Resenha: O Ódio que Você Semeia - Angie Thomas

Uma história potente, voltada para jovens, sobre racismo e o quanto ele ainda mata

agosto 17, 2017 - Postado Por: Redação SOODA
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Uma história potente, voltada para jovens, sobre racismo e o quanto ele ainda mata




Imagine a seguinte situação hipotética. Um casal de negros em um carro é parado pela polícia. Os policiais já pressupõem que eles são bandidos, e assim fazem uma revista no casal. Não encontram nada. Porém, quando um deles volta para o carro, um dos policiais se assusta e dá um tiro matando o cidadão, que sequer estava armado. A situação, já não parece tão hipotética assim, né?

Por exemplo, comigo, aconteceu uma situação semelhante, no Rio de Janeiro. Claro, sem os tiros e eu e o motorista não eramos um casal. Na verdade, ele era um taxista negro que me levava para o hotel, quando os policiais em punho com a arma fez a revista no cara. Confesso que fiquei com bastante medo.



E sabe a primeira situação que relatei nesse post. Então, ela é o plot principal do livro "O Ódio que Você Semeia" da autora Angie Thomas. Porém, o assassinato do jovem negro é só o início.

Inspirada nos assassinatos que deram origem ao movimento "Black Lives Matter" em 2014, a história retrata a vida da jovem Star Carter, que aos 16 anos presenciou o assassinato do seu melhor amigo, Khalil. Agora ela é a única testemunha desse crime brutal que pode movimentar toda uma comunidade. E com certeza irá.

Todos sabemos o papel fundamental da policia para o controle de crimes e a segurança da sociedade, porém não é de hoje que muitos movimentos sociais questionam o papel que a policia vem desempenhando, especialmente os seus excessos que acabam por vezes assassinando pessoas que não tem haver com nenhum tipo de crime, e mesmo que tivesse, o papel do Estado se refere a proteção de todo e qualquer cidadão e não seu assassinato. É totalmente compreensível, uma família que sofreu algum tipo de atentado tenha um sentimento de revolta, porém o Estado não pode agir como justiceiro social, ele precisa racionalizar acerca dos problemas sociais. "E bandido bom, não é bandido morto, é bandido recuperado", até porque se ele morre, outros sempre aparecem, afinal de contas, violência gera violência e essa guerra nunca chegará ao seu fim.

Enfim, é fato que a policia tem incrustado uma aura racista, assim como toda a sociedade, especialmente a sociedade norte-americana (o que não significa que no Brasil não exista racismo, pelo contrário, porém são contextos diferentes). Afinal de contas, o policial não é uma entidade descolada dos preconceitos que a sua sociedade possui, se ele faz parte dela, estará sujeito aos mesmos problemas sociais.



STAR NA ESCOLA

Como os pais de Star são de classe média, eles conseguem coloca-la em uma escola que fica fora do bairro onde moram, por considerarem que lá o aprendizado é bem maior do que aonde ela mora. A questão é que na escola em que ela estuda, a maioria dos estudantes são brancos e estão inserindo em outro contexto sócio-cultural. Então Star cria uma segunda versão dela para se adaptar a aquele contexto, e assim ela potencializa outros gostos, evita usar gírias decorrentes do local onde mora, tenta de todas as formas se adaptar aquela escola. Porém, ela ressalta em vários momentos, o quanto isso é exaustivo. Ser uma pessoa, que ela não é de verdade.

Além disso, Star tem duas amiga; Maya, uma jovem oriental e Hailey, uma jovem branca e loira. Um dos problemas que tem acontecido é que Hailey parou de seguir Star no Tumblr (Quase uma heresia), porque não queria ver o sofrimento de negros que a jovem negra compartilhava por lá. Além disso, ela fazia brincadeiras, que a priori poderiam ser inocentes, mas agora que Star tem ficado super sensível com o que aconteceu com Khalil, percebe o quão racista e sem graça são esses apelidos, que por sinal Hailey não fazia só com Star, mas com Maya também. E o pior de tudo, ela ainda não se considera racista, acha que as duas estão exagerando (mimimi). Porém, se deixou levar pelo que a mídia tem falado sobre Khalil, considerando-o um traficante que merecia morrer.



STAR NO GUETO

Star em sua casa pode relaxar em seus gestos, modo de falar. Porém, por lá não tem sido nada fácil. O clima de luto pairava pela sua comunidade. Seu pai e mãe andavam brigando bastante, porque ele não queria sair da comunidade, porque acha que tem que estar lá sempre pra ajudar seus amigos, porém a senhora acredita que não é preciso viver lá para isso. Além disso, durante o funeral surgiu um boato que Khalil fazia parte de uma gang da redondeza, o que claro poderia pesar bastante na hora das investigações e seria só um pano pra manga midiática.



STAR NO JULGAMENTO

Como única testemunha do crime do policial, Star tem uma difícil missão, para uma garota de 16 anos. Enfrentar os depoimentos que claramente tem como objetivo absolver o policial. Ou seja, irão procurar tudo o que for necessário para justificar o crime, além de enfrentar a mídia que desconhece todo o contexto e assim como as pessoas que não moram naquele contexto já tem seus pré-julgamentos e farão para que todos acreditem nesse pré-julgamento.

A jovem se vê amedrontada, ameaçada, como se fosse Star contra esse sistema. As atitudes delas são condizentes sim para uma jovem de 16 anos, apesar de que são bem sensatas a uma pessoa que sabe da importância do seu papel perante a esse sistema opressor.

Esse livro é muito importante para entender todos esses contextos sociais, todas essas intercorrências, para gerar empatia. Aliás, essa é uma das diferenças, quando alguém que é do meio escreve sobre aquele tema, tem uma vivência e consegue transpassar com muito afinco detalhes que um mero expectador conseguiria captar. Detalhes que vão desde o andar, conversa entre os pais e filhos, problemas estruturais, contextos sócio-culturais específicos. Isso tudo está presente nessa história, em cada paragrafo e palavras que são colocados na medida certa.

Agora, como falei anteriormente, o contexto desse livro é o norte-americano, então detalhes e referências dizem respeito àquela sociedade, que diverge bastante do nosso contexto sócio-cultural, apesar de haver bastante questões convergentes e é sobre essas questões que acaba tornando esse livro global. Porém espero que essa história sirva de exemplo para que jovens escritores brasileiros de nossas comunidades, contem a sua história, contem a sua versão desses imenso problema social que insiste persistir através dos séculos: O racismo.

O Ódio que Você Semeia (The Hate U Give)
Autora: Angie Thomas
Editora: Record (Galera Record)
Ano: 2017
Skoob: 4,7 Estrelas / Goodreads: 4,6 Estrelas
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5 Estrelas
"Uma história juvenil repleta de choques de realidade. Um livro necessário em tempos tão cruéis e extremos Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente. Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa. Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar."
Autora: Angie Thomas nasceu, cresceu e ainda reside em Jackson, Mississippi. Ela é uma ex-rapper adolescente cuja maior realização foi um artigo sobre ela no Right-On Magazine. Ela possui um BFA na Creative Writing da Belhaven University. A novela de Young Adult, The Hate U Give, será publicada por Balzer + Bray / HarperCollins em 28 de fevereiro de 2017.

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