Resenha: A Desconhecida - Mary Kubica

Narrado por três personagens, o livro até tenta, mas não consegue manter até o fim a pouca tensão psicológica que construiu.

setembro 22, 2017 - Postado Por: Clara Gianni
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Narrado por três personagens, o livro até tenta, mas não consegue manter até o fim a pouca tensão psicológica que construiu.




Não sei vocês, mas sou daquelas que vive por histórias que me deixem literalmente no cagaço. Jumpscares de filmes pipoca são bem divertidos, como um passeio em um desses brinquedos de parques de diversão (de procedência duvidosa, diga-se de passagem, que a gente ama mesmo assim), mas… e depois? Como manter os nervos dos leitores/espectadores em frangalhos sem perder a linha narrativa ou, ouso dizer, sem recorrer a MAIS jumpscare barato? Como provocar na audiência aquela aflição que remete aos nossos instintos mais primitivos de autopreservação?

É por isso que gosto tanto do conceito de thriller psicológico — bem como suas mesclas dentro dos gêneros de terror e horror. Suas tramas geralmente se destinam a uma construção de expectativa que continuamente sobe e desce, sem descanso à audiência em alerta, pega de supetão. Dois de meus thrillers cinematográficos favoritos, Perfect Blue (de Satoshi Kon) e Cisne Negro (de Darren Aronofsky), projetam de forma magistral essa tensão constante no espectador — e se conseguem, é porque nos permitem imergir completamente na psiquê complexa das protagonistas, vendo o que elas veem, sentindo o que elas sentem e, acima de tudo, caindo irremediavelmente nas armadilhas criadas por seus sentidos.



Em A Desconhecida, Mary Kubica tenta produzir tensão similar ao escrever do ponto de vista de três personagens distintas, em primeira pessoa — uma dinâmica que parece (veja bem, parece) bastante promissora, principalmente diante da sinopse. A trama se foca em uma família abastada de classe média em Chicago, mais especificamente em Heidi, uma mulher de boa índole que não poupa esforços em acolher os desabrigados e analfabetos na ONG em que trabalha, tomando diariamente o trem suspenso da cidade para chegar até lá. É durante um desses trajetos de trabalho que ela se depara com a imagem de uma menina adolescente sem teto segurando um bebê e uma maleta com seus pertences, em meio à paisagem chuvosa da cidade. Dia após dia, Heidi assiste enquanto a garota, Willow, e a bebê, Ruby, andam pelas estações de metrô, até finalmente se convencer a abrigá-las no apartamento onde mora com Chris, seu marido, e a temperamental filha pré-adolescente do casal, Zoe. A recepção não é das mais calorosas: Chris e Zoe não se mostram nem um pouco dispostos a aceitar a presença de duas intrusas em suas vidas (compreensível), ao passo que Willow, com seu comportamento retraído e arredio, não se mostra nem um pouco disposta a ganhar a confiança de ninguém. Muito pelo contrário: a garota aparenta esconder algo de muito, muito grave. A despeito dos protestos do marido e da filha, contudo, Heidi se vê cada vez mais envolvida pela criança, Ruby (que lhe traz à lembrança Juliet, a filha que teve de abortar dez anos antes), e cada vez mais distante da sanidade.

As três narrações a que somos apresentados são as de Heidi, Chris e Willow. Com Heidi, acompanhamos seu cotidiano enquanto mulher de classe média alta dedicada a ajudar ao próximo sempre que possível – beirando o inverossímil; também vislumbramos suas angústias e inseguranças dentro do próprio casamento e em sua relação com a filha – como, desde que tivera de abortar por complicações de saúde (seguindo-se uma cirurgia de remoção total do útero chamada histerectomia), Heidi observa enquanto seu sonho de uma família numerosa cai por terra, com pouco (ou quase nenhum) acompanhamento psicológico para lidar com as marcas do trauma, do qual jamais se recuperara completamente; sua contínua tristeza em ver Zoe, de doze anos, rejeitar cada vez mais os pais, rumo à puberdade; o ciúme da jovem e atraente colega de trabalho do marido, Cassidy Knudsen; e, acima de tudo, o modo como a chegada de Willow e Ruby tangencia todas estas questões de alguma forma. Heidi é o perfeito arquétipo feminino de mulher maternal coração-mole e, embora seus dramas sejam bastante palpáveis, principalmente a perda da gravidez e o distanciamento da filha, a narração quase não os trata com a sensibilidade necessária, empurrando clichê atrás de clichê, tornando sua personagem um esteriótipo unidimensional – o que, como veremos, é um problema recorrente do livro.

