LivroxFilme: IT "A Coisa" - Stephen King

História escrita em 1986, que traz a tona a cumplicidade de um grupo de amigos em meio ao terror, que inspirou obras para o cinema e tv, como Stranger Things

setembro 13, 2017 - Postado Por: Rafael Lutty
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História escrita em 1986, que traz a tona a cumplicidade de um grupo de amigos em meio ao terror, que inspirou obras para o cinema e tv, como Stranger Things




Vamos começar deixando claro que, desta vez, não se trata de uma resenha em si. Aqui teremos de forma mais abrangente, minha opinião sobre o filme em comparação com o livro adaptado. Justamente por isso, não irei focar apenas nos detalhes a respeito do livro.

Lançado em 1986, eu li o romance, considerado uma das grandes obras-primas do autor Stephen King, em agosto do ano passado (2016), e pouco mais de um ano depois ainda me pego pensando na história. Em It acompanhamos a pequena cidade de Derry assombrada por um ser maligno, que desperta a cada 27 anos e é capaz de obter várias formas para despertar o medo e conseguir suas vítimas. King foca a história em um grupo de sete amigos que possuem algo em comum: todos encontraram-se com “a coisa”, que embora assuma diversas formas, se mantém caracterizada como Pennywise, o palhaço dançante. Após eventos macabros que acabam por fortalecer a amizade do grupo, todos eles fazem a promessa de que em 27 anos se a “coisa” ressurgir, todos irão retornar a Derry para o confronto final.


É um livro com mais de 1.100 páginas, então King consegue abordar diversos temas e descrever inúmeras situações de tensão. O que é brilhante no livro, é o aprofundamento que o autor consegue dar para cada um dos sete personagens que compõem o núcleo principal. Eu sempre considerei de uma maestria ímpar quando o autor consegue desenvolver uma história, com um grupo de personagens como protagonistas, em que todos têm seu “lugar ao sol” e conquistam a simpatia do leitor. Em It, Stephen King faz isso de maneira louvável.

Embora foque na história do clube dos otários, o clube composto pelas sete crianças que protagonizam o livro; King dedica sua narrativa para vários outros personagens secundários, e muitos poderiam facilmente ganhar seu próprio romance, dada a complexidade de suas histórias. Esse é o caso de Henry Bowers e Patrick Hockstetter, ambos fazem parte do núcleo que inferniza a vida das outras crianças. E em ambos os personagens conseguimos perceber a bandeira que o autor levanta, de que muitas vezes a crueldade humana supera os terrores sobrenaturais.



IT é um livro que apesar de grosso, flui muito facilmente, pode causar alguma confusão nas primeiras páginas, já que o autor oscila entre presente e passado durante todo o livro, mas assim que o leitor se acostuma com o ritmo da escrita, é um livro capaz de ser devorado em poucos dias. Abordando temas como pedofilia, estupro, racismo, homofobia, crises familiares, luto, entre outros, é um livro que evoca no leitor sentimentos diversos, além da tensão e do suspense. Com personagens marcantes, cenas inesquecíveis e um vilão capaz de nos tirar o sono, o “livro do palhaço” é um banquete para os fãs do autor e do gênero terror.

AS ADAPTAÇÕES (1990 e 2017)
O livro foi adaptado para a TV em uma minissérie de dois episódios em 1990, trazendo o ator Tim Curry na pele do palhaço Pennywise. Na adaptação de 2017, o palhaço é vivido pelo ator sueco Bill Skarsgård. Entre as principais diferenças nos vilões das duas adaptações, está a caracterização. Enquanto Tommy Lee Wallacel, diretor da minissérie, optou por manter o visual mais caricato descrito por King no romance, típico dos palhaços do século XX; Andrés Muschietti optou por deixar seu Pennywise mais sombrio e com um figurino inspirado nos palhaços do século XIX. Particularmente, aprovei a escolha de Andréas, pois, nas palavras do próprio Stephen King: “[...] palhaços são assustadores e isso é irrefutável.”


© 2016 Warner Bros. Entertainment Inc.

