas que sustentam a narrativa. Em A Máquina do Tempo (1895), de H.G. Wells, temos o nascimento do meio científico para explicar a viagem no tempo (anteriormente essas viagens eram proporcionadas por meios fantásticos ou mágicos), apresentada por conceitos geométricos através de uma linha reta ligando um ponto a outro. Um outro exemplo disso está em O Fim da Eternidade (1955), de Isaac Asimov, com o deslocamento temporal sendo executado através de um extenso elevador. A ficção científica de Paciência difere um pouco no quesito explicativo, pois o sci-fi é apenas uma base para guiar as várias camadas narrativas – aceitação, destino, amor, eternidade, etc -, aqui o importante são os personagens e não o cenário, e exatamente por isso o autor não se aprofunda explicando teorias de viagem no tempo que apenas tirariam o verdadeiro foco da narrativa – ele por muitas vezes até brinca com isso. O amor é o elemento principal e crucial para a história, pois ele transcende o tempo.



A arte é simples e pouco detalhada, e por isso alguns leitores, que prezam artes mais caprichadas, podem se sentir incomodados no início, mas lembrem-se: nada será tão ruim quanto a arte de John Romita Jr. O que de fato chama bastante atenção na arte é sua excelente narrativa sequencial e sua explosão de cores quase saída dos anos 60, uma mistura psicodélica de sentimentos e sensações que levarão o leitor – em muitas cenas – a uma verdadeira viagem vertiginosa.



Após cinco anos sem lançar uma graphic novel, Daniel Clowes nos apresenta Patience (2016, do original) como uma obra que faz jus ao seu nome, seja em relação à espera pelo lançamento ou em relação à mensagem que o autor passa sobre o destino. A obra poderia ser só mais do mesmo, exceto pela criatividade do próprio autor, que brinca com sua percepção – quebrando todos os clichês e previsibilidades construídos inicialmente - e nos entrega uma história convincente e bela.
Paciência (Patience)
Autor: Daniel Clowes
Editora Nemo
Ano: 2017
Skoob: 4.2 Estrelas / Goodreads: 3.8 Estrelas
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05 Estrelas
Daniel Clowes vai além do tempo e do espaço para criar uma história de amor, obstinação e ficção científica. Jack Barlow é um homem obcecado em encontrar a pessoa que matou sua esposa, 'Paciência', quando ela estava grávida. Ao descobrir um meio de viajar no tempo, ele volta ao passado para impedir a morte de seu grande amor e acaba descobrindo mais sobre ela e sobre si mesmo do que poderia imaginar. Esta é a obra mais peculiar de Clowes, com arte inigualável e cores que explodem diante do leitor, criando camadas e trilhas que mantêm o suspense até a última página. Uma obra-prima de um dos mestres da arte sequencial contemporânea.
Autor: Daniel Clowes é um quadrinista norte-americano. Também fez ilustrações para um grande número de revistas, como The New Yorker, Details, Esquire e Village Art, entre outras; cartazes para o cinema (entre eles o do filme de Todd Solondz Happiness; e inclusive desenhos animados (o vídeoclipe de "I don't wanna grow up" de The Ramones).

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