“O médico usou a palavra histerectomia. Eu fiquei deitada na cama durante a noite quando deveria estar dormindo, considerando essa palavra, o que significava. Para o doutor, para Chris, era um termo, um procedimento médico. Para mim, era carnificina, pura e simples. A aniquilação de Juliet e Zach, Sophia e Alexis. O fim do meu sonho de camas com lindos edredons e aulas em casa”. (pg. 54)

Se Heidi é o estereótipo feminino, Chris é sua contraparte masculina. Aficionado por qualquer coisa remotamente relacionada a dinheiro rápido e fácil, passa seus dias viajando de cidade em cidade, fechando negócios como funcionário de uma investidora e especialista em fusões e aquisições de empresas, o que o distancia consideravelmente da esposa e da filha – e também significa que é o único economicamente ativo da família. Com o pensamento recorrente de que Heidi parece se preocupar muito mais com os pobres e oprimidos do que com o próprio marido (o que se intensifica com a chegada de Willow e Ruby), além do desprezo de Zoe, Chris encontra refúgio nos canais de esportes, viagens, bebidas, e em flertes ocasionais com a colega Cassidy. Onde Heidi é açucarada e caridosa até a exaustão, quase uma Madre Teresa beirando o psicótico, Chris é egoísta e materialista, um dos elos decadentes de uma família desestruturada por dentro – o típico homem em crise de meia-idade, com uma esposa alienada e uma filha que o odeia. Bem no fundo, contudo, ele ainda se importa.

“Aqueço fatias macias de bacon no micro-ondas (isso parece completamente errado de se fazer na ausência de Heidi: comer carne em nossa casa pseudovegetariana), e como na frente da televisão: os shows antes do jogo no canal ESPN que, em algum momento, vão se transformar em jogos da NBA. Durante os intervalos comerciais, troco para a CNBC, porque nunca posso ficar muito longe das notícias de Wall Street. É a parte do meu cérebro que nunca dorme. Aquela consumida pela ideia de dinheiro. Dinheiro, dinheiro, dinheiro”. (pg. 70)

O ponto de vista de Willow é, de longe, o mais intrigante: é narrado no futuro, imediatamente depois dos acontecimentos descritos por Heidi e Chris. Acompanhamos a garota prestando depoimento após ser presa – o que indica que a casa caiu FEIO em algum momento da trama – e, através de seu relato, vamos descobrindo mais e mais sobre seu passado, a origem de Ruby e o motivo pelo qual a jovem foi parar nas ruas chuvosas de Chicago. Entre uma narração e outra, percebi que o que realmente me motivava a continuar a leitura era descobrir cada vez mais a respeito da garota. Dentre todas as personagens da história, Willow é a mais complexa e bem desenvolvida. Eu me vi verdadeiramente tocada e comovida pelo modo cru com que narrara seu drama particular – surpreendentemente, a autora conseguiu se esquivar de alguns lugares-comuns ao tratar do trauma da garota, embora recaísse em outros. O resultado é uma subtrama bem acima dos padrões do próprio livro.

Eu disse que a ideia de três pontos de vista parecia promissora, e o resultado passa longe disso: vira uma massa de narrativas que, na busca de criar a tão esperada (baa dum tss) expectativa, acaba por se desencontrar naquele que deveria ser o clímax – um ponto da trama em que, com todas as informações que o leitor tem à disposição, o ápice parece morno, quase esfriando, em que não pude deixar de me perguntar “mas era só isso mesmo?”. A sensação que se tem, no fim das contas, é que as respostas já estavam ali o tempo inteiro, eram aquilo mesmo, e não há muito a se acrescentar, o que tira grande parte da tensão que um thriller deveria ter. A notável exceção, é claro, segue sendo a linha narrativa de Willow, que infelizmente não surte todo o efeito que poderia ter, quando se junta às descrições de Heidi e Chris.



Há ainda a questão das personagens estereotipadas, não se resumindo apenas aos protagonistas (o que já é preocupante), mas também a outros personagens secundários, como Cassidy (a co-worker gostosa) e o vizinho da família, Graham (escritor? Mora num lounge elegante? Só pode ser gay), além da própria garota Zoe, que é basicamente uma farofa de clichês preguiçosos sobre a adolescência (deliberadamente tirados de algum filme anos 90 da Sessão da Tarde). A menina não tem serventia alguma na história senão para personificar a frustração dos pais: desde seus resmungos rebeldes sobre como ela odeia tudo o que existe, a TV do quarto ligada na MTV no último volume (quando não é o som do player tocando musiquinha de boyband), até seus braços rabiscados de canetinha com o nome de seu crushzinho mais recente (e eu já mencionei que ela tem um diário secreto?). Entendo que não há espaço para que a narrativa desenvolva todos os personagens, mas o que prevalece é a noção da garota como uma coisinha mimada, antipática e genérica ao extremo, que sequer participa da resolução da trama e não serve para quase nada.