Seja em qual adaptação for, os admiradores do material original inevitavelmente irão fazer comparações e críticas quanto a cenas deletadas e o destino de alguns personagens. É claro que por se tratar de um calhamaço, ainda que se divida em duas partes, muita coisa precisou ser cortada do livro. No entanto, eu gosto das duas adaptações, acredito que os diretores e roteiristas, com todas as suas particularidades, conseguiram manter-se fieis a alma da história.


© 2016 Warner Bros. Entertainment Inc.

Por se tratar de uma grande produção para os cinemas, o filme de 2017 mostra-se superior em qualidade e profundidade. Seja na fotografia, nos tons mais escuros, nos efeitos especiais que – por conta da época – são mais complexos, e na própria atuação; a primeira parte do filme, que tem pouco mais de duas horas de duração, consegue despertar medo, fazer rir e criar no público uma simpatia imediata pelas crianças.


© 2016 Warner Bros. Entertainment Inc.

Do grupo, é necessário destacar a atuação cômica de Finn Wolfhard e Jack Dylan Grazer, que interpretam Richie Tozier e Eddie Kaspbrak, respectivamente. Os dois atores são excelentes e caem como uma luva nos personagens criados por King. Do clube dos otários, os dois são meus personagens favoritos. Praticamente carregam nas costas todo o alívio cômico do filme. Beverly Marsh, a única garota do grupo, foi outro personagem que, no filme, ganhou mais fidelidade com o livro. Interpretada pela atriz Sophia Lillis, a Beverly do filme possui uma personalidade mais rebelde, que se aproxima mais da descrita por King.

IT X STRANGER THINGS
Uma das discussões – inevitáveis – a respeito da nova adaptação de IT é a similaridade que a nova produção tem com a excelente Stranger Things, série original da gigante Netflix, que no próximo outubro chega à sua segunda temporada. Discussão que foi potencializada pela crítica do jornalista Thales de Menezes, colunista da Folha de São Paulo, que definiu o filme como ruim e – entre outros absurdos e claros equívocos – escreveu:

"De ruim, há a evidente intenção de usar um pouco da fórmula charmosa que fez o sucesso da série Stranger Things. A imagem dos meninos percorrendo a cidade e seus arredores com as bicicletas na década de 1980 é uma cópia descarada, impressão reforçada pela presença do ator Finn Wolfhard, que é o Richie em A Coisa e também intérprete de Mike Wheeler no seriado da Netflix"


Como fã da obra do King e como alguém que saiu do cinema absolutamente satisfeito com o novo filme, preciso apontar para questões que o jornalista claramente não considerou antes de escrever sua crítica, que mais parece uma verborragia qualquer.

Como ponto de partida, é necessário que se considere o fato explícito de a série Stranger Things ser uma homenagem às clássicas obras de terror e ficção da década de 1980. Os irmãos Duffer, criadores da série recheiam a aventura de Eleven e companhia com referências de clássicos como Os Goonies, E.T., Alien e obras do Stephen King, como Conta Comigo e IT. Em entrevista ao Daily Beast, em fevereiro deste ano, Matt Duffer disse ter se inspirado ainda em elementos de Elfen Lied, um anime de horror em que a protagonista possui semelhanças com a personagem Eleven.



A série dos irmãos Duffer reforça a nostalgia “oitentista” trazendo para o elenco nomes de peso em clássicos da época como Winona Ryder de Beetlejuice. Na segunda temporada teremos a presença do ator Sean Astin, um dos Goonies mais queridos. E isso é muito positivo, pois embora louve vários clássicos, a série consegue se manter com excelentes particularidades

Em It, o ator Finn Wolfhard, interpreta Richie Tozier, um dos personagens mais cômicos do livro, que é brilhantemente interpretado pelo ator. É um deleite assistir ao Richie em seu time inoportuno de piadas. Particularmente, não acredito que o ator tenha sido escalado para o elenco de IT de maneira apelativa, basta assistir ao filme e ao talento do jovem Finn para entender que ele seria uma escolha óbvia.


instagram.com@r.lutty

Quanto às críticas sobre as cenas em que as crianças estão percorrendo o bairro em suas bicicletas, vale lembrar que em 1980 não tínhamos internet, smartphones ou outros aparatos tecnológicos que prendessem as crianças em suas casas. Era comum ver grupos de crianças andando de bicicleta, jogando bola e praticando outras atividades ao ar livre. Mas ao que parece, as crianças do filme, que se passa na década de 1980, não podem parecer um grupo de crianças da década, pois isso implica em ser cópia de Stranger Things.