Outras questões um pouco mais formais também truncaram a leitura: fora a narração de Willow (que naturalmente transita entre o passado e o futuro, por conta das digressões), há um desencontro de tempos verbais nas demais. Algumas falas, iniciadas no pretérito, mudam drasticamente para o presente (e vice-versa) sem mais nem menos. Além disso, a autora repete fatos ou falas já descritos anteriormente – às vezes, no melhor estilo do reality das Kardashians mesmo. É bem verdade que um erro ou outro acaba passando batido pela revisão, mas a recorrência com que estes deslizes pipocam pelo texto me parece muito mais justificável a um escritor autopublicado (para quem não resta escolha senão o trabalho braçal de ler, reler, diagramar e revisar o próprio texto), do que para uma autora best seller do New York Times publicando mais um livro de sucesso.

Quer um exemplo? Lá vai:

“Entro correndo no restaurante familiar e a hostess com olhos âmbares que me recepciona pergunta:
— Sem casaco nesta noite? Você congelará até a morte — enquanto ela me mede, de cima a baixo, com seus olhos castanhos – meu cabelo está uma bagunça, minha roupa é insuficiente para o tempo que está fazendo. (…)
— Mesa para um? — pergunta-me a hostess – uma mulher magra com pele branca e olhos amendoados – e respondo:
— Mesa para dois”. (pg. 42)

A questão da tradução também pesa um pouco, e a narrativa parece um pouco travada em alguns momentos – o que é normal, até certo ponto, já que a transposição de certos termos sempre pressupõe alguma perda de sentido. Mas em A Desconhecida, a questão é mais evidente. Algumas expressões idiomáticas pareceram traduzidas quase que literalmente, passando uma ideia de artificialidade e rigidez ao texto – e eu me restrinjo a parar por aqui quanto a isso.

O que se conclui é que, na tentativa de entregar o “impactante thriller psicológico” com que o livro é vendido por aí, Mary Kubica nos transporta para a psiquê de personagens com a profundidade de uma piscina de bolinhas, cujo ponto chave (as descrições de Willow) se perde em meio às abobrinhas de um drama familiar desenvolvido pela metade, culminando em um final morno e previsível que não consegue sustentar o pouco da tensão construída ao longo da narrativa – pecando pela falta onde os modernos blockbusters, recheados de sustos, pecam pelo excesso. Em suma, A Desconhecida é a espera pelo grande plot twist (ora, sejamos sinceros: pelo grande cagaço) que nunca vai chegar.
A Desconhecida (Pretty Baby)
Autora: Mary Kubica
Editora: Planeta do Brasil
Ano: 2017
Skoob: 3,9 Estrelas / Goodreads: 3,7 Estrelas
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2.5 Estrelas
Mais um instigante thriller psicológico da mesma autora de A Garota Perfeita, best-seller do The New York Times Todos os dias, a humanitária Heidi pega o trem suspenso de Chicago e se dirige ao trabalho, uma ONG que atende refugiados e pessoas com dificuldades. Em uma dessas viagens diárias ela se compadece de uma adolescente, que vive zanzando pelas estações com um bebê. É fato que as duas vivem nas ruas e estão sofrendo com a fome, a umidade e o frio intenso que castigam Chicago. Num ímpeto, Heidi resolve acolher Willow, a garota, e Ruby, a criança, em sua casa, provocando incômodo em seu marido e sua filha pré-adolescente. Arredia e taciturna, Willow não se abre e parece esconder algo sério ou estar fugindo de alguém. Mas Heidi segue alheia ao perigo de abrigar uma total estranha em casa. Porém Chris, seu marido, e Zoe, sua filha, têm plena convicção de que Willow é um foco de problemas e se mantêm alertas. Em um crescente de tensão, capítulo após capítulo a verdade é revelada e o leitor irá descobrir quem tem razão.
Autora: Mary Kubica é formada em Artes, História e em Literatura Americana pela Miami University, de Oxford, Ohio. Enveredou-se pelo mundo da escrita em 2014, quando lançou A Garota Perfeita – um livro que rapidamente tornou-se um dos suspenses psicológicos mais vendidos dos Estados Unidos, juntamente com Garota Exemplar e A Garota do Trem. Atualmente, vive nos arredores de Chicago com seu marido e seus dois filhos, dedicando-se à literatura, à fotografia, jardinagem e a um abrigo para animais, onde é voluntária.

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