Embora, eu seja uma das pessoas que se fascinaram com a série da Netflix, é preciso entender que em termos de complexidade de personagens - tanto no livro, quanto no filme – o grupo de IT é muito mais explorado. Stranger Things acaba por se aprofundar mais em um personagem do que em outro, já em IT temos um mergulho em cada um dos personagens. Fora o fato de que as crianças de IT parecem muito mais verdadeiras e mais próximas da realidade.


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De um modo geral, acredito que não há fundamentos em dizer que It é uma cópia de Stranger Things, já que a obra do Stephen King é uma das que servem de inspiração para a série. Não é de hoje, que a famosa “crítica especializada” acaba por parecer uma criança birrenta que sente uma necessidade enorme de criticar por criticar, sem enxergar o óbvio. Não satisfeito em taxar IT como uma cópia de Stranger Things, o crítico ainda escreveu:

"Um bom filme de terror deve ter mistério a ser desvendado, cenas que provoquem sustos na plateia, uma trama que envolva o espectador em suspense crescente e, o mais importante, um final surpreendente, que pode ser amargo ou redentor. “IT – A Coisa” não tem nada disso. Falta inteligência. Falta Brilho. [...] sem sustos, sem mistério, sem violência gráfica[...]"

Eu poderia falar sobre cada ponto deste absurdo, mas vou me conformar acreditando que o autor da crítica deve ter assistido a um outro filme. O que eu assisti, assusta na medida certa, faz rir e possui uma trama em que o suspense é frequente. Excelentes atuações, excelente adaptação e termina deixando quem assiste, contando os dias para a segunda parte.


Eu acredito que os fãs do livro não irão se decepcionar com o novo filme. Deixo aqui minha indicação enfática para que você corra para os cinemas e também se encante com a história de amizade e horror na pacata Derry que – não podia ser diferente – fica no Maine.
IT - A Coisa (IT)
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Ano: 2014
Skoob: 4.5 Estrelas / Goodreads: 4.1 Estrelas
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05 Estrelas
Foi em 1958, na pacata Derry, que Bill, Richie, Stan, Mike, Eddie, Bem e Beverly aprenderam o real sentido de algumas palavras. Durante as férias escolares, descobriram o que significava amizade, amor, confiança e... medo. O mais profundo e tenebroso medo. Naquele verão, eles enfrentaram pela primeira vez a Coisa, um ser sobrenatural e maligno que deixou terríveis marcas de sangue em Derry. Quase trinta anos depois, os amigos voltam a se encontrar. Uma nova onda de terror tomou a pequena cidade, e somente eles serão capazes de enfrentar a Coisa. O tempo é curto. Mas eles irão até o fim, mesmo que isso signifique ultrapassar os próprios limites.
Autor: Stephen King era um leitor fanático dos quadrinhos EC's horror comics incluindo Tales from the crypt, que estimulou seu amor pelo terror. Na escola, ele escrevia histórias baseadas nos filmes que assistia e as copiava com a ajuda de seu irmão David. King as vendia aos amigos, mas seus professores desaprovaram e o forçaram a parar. De 1966 a 1971, Stephen estudou Inglês na Universidade do Maine em Orono, onde ele escrevia uma coluna intitulada "King's Garbage Truck" para o jornal estudantil, o Maine Campus. Ele conheceu Tabitha Spruce lá e se casaram em 1971. O período que passou no campus influenciou muito em suas histórias, e os trabalhos que ele aceitava para poder pagar pelos seus estudos inspiraram histórias como "The Mangler" e o romance "Roadwork" (como Richard Bachman).